NA CONTRAMÃO DO BURBURINHO (OU UM SENNA DIFERENTE)

Publicado em Sem categoria

É isso mesmo. Diante de tanto burburinho, de tudo o que foi dito, escrito e conjecturado sobre o GP do Brasil (e o que o jornalista tem a dizer sobre o fim de semana em Interlagos vem no próximo post, com a reprodução da coluna que está sendo publicada na edição de hoje do Correio Braziliense), o blog resolve seguir o caminho contrário, e falar sobre um Ayrton Senna surpreendente que transpareceu justamente no domingo do GP do Brasil. Ainda não tive – a exibição nacional está prevista para dia 12, também conhecido como sexta-feira) – a oportunidade de acompanhar o documentário do inglês Asif Kapadia, mas não é a ele que me refiro. Falo de uma entrevista que a Globo encontrou perdida nos arquivos de uma agência francesa de notícias, de abril de 1994. O tricampeão havia sido chamado para dar o pontapé inicial do amistoso Brasil x Paris Saint-Germain, no Parc des Princes, em Paris, e apareceu diante das câmeras como talvez nunca tivesse sido visto.   Havia tido um desempenho desastroso em suas duas primeiras corridas pela Williams mas, nem por isso, se mostrava triste ou mal humorado. Questionado sobre o que seria aquele ano para o esporte brasileiro, disse que confiava bastante na Seleção de Parreira (que, a bem da verdade, consagraria meses depois nos gramados dos EUA o talento de Romário), mas admitia que na Fórmula 1 seria mais difícil, ainda que houvesse 14 corridas pela frente. Com uma tranquilidade desconcertante para quem fez de vitórias e títulos obsessão, deu a entender que lutaria até o fim, mas encararia com normalidade uma derrota para o alemão abusado de nome Michael Schumacher que começava a cruzar seu caminho.   E foi mais longe ao falar dos planos para os anos seguintes e o que vislumbrava para o fim da carreira. Queria saúde, a companhia da família e, por longo tempo, a condição de continuar fazendo o que gostava de forma competitiva. Quando não fosse o caso, saberia lidar com o momento e teria mais tempo para se dedicar às demais paixões, viver a vida, ter próximos todos aqueles de quem gostava. Enfim, buscaria prazeres e sensações que muitas vezes a correria das pistas lhe negavam.   Nada de referências divinas, de promessas de feitos fantásticos, mas palavras de quem parecia viver um momento de maturidade em sua trajetória. Um Senna competitivo como sempre, mas humano, próximo como nunca. Que sabia do que já tinha feito, do que representava para o mundo do esporte (e não só) e era capaz de sorrir com a própria falta de desenvoltura ao tentar mostrar habilidade com uma bola de futebol. O que faz com que o ocorrido 10 dias depois, naquela implacável curva Tamburello, torne-se ainda mais estúpido, mais descabido, passados 16 enormes anos. Algo me diz que ainda estávamos próximos de ver o melhor Senna em ação, capaz de reviver o menino que, com a Toleman, não se importou com os nomes dos adversários e os enfrentou com igual desenvoltura…    

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *