O METRÔ E O TÍTULO

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Aí vai a íntegra da coluna publicada no Correio Braziliense sobre o GP de Cingapura… Boa leitura!

GP de Cingapura de 2008. Esqueça a batida de Nelsinho Piquet, a “providencial” ajuda a Fernando Alonso e a revelação, um ano depois, de que o que parecia ser simples coincidência foi, na verdade, o roteiro de um dos mais lamentáveis episódios da história do automobilismo. O personagem em questão não estava envolvido na marmelada e seu abandono, embora inusitado, viria a ficar em segundo plano. Mark Webber teve problemas na Red Bull, deixou a prova e dias depois, piloto e equipe insistiram na tese de que a pane elétrica que parou o carro foi provocada por… interferência da linha do metrô que, em alguns pontos do traçado, realmente passa próximo, mas sabe-se lá se o suficiente para atrapalhar a traquitana tecnológica que é um F-1 moderno. Metrô a parte, Webber também não terminou a corrida do ano passado, mas certamente não era o fato de ter recebido a bandeirada pela primeira vez nas ruas da cidade-estado asiática o motivo de tanta comemoração no pódio, mais até do que a do vencedor Alonso, desta vez por mérito próprio. Só para ficar na seara esportiva e usar como comparação um esporte que está entre seus favoritos (tanto assim que quebrou a perna na etapa de mountain bike de uma corrida de aventura no fim de 2008 e iniciou o campeonato passado ainda em recuperação), o piloto de Queanbeyan parece aqueles ciclistas que, de forma algo inesperada, passam a vestir a camisa amarela de líder da Volta da França e, com ela, descobrem ter uma força insuspeitável, como se aquela simples peça de roupa trouxesse uma enorme vantagem psicológica (e no fundo é o que ocorre). Está certo, a Ferrari está de volta ao jogo, Alonso deu mais uma mostra de todo seu talento (e sorte, por que não?), mas nunca é demais lembrar que fez bobagens como ficar nos boxes esperando a chuva passar no treino oficial do GP da Malásia para largar do fundo do grid. Ou bater como um principiante no último treino livre em Mônaco, para ver, impotente, os 23 adversários brigando pelas posições de largada. Como piloto, sua habilidade é inquestionável, mas o time de Maranello ainda parece esperar por um novo Schumacher: alguém que saiba interferir na estratégia, assumir a responsabilidade, ser regular como um relógio suíço. Um papel que ainda parece não cair bem nos ombros do asturiano. O australiano, por sua vez, tem conseguido reunir todos os ingredientes necessários para o número 1, além de ainda contar com várias cartas na manga: tem um motor novo a mais do que Alonso e o companheiro Vettel, tem sabido arriscar na hora certa, é cirurgicamente preciso, agressivo na medida certa e parece bafejado pela sorte, substantivo que quem vive de velocidade prefere dizer que não existe. Somente a confiança de ter nas mãos um carro perfeito e a capacidade de comandá-lo como se deve justificam que, com pneus duros desgastados por 58 voltas, ele mantivesse a trajetória ideal e controlasse, com sobras, qualquer tentativa de ataque de Jenson Button. Quer dizer que o campeonato está decidido? Claro que não. Perder pontos como perderam Vettel (culpado) e Button (inocente) em Spa-Francorchamps; ou Hamilton (que parece ter involuído em relação ao prodígio que desembarcou no circo em 2007, ou acha que o simples fato de já ter ostentado o número 1 no bico de sua McLaren dá alguma prerrogativa que os rivais não têm) pode ocorrer com qualquer um dos cinco candidatos ao título. Sabe-se lá se teremos GP da Coreia do Sul ou não. O que parece claro é que Mark Webber não demonstra ser susceptível à pressão de um adversário, ainda que seja Alonso. No mais, palmas para Rubinho, que consegue agora, numa Williams em busca dos tempos que já se foram, o que raramente fez no auge da carreira: ganha de goleada de um companheiro talentoso e sedento para mostrar serviço. Merece mais um ano na F-1, especialmente se seguir tirando leite de pedra. E quanto a Felipe Massa, meu temor é de que o melhor momento tenha passado. Triste ter que praguejar pela chuva que veio na hora errada em Interlagos e mudou completamente o rumo da história. Ou, pior ainda, lembrar que, sem a marmelada cingalesa, o 1 estaria no seu carro em 2009, não no de Hamilton…

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