Final feliz (Coluna Sexta Marcha)

Publicado em Sem categoria

Aí está ela: a coluna publicada no Estado de Minas sobre o GP da China e seu desfecho surpreendente, como aliás tem sido toda a temporada, para a alegria de quem enjoou do domínio de Sebastian Vettel e da Red Bull. O mínimo que é possível acrescentar é que a conquista inédita de Nico Rosberg foi mais do que merecida, e que felizmente surgiram elementos novos capazes de embaralhar as cartas e interferir nos resultados. Se será assim o ano todo é cedo para afirmar, mas que o começo é animador, sem dúvida. Tanto que originalmente o texto era até maior, mas sofreu alguns ajustes para caber no espaço a ele destinado, já que papel não estica, como o leitor bem sabe…

FINAL FELIZ

Personagem 1: a chegada à F-1 é marcante. Você está no comando de uma limitada Williams Cosworth e, na primeira corrida, entra sem pedir licença nas estatísticas da categoria. Marca pontos e estabece a melhor volta do GP do Barein. Já seria o suficiente para se imaginar dando voos bem maiores, ainda que você não fosse o campeão reinante da recém-criada GP2, viesse de uma carreira elogiada no kart como companheiro de equipe de um “certo” Lewis Hamilton e trouxesse no sobrenome o mesmo Rosberg que o pai, Keke, levou ao topo do circo em 1982. Mas, as temporadas passam, a situação nada animadora da escuderia de Grove prossegue, as ofertas dos times de ponta não se concretizam e mesmo a mudança para a Mercedes, que herdou o espólio da campeoníssima Brawn não muda muito o cenário. Ser sistematicamente mais rápido do que um tal de Michael Schumacher deve massagear o ego, mas Nico parece fadado à síndrome de Jenson Button, que esperou intermináveis 112 GPs até finalmente fazer as pazes com a tão sonhada vitória. No caso do alemão de sangue finlandês, foram “apenas” 111.

Personagem 2: Uma a uma, Toyota, Honda, BMW e Renault deixam o Mundial ou redimensionam sua presença (no caso da marca francesa, que segue fornecendo seus V8 com sucesso). Na contramão da história, você convence um nada amigável conselho de administração de que chegou a hora de voltar, não como coadjuvante dos sucessos da McLaren, mas em primeira pessoa. No bolso do paletó, a carta decisiva: trazer de novo às pistas o heptacampeão Michael Schumacher, que jurou amor eterno à Ferrari, mas não ficaria mal com seus fãs ao refazer a parceria que o revelou para o mundo do automobilismo e permitiu o começo de tudo, em 1991. Nada de partir do zero, mas de uma base que, sob o comando de Ross Brawn, no ano anterior, deixou a concorrência falando sozinha, de forma surpreendente. A chance de fracasso é mínima. Só que Brawn foi obrigado a dispensar boa parte do time que herdou da Honda, o difusor duplo, grande arma do carro que levou Jenson Button ao título está proibido e a Red Bull, que já vinha mostrando as garras em 2009, atinge a maioridade. Para piorar, os patrocinadores são poucos e a verba sai dos cofres da fábrica de Stuttgart, o que desagrada aos executivos. Parece questão de tempo para que o bonachão Norbert Haug, o ex-jornalista que se transformou em diretor de competições da Mercedes, volte a se concentrar no DTM e esqueça a aventura da F-1, assim como a fabrica que representa.

Personagem 3: entra em cena Ross Brawn, que já fez sua parte há três anos, provou tudo o que tinha que provar, mas se manteve no barco quando ele trocou o branco pelo prateado. O pé de meia está mais do que feito, mas não ficaria bem acrescentar um fracasso retumbante ao currículo. Com as rédeas do time na mão, ele contratou Aldo Costa e Geoff Willis, reforçou todos os departamentos da sede de Brackley e, depois de dois anos, o discurso otimista finalmente parece ter justificativa. Ainda mais se, a exemplo de 2009, você encontra uma brecha no regulamento e, de modo até ingênuo, pensa no que ninguém imaginou. E aproveita a circulação do ar sem a interferência do piloto (o que foi banido em 2010) para ganhar velocidade nas retas quando a asa móvel (o DRS) é acionado.

O GP da China bem poderia ser daqueles filmes em que histórias e personagens paralelos se cruzam. E no fundo foi, mas com um roteiro no mínimo inesperado. De repente, o carro do duto mágico, que devorava pneus na pré-temporada não só passa boa parte das 56 voltas sem depender da ajuda do DRS, como faz uma parada a menos do que os principais rivais. Os sorrisos e a alegria traduzem também o alívio, as toneladas que saem das costas de nossos três protagonistas.

Dizer que a corrida foi movimentada, capaz de manter os olhos bem abertos em plena madrugada, seria chover no molhado que, desta vez, só veio nos treinos. Todos ainda tentam entender como, depois de um ano marcado pela supremacia de Sebastian Vettel, 2012 trouxe três vencedores diferentes, resultados antes inimagináveis e a certeza de que, se a McLaren é o melhor carro, fatores como estratégia, temperatura e condições de pista terão peso bem maior. No mais, admito que não esperava tamanha tranquilidade de Bruno Senna, que mostra não se preocupar com Pastor Maldonado e já é o oitavo na classificação. De Felipe Massa, a triste constatação de que a mesma estratégia que o levou à liderança (ainda que circunstancial), o fez terminar longe dos pontos. Fica a impressão de que ele é bem mais refém do comportamento do F2012 do que Alonso, e nada consegue fazer para mudar o cenário. E já que estamos falando de cinema, que as cenas vindas do Barein não sejam dignas de filme de guerra. Não se trata de ingenuidade, mas, a esta altura, não vejo como o GP possa ser usado pelos xeiques para vender a imagem de normalidade. A situação é lamentável, o mundo todo sabe, mas se formos discutir a dobradinha entre política e esporte, o circo não teria visitado Brasil e Argentina no auge da repressão, a África do Sul do apartheid, a Hungria ainda comunista ou esta mesma China. Daria assunto para outra coluna…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *