Graças a Lorena (Coluna Sexta Marcha)

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Aí estão as 55 linhas publicadas na edição impressa do Estado de Minas de hoje sobre a magistral vitória de Fernando Alonso – podem falar tudo do asturiano, menos que não é um piloto diferenciado, acima da média. E teve sorte, mas teve competência, estratégia bem-feita pela Ferrari, e tudo o mais. Assim, será tri sem ter o melhor carro… Quanto ao comentário do leitor Gustavo, no post abaixo, em breve eu falo sobre a seca de pilotos brasileiros despontando nas pistas do mundo e a dificuldade de ver os outros brilhando, enquanto nós corremos atrás…

Graças a Lorena

“Depois a gente ouve o rádio do Grosjean, pois agora estamos falando da

Fátima”. Eu, que não tenho o que falar da Fátima e queria ouvir o rádio do

Grosjean, prefiro falar do nome do GP da Europa. E da irmã dele. Que bom

que Lorena, com oito anos, não deu muita pelota ao kart que o pai, José Luís,

especialista em explosivos, construiu nos fundos de casa, em Oviedo. O pequeno

Fernando, então com três, precisou de uma ajudinha para alcançar os

pedais, mas, assim que conseguiu encostar o da direita, não parou mais. E

mostrou ontem, nas ruas de Valência porque merece, mais do que qualquer

outro adversário, terminar o ano com o número 1 em sua Ferrari.

Não espere de Fernando Alonso as brincadeiras com os rivais das entre-

vistas coletivas – coisa que Jenson Button, Sebastian Vettel, Mark Webber,

Felipe Massa e mesmo Michael Schumacher fazem com maior desen-

voltura. Nem espere por sorrisos intermináveis, demonstrações típicas de

alguém em cujas veias corre sangue latino. Por vezes, as expressões faciais e

o silêncio dizem mais do que qualquer palavra. Profissionalmente, ele

responde cada pergunta, mas, quando o assunto não interessa, faz longas

pausas, dirige o olhar ao longe, respira forte com um quê de arrogância que,

no fundo, é apenas o “jeito Alonso” de ser, sério, mas não sisudo ou antipáti-

co. O mesmo dos gestos nada econômicos diante das câmeras para prague-

jar um retardatário que não lhe dá passagem. Ou que fez questão de mostrar

a lateral da McLaren danificada depois do GP da Europa de 2007 (em

Nurburgring), antes de iniciar uma “troca de gentilezas” com Felipe Massa, a

quem tentava culpar, em perfeito italiano.

O asturiano é feito do barro dos grandes campeões. Claro, tem episódios

nada abonadores no currículo – não há cristão no mundo que me convença

de que ele não sabia o que se passava na tramóia armada por Flavio Briatore

e Pat Symonds envolvendo Nelsinho Piquet, que acabou com a triste vitória

em Cingapura’2008. E pecou pela soberba ao achar que os dois títulos fariam

dele o líder inquestionável na McLaren contra um Lewis Hamilton que era o

menino prodígio do time de Woking.

Mas faz parte do repertório dos grandes ver os mares se abrirem bem à

sua frente (felizmente a ponte que atravessa o canal não se mexeu durante

as 57 voltas). A chance de superar Vettel em condições normais era próxima

de zero, mesmo com o safety car. A de resistir aos ataques de Grosjean bem

maior. E pode ser chavão dizer que a sorte acompanha quem trabalha, mas

se aplica com perfeição. Pudesse ele, já teria montado acampamento ao lado

do simulador de Maranello – e olha que chacoalhar numa traquitana que

parece a mistura de disco voador e aracnídeo não é das atividades mais

agradáveis, mesmo para os pilotos. E ele soube dosar agressividade, com-

petência, inteligência tática, além de contar com o suporte perfeito dos

boxes e se virar com destreza no tiroteio em que se transformou o pelotão

intermediário – Pastor Maldonado simplesmente enlouqueceu ao se con-

siderar com a razão depois de tentar passar por Hamilton fora da pista,

enquanto Kobayashi-San virou personagem involuntário de duas refregas

com os brasileiros.

Por essas e outras é que a emoção foi palpável, que o sorriso e as lágrimas

fizeram lembrar que Alonso é, sim, latino até o último fio de cabelo, e que

merece mais do que qualquer um terminar o ano na frente – alguém aí se

lembra que o F2012 está longe de ser o melhor carro do circo? E o problema

vai ser explicar às próximas gerações como se faz para vencer nas ruas

depois de largar em 11º – o jeito vai ser mostrar as imagens. Considerando-

se as experiências passadas, seria possível até falar em arranjo, manipulação

para se chegar a um resultado tão especial. Mas nem Bernie Ecclestone, com todo seu poder, seria capaz de armar um cenário tão incrível. Aupa, Fernando!

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