BARRACO NO BAREIN

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   Os protestos da população do Barein, na esteira do que ocorreu em outros países muçulmanos, que começam a acordar para uma realidade com a qual não concordam – de domínio político inquestionável e restrição de certas liberdades em nome do Islã – são um bom pretexto para falar da complicada relação entre a F-1 e o contexto político internacional. Na segunda e terceira décadas do século passado, quando ainda não havia um Mundial, mas as provas de Grand Prix, Hitler enxergou, no automobilismo, mais uma forma de propagandear seu regime, e fez de Mercedes e Auto Union máquinas de vencer corridas, comandadas por nomes como Rudolf Caracciola e Bernd Rosenmeyer, ou mesmo o italiano Tazio Nuvolari.

Em 1958, não era a F-1, mas também entraria para a história o sequestro de Juan Manuel Fangio em Havana, pelos guerrilheiros que tempo depois, sob o comando de Fidel Castro, tomariam o poder de Fulgêncio Batista – reza a lenda que não apenas ele foi muito bem tratado pelo grupo, como desenvolveu certa simpatia pelo movimento.

Mais tarde, o circo começou a fazer vista grossa para certas tristes realidades. Desembarcou no Brasil no auge do regime militar e também manteve sua etapa na Argentina, que vivia situação ainda mais sangrenta. E o que dizer as visitas à África do Sul em pleno apartheid, que sucumbiriam depois de muita pressão internacional – o retorno do país ao calendário, em 1993, foi apontado como um dos primeiros sinais da mudança na ordem, que culminaria com a condução de Nelson Mandela à presidência. E, em 1986, o desembarque na Hungria, festejado como a conquista de mais uma fronteira, já que carros e pilotos chegavam à Cortina de Ferro (com o beneplácito da então União Soviética), também precedia uma mudança que não tardaria a acontecer.

Nas últimas duas décadas, felizmente o que ameaçou a realização dos GPs disse respeito apenas aos fenômenos da natureza. Um temporal aqui, uma erupção vulcânica ali, mas nada que provocasse tamanha mobilização. E não custa lembrar que os Emirados Árabes, palco da penúltima etapa da temporada, vivem realidade semelhante. E que, embora se mostrem distantes desse tipo de movimento, Malásia e Cingapura, têm forte presença muçulmana. Sem contar que, ao lembrar do GP da Coreia do Sul, sempre é necessário citar a tensão com a vizinha do Norte; ou que a Índia, que está chegando, vive às turras com o Paquistão.

A preocupação de Mr.E (Bernie Ecclestone, para quem não sabe) é mais do que justificada. Na falta de uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada, que evento melhor do que a abertura do Mundial de F-1 para chamar a atenção do mundo e causar estrago potencial? É bom destacar que, até agora, todo o tipo de protesto ou reivindicação foi de natureza pacífica, mas os próprios barenitas alertam para a possível truculência das autoridades e temem um banho de sangue. E manter ou não a prova é uma decisão complicada já que, na semana anterior, o circuito de Sakhir receberia a última sessão de treinos coletivos. Sem contar que as escuderias despacharam, de navio, boa parte do material de que necessitarão, não só para o primeiro, mas também para os GPs seguintes. E as naves já rumam ao Golfo Pérsico.

Claro que, a esta altura, o fã do automobilismo está mais do que ansioso para ver o início da disputa, mas, é sempre bom lembrar, a F-1 é como o futebol, apenas um esporte. Não justifica riscos desnecessários e não deve oferecer seu brilho e dimensão planetários para uma tragédia…

 

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