AULA DE ENGENHARIA…

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Quem gosta de automobilismo gostaria de estar no meu lugar na noite desta sexta-feira, no escritório da equipe AFS Racing, de Rafa Matos. Tive a chance de assistir uma verdadeira aula, no que era “apenas” a reunião entre o piloto mineiro e os engenheiros Tom Brown e Adam Schaechter, para discutir o acerto inicial a ser usado nos treinos para a São Paulo Indy 300, a quarta etapa da temporada, no circuito de rua do Anhembi. O leitor deve imaginar que não se trata de uma ocasião muito comum, especialmente por se tratar de assunto “confidencial” guardado a sete chaves pelas equipes. Numa categoria tão equilibrada, qualquer jogada de mestre que proporcione ganho de um décimo de segundo é ouro puro. E, como brincou o próprio Rafa, depois de mostrar a suspensão traseira de seu Dallara Honda, e depois cobri-la novamente com uma capa, “the devil is on the details” (o diabo está nos detalhes).

Para começo de conversa, esqueça a idéia de que basta sentar no carro, acelerar, frear e esterçar o volante nas horas certas. Automobilismo é ciência mais do que exata. E nem é necessário contar com computadores potentes, ou estrutura digna de time de F-1. Bastam dois laptops, os bons e velhos cadernos de anotação e, das palavras de Rafa e das conclusões de Brown, com suas mais de duas décadas de trabalho ao lado de feras como Emerson Fittipaldi, Paul Tracy e Dario Franchitti, para que surja no papel um desenho do circuito, recheado de observações.

O piloto fala de como prefere o comportamento do carro, de como gostaria que ele se comportasse, enquanto Brown e Schaechter parecem falar a mesma língua, e apostam em sua teoria. Maior altura do carro em relação ao solo, suspensão mais macia e pneus com pressão mais alta são, segundo eles, o segredo para um bom desempenho (claro que estamos falando sempre de milímetros de diferença, de uma libra, ou uma libra e meia a mais, nada gigantesco). Algo que poderia contrariar a lógica, mas os engenheiros mostram com números e explicações, que tem tudo para ser o caminho certo. O número de pitstops já está definido (segredo que eu conto amanhã), bem como a decisão de usar o warm-up de domingo pela manhã para que Rafa teste sua capacidade de economizar etanol.

Lá se vão uns 40 minutos de briefing, e não faltam motivos para descontração, como, por exemplo, quando Rafa brinca sobre como fará para raspar a barba, ou pede a opinião dos demais sobre a sapatilha prateada que seu fornecedor mandou para a corrida (a maioria torce a cara, mas ele decide usá-la mesmo assim). E numa ocasião tão solene até mesmo este que vos escreve se mete no papo, tira dúvidas, tenta entender como será possível trocar a configuração dos treinos livres para a qualificação em menos de duas horas – só para que você entenda, inclinação das asas, pressão dos pneus, altura em relação ao solo, tudo isso muda. Brown explica cuidadosamente, e mostra que não é tão complicado assim. As histórias de corridas passadas, experiências que servem e outras que não, ajudam a temperar ainda mais uma experiência daquelas para não esquecer nunca. Se é que ainda havia alguma dúvida, estamos diante de um esporte de equipe, com certeza, e cheio de heróis muitas vezes nas sombras. E sabe quando eu teria uma oportunidade destas na Fórmula 1, ainda que fosse conhecido de fulano, amigo ou parente de beltrano? Nunca… Por essas e por outras que eu cada vez mais me convenço que o circo é fantástico, mas categorias como a IRL também são sensacionais…

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