Dan Wheldon, 1978-2011

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Confesso que imaginei como abriria o post sem cair na pieguice ou no lugar comum, e me lembrei que o personagem tinha o nome estampado na agenda logo abaixo. Era para o GP de Las Vegas da Indy Racing League (IRL) ser uma passarela de astros das pistas em busca de um prêmio de US$ 5 milhões, os nomes mais variados foram cogitados, como se fosse fácil aprender a andar num oval que, nos tempos da ChampCar, provocou náuseas e o cancelamento de uma etapa quando os pilotos sentiram, na pele, os efeitos de acelerar sob tamanha inclinação, com uma pressão aerodinâmica monstruosa, o tempo todo no fio da navalha.

Sobrou quem, até ontem, era o personagem da mais sensacional história da era recente das 500 Milhas de Indianápolis. Vencedor, campeão, desempregado, Dan Wheldon era um dos que mereciam um carro de ponta na categoria por tudo o que fez e representou. Começou como piloto de testes da Andretti Green, foi ganhando espaço aos poucos, mostrou serviço rapidamente e logo se transformou numa das estrelas do campeonato, até viver o lado ruim da parábola e ser dispensado da Panther Racing apenas e tão somente pelo fato de não ser norte-americano, já que o patrocínio era da Guarda Nacional. A modesta equipe de Bryan Herta lhe deu uma chance de voltar às 500 Milhas e o destino lhe abriu as portas da vitória na última curva, depois que seu substituto, J.R. Hildebrand estampou o Dallara Honda na entrada da reta dos boxes, a poucos metros da bandeirada. E lá estava Wheldon de novo bebendo o leite do vencedor. O “underdog”, o azarão, como os EUA tanto cultuam.

Sim, o inglês do sorriso de plástico – ficou com cara de boneco de brinquedo de tão brancos e certinhos que os dentes ficaram num tratamento odontológico – aprontou das suas, passou dos limites as vezes, mas mesmo com todos os que andou trocando tinta nas pistas, se transformou em amigo. Não me esqueço de uma vez, em Homestead, momentos antes da largada, quando o repórter Antônio Petrin, da Band, foi brincar com o piloto do carro 27 (de então), sobre a amizade com Tony Kanaan, à época, companheiro de equipe. “Soube que o Tony te ensinou muitas palavras em português. Fala alguma coisa”, foi a deixa. “P… que p…! M….”, disparou em rede nacional o britânico, para a surpresa nada agradável do jornalista.

Pois aquele destino que no fim de maio foi tão camarada, resolveu cobrar seu preço. Não, o inglês não alinhou na última posição do grid como convidado por causa dos US$ 2,5 milhões que levaria caso cruzasse em primeiro, o que valeria bolada semelhante a um sortudo torcedor. Dan, que quando se sagrou campeão mereceu da revista Autosport, bíblia de seu país, um trocadilho inspirado, “Well done, Dan”, era um animal de competição como todos os adversários. Andou uma corrida, enquanto os rivais fizeram 17. E já pensava em 2012, quando, tudo indicava, voltaria a ter papel de destaque, talvez até pela mesma Andretti Green que o dispensou para dar espaço ao filho do dono (Marco merecia, é verdade, mas Wheldon não deveria ter perdido a vaga).

Mas, a bem da verdade, o piloto de 33 anos, que deixa a viúva Susie e dois filhos pequenos, foi a vítima de uma tragédia anunciada. Por oito anos a atual geração de máquinas bateu rodas nos ovais sem que uma cena semelhante se registrasse. Ok, Ryan Briscoe teve uma batida aterradora em Chicagoland, Mario Andretti decolou num treino para desenferrujar em Indianápolis, Paul Dana não resistiu em Homestead’2006. Nada parecido, no entanto, com aqueles acidentes impressionantes da Nascar, que felizmente mais chamam a atenção pela dinâmica do que pelas vítimas.

Na última corrida dos veneráveis Dallara Honda, alguém decidiu que tamanha “sorte” não passaria impune. Aqueles carros que sempre passaram tão próximos uns dos outros haveriam de se tocar não de leve, mas como uma fila de dominós quando se empurra o primeiro. E, por mais que não adiante buscar culpados,  organização tem sua parcela. Indy, o oval dos ovais, com 4 quilômetros de extensão, permite apenas 33 no grid, de forma inflexível. Ora, em Vegas, com curvas de 20 graus e pouco mais de 2,4 quilômetros permitir 34 carros já era temerário. E isso sem um teste específico, sem um “rookie program” para avaliar e preparar os calouros, diferentemente da capital de Indiana. Não é questão de talento, mas de experiência, de ter a noção exata entre o quase e o passar da medida.

O encerramento de gala da temporada, a briga pelo título, se transformaram no cenário de uma cena inqualificável. Qualquer adjetivo aterrador, impressionante, trágico o suficiente não é capaz de resumir o que houve. Não apenas um carro voou, mas vários. Não apenas três ou quatro se envolveram, mas 15, ou quase a metade do grid. E, se alguns tiveram tempo de esboçar uma reação, outros se transformaram em reféns da própria sorte, passageiros do acaso, tiveram o futuro traçado por centímetros.

O que o pobre Wheldon poderia ter feito para evitar o impacto? Nada, pura e simplesmente. No ângulo e na velocidade em que veio, não apenas decolou, como deu uma volta sobre o eixo para atingir a cerca e a mureta de cabeça para baixo. Com tal combinação de fatores, chassi algum garantiria segurança, carro nenhum permitiria sair andando impunemente.

Menos mal que o show não foi adiante. Menos mal que uma nova geração de carros está a caminho – e que ironia maior poderia haver que a do responsável pelos primeiros testes ser exatamente Dan Wheldon – ainda que os atuais fossem fortes o suficiente para aguentar choques fortíssimos. Pena que 14 dos envolvidos saíram praticamente ilesos, mas um deles, e não um qualquer, não teve a mesma sorte. O choro de Dario Franchitti foi uma das cenas mais tocantes do domingo trágico, e lembrou ao mundo que eles são, sim, humanos, com emoções e temores. Não me surpreenderia se ele pedisse o boné depois do quarto título e fosse se divertir num campeonato como o DTM, onde surgiu para o estrelato, ou uma série de endurance. Há risco sim, mas não era para ser deste modo. Há muito a se aprender e ser feito para que, espera-se, um cenário como o de Las Vegas não mais se repita. Poderia ter sido qualquer um dos 34 e, por mais que se estivesse na terra do jogo, automobilismo, ao menos neste aspecto, não pode ser loteria. Rest in peace, Dan.

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