Não é o caso de xingar Xangai – Coluna Sexta Marcha

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Nada me tira da cabeça que a bandeirada quadriculada que encerrou o GP da China duas voltas antes do previsto teve muito de jogo de equipe. Que Charlie Whiting, diretor de prova, recebeu no rádio uma ordem do tipo: “Lewis Hamilton é mais rápido que você. Que você, que Nico Rosberg, Fernando Alonso, Daniel Ricciardo, Sebastian Vettel…”. E diante da evidência de que nada mais mudaria com duas, oito ou 10 voltas – vá lá, o espanhol da Ferrari até poderia perder o pódio para o australiano da Red Bull – deu-se o término precoce. Tio Bernie bem que tentou e fez valer sua influência com São Pedro e as águas desceram no sábado, como que a tentar embaralhar as cartas e garantir emoção. Até serviu para uma das Flechas de Prata, não para as duas.

Mas por que Xangai não foi o Barein, a festa de ultrapassagens, de rodas travadas, de disputas no limite e além dele, das implacáveis mensagens no pé da tela “o incidente entre o carro x e o carro y está sob investigação”? Teríamos todos sido enganados pelo sonho de uma noite das Arábias, acreditando que a nova F-1 seria sempre assim? Se valesse apenas o lado torcedor eu diria que sim. Mas basta voltar um pouco no tempo e imaginar que, quaisquer que fossem as regras, as feras no grid, o contexto, sempre houve GPs de tirar o fôlego e outros de dar vontade de desligar a TV e arrumar outra coisa para fazer.

E olha que as 56 voltas (perdão, 54) do GP da China não foram das piores. Mas estávamos numa pista com curvas longas, intermináveis, não o freia forte e reacelera. Os pneus, especialmente os dianteiros, se desgastaram mais que o habitual para os padrões 2014. A farofa em torno da trajetória ideal desencorajava qualquer manobra mais agressiva, sem contar que quem já tem pontos na carteira começa a pensar duas vezes antes de fazer (nova) bobagem. E a estratégia seguida pelas equipes foi de encontro a qualquer lógica: esperava-se três paradas e pneus macios todo o tempo – na maior parte dele, pelo menos – e o que se viu foi uma postura conservadora, muito embora os médios fossem quase dois segundos mais lentos por volta.

O único em condições de manifesta superioridade técnica era Rosberg, e o alemão fez o que dele se esperava: largou em quarto, terminou em segundo, e salvou a liderança no Mundial. Fernando Alonso mostrou o quão robusta é a Ferrari, a ponto de suportar a pancada com Felipe Massa – lance de corrida –sem nenhum dano. E, talvez inspirado pela presença de um novo chefe que ouviu muito e falou pouco, voltou a ser Fernando Alonso. Quem está distante de si próprio é Sebastian Vettel, que ainda não se mostrou totalmente à vontade na F-1 versão 2014 e começa a sonhar com a mensagem: “Daniel está mais rápido que você, deixe-o passar”. De Felipe Massa o fiel escudeiro Rob Smedley já comentou e pediu desculpas, não adianta chorar o pneu invertido. E não será sempre que veremos GPs como o de ontem, como também não será sempre que veremos tanta movimentação numa corrida só como em Sakhir.

A história se repete

Ainda que Ferrari e Red Bull (a McLaren parece fora, ao menos por enquanto) consigam reduzir o abismo técnico que as separa da Mercedes, a equipe alemã sediada na inglesa Brackley pode se espelhar em sua antecessora. No Mundial de 2009, a Brawn, que se transformaria na própria equipe alemã sediada na inglesa Brackley, começou o ano arrasadora com seu difusor duplo e, quando o cenário se equilibrou, era tarde demais. Longe de dizer que é hora de administrar, mas a situação é confortável o suficiente para alguns passos em falso.

Grita, apesar de…

Nos bastidores, correu a notícia de que a Lotus estaria insatisfeita com o tratamento dispensado pela Renault, que, no entender dos dirigentes do time preto e dourado, teria oferecido melhores condições técnicas à Red Bull e à Toro Rosso – leia-se: unidades motrizes mais confiáveis e potentes. Os franceses não se pronunciaram, e muita gente diz que gastaram menos do que Ferrari e Mercedes. Mas o mais curioso foi ver, nas laterais dos carros de Romain Grosjean e Pastor Maldonado, num espaço normalmente usado pela Genii Capital, controladora da Lotus, por falta de quem pague, a marca da… Renault, com direito a versão em mandarim. Nem isso foi capaz de aplacar a insatisfação…

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