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Sou jornalista e meu gosto por aventuras já me levou a lugares extremos! Com vontade e estratégia superei desafios artificiais e selvagens que se interpunham às histórias que buscava, acumulando experiência e técnicas. No Rotas do Explorador mostro expedições e dicas outdoor.

Uma pousada cercada de cerrado por todos os lados (parte 2)

Neste texto conto um pouco mais da minhas aventuras pela Pousada Trijunção, na tríplice divisa de Minas Gerais, Bahia e Goiás. Um lugar fantástico onde sentimos a vibração do cerrado. Confira e assista ao vídeo no meu canal do YouTube (abaixo)!

As estradas de terra vermelha que cortam o cerrado levam até uma estrutura quase camuflada entre as árvores baixas de troncos tortuosos e folhas entre espinhos. Impressiona como a Pousada Trijunção consegue incorporar os elementos desse bioma agreste de tal forma que se torna uma presença, ainda que artificial, num ambiente natural, mas que consegue ser harmônica e integrada. A madeira que é colhida na mata adorna cercas, degraus e outras estruturas. A palha dos coqueiros reveste os telhados da sauna e de outros ambientes. Nos jardins, os cactos e flores que tornam o cerrado ainda mais exuberante, atraem para dentro da hospedaria revoadas de pássaros curiosos e o voo colorido de borboletas.

Na área da pousada todos os espaços são devassados propositalmente, com as varandas e corredores se tornando grandes molduras para o cerrado. Uma torre que se ergue no meio da estrutura permite ver do alto a amplitude da mata que cerca a pousada em todas as direções, um reforço para a certeza de que o visitante se encontra mesmo isolado. É do alto, também, que se admira a impressionante diversidade de pássaros. Um lugar perfeito também para se observar o nascer ou o pôr do sol atrás da floresta.

De dentro do avião, chegando à pista de pouso de terra da Pousada Trijunção (Foto: Mateus Parreiras)

Quente o cerrado é a qualquer momento do dia. Por isso a piscina da pousada permite refresco e conta até com um bar. Uma forma de lazer e relaxamento integrada à paisagem, no meio da mata e ao lado do terreno arenoso das proximidades com as formações de veredas. A presença dos hospedes não intimida os pássaros, que também veem na água límpida da piscina uma forma de aplacarem também o calor com mergulhos rápidos, terminando empoleirados nas árvores ao redor. Nesse espaço há também uma sauna para quem deseja relaxamento extra.

Os quartos seguem o mesmo conceito e utilizam peças reaproveitadas de árvores caídas, de plantas ressecadas e de outros elementos fornecidos pelo cerrado para compor sua decoração. A ideia é retratar nos bordados, travesseiros e almofadas, referências ao Grande Sertão: Veredas, obra de Guimarães Rosa que inspira aquele ambiente com as aventuras dos jagunços e a cultura do sertanejo. Ainda que aparente ser rústico, os quartos são como capsulas que permitem um contato com o mundo exterior sem um brusco desligamento do ambiente selvagem de quem acabou de sair da mata. Tem ar-condicionado para trazer alento do calorão, wi-fi e TV a cabo para se comunicar com o mundo civilizado e saber o que se passa ou simplesmente se entreter assistindo a um filme ou a uma série.

O banho quente deixa no lugar e bem mais relaxada, a musculatura daqueles que caminharam o dia todo pelas trilhas e estradas. Sendo o pouso na cama king size o último ato de um dia inteiro de andanças, explorações ou simplesmente de contemplação. A chuva, quando bate no telhado, seja em rajadas fortes ou no pingar constante das garoas, ajuda a acelerar ainda mais a vinda de um sono restaurador. Uma forma de descanso que recupera incrivelmente as energias para o dia seguinte.

Ritmo aventureiro

É do ritmo aventureiro e dos expedicionários a necessidade de se acordar de madrugada para render as atividades diurnas, aproveitando deslocamentos e acampamentos sob a luz do dia e evitando a incerteza da escuridão da noite. Mas isso foi suprimido pela Pousada Trijunção. A ideia é que o conforto esteja sempre integrado às experiências dos hóspedes. Assim sendo, enquanto uma turma acorda cedo e se lança ao cerrado, os outros hóspedes podem dormir um pouco mais. Aliás, o café da manhã é servido o dia inteiro, permitindo quem assim desejar se manter por mais tempo se aventurando nos desafios e obstáculos dos seus sonhos.

O café é uma das refeições servidas no restaurante, um local isolado por vidros e que também remonta o clima sertanejo, mas com requinte. No centro, um fogão a lenha é a mesa para se servir de pratos de frutas da região, pães e doces compostos também de receitas com elementos regionais. Os sucos naturais também revigoram, bem como o café que traz aquele gosto de acampamento sertanejo.

A gastronomia da pousada segue dois contextos bem definidos e típicos dos pousos do sertão. A cozinha de dentro e a cozinha de fora. Na parte da cozinha de dentro se preza a intimidade das casas que recebiam os viajantes e ofereciam aquilo que era produzido nas fazendas. Assim ocorre também na Trijunção, que cria animais silvestre e bois para abate e os oferta em pratos criativos, com elementos também de cozinhas europeias. Com isso, a experiência de se alimentar com requinte é ampliada pela experiência de saborear o que oferecem a culinária típica mineira, goiana e baiana.

Talvez um dos momentos de descontração mais esperados ocorram na cozinha de fora, quando se passa o dia inteiro sentido o cheiro de churrasco de boi sendo feito com fogo de chão. Uma banda inteira de boi só termina de cozinhar nesse processo, no meio do terreiro, quando a noite chega. Melhor que isso é a grande mesa armada sob o luar e as estrelas, a proza da gente que trabalha na pousada e vive na região. Tudo isso ouvindo a música ao vivo de artistas regionais e suas violas.

Safari noturno é uma oportunidade de ter encontros com a fauna notívaga, como onças e outros animais (Foto: Mateus Parreiras)

Partindo para a aventura

As incursões para conhecer o cerrado que cerca a Pousada Trijunção por todas as direções pode ser feito de várias formas, por várias experiências guiadas e até passeios em bicicletas pelas estradas. As caminhadas matutinas para ver e fotografar aves, uma atividade que tem sido classificada como “passarinhar”, é também uma chance de admirar a mata e seus outros habitantes selvagens. A amplitude da fazenda é de tirar o fôlego. São 33 mil hectares, onde encontram abrigo 4.700 espécies de animais, entre anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos, numa área que tem ainda mais de 13 mil espécies de plantas. “Temos uma diversidade impressionante de aves por aqui. São 210 espécies catalogadas, como as araras, . Mas a estrela é mesmo o lobo guará. Temos uma parceria com a ONG Onçafari para a pesquisa e a preservação desse animal e, com sorte os visitantes podem encontrar com um deles durante nossos passeios”, disse o biólogo Luciano lima, coordenador de biodiversidade e sustentabilidade do Grupo AlmaA.

Segundo o biólogo, os planos são de ampliação das parcerias para monitorar também as onças pardas e pintadas que vagam pelo cerrado e que podem ser avistadas também, mas são ainda mais arredias aos olhares dos visitantes – o que pode mudar com a colocação de rastreadores pelos pesquisadores. A ferramenta é usada originalmente para auxiliar a entender os hábitos do maior felino do continente Americano e, assim, auxiliar na sua preservação.

O circuito da experiência de observação dos pássaros pode ser mais curto (3 km), por uma estrada arenosa e muito plana; média (5 km); e longa (10 km). Tudo depende da disposição do explorador. Os melhores horários para observar os animais é durante as primeiras horas da manhã, quando o sol está mais baixo e os bichos se encontram em plena atividade, montando ninhos com os gravetos secos, sacando minhocas do solo ressecado ou se empoleirando de galho em galho entre árvores e arbustos. A cada curva, uma surpresa camuflada entre folhagens e espinhos. Assim, quase que ao perceber um movimento diferente do balançar das folhagens ao vento que se identifica a camuflagem da pequena maria-corruíra (Euscarthmus rufomarginatus), uma ave de plumas marrons como o solo e cinzas como os galhos das árvores. O seu chiado característico já não é ouvido em muitos cerrados, como o de São Paulo, onde foi praticamente extinta. Por todo o país a espécie é ameaçada de extinção, mas na Trijunção ainda caça insetos e sobrevive fugindo das aves de rapina predadoras, como os carcarás.

Flagrante de um veado durante os passeios pela propriedade da Pousada Trijunção (Foto: Mateus Parreiras)

Aves mais preocupadas com sua luta diária pela subsistência ou acasalamento não escapam das técnicas do biólogo acostumado a circular por aquelas terras. Conhecedor de seus hábitos, Luciano amplia em muito a chance de o visitante conseguir a tão desejada fotografia das araras ou de pássaros mais exóticos. Se, ainda assim, não for possível avistar a ave sorrateira, ele lança mão de mais um de seus expedientes. À tiracolo, traz um gravador que toca pios e cantos desses animais, fazendo com que de repente se aproximem, curiosos ou apenas ciosos em defender seus territórios de caça e reprodução de possíveis invasores. Com essa técnica, por exemplo, o biólogo atrai pássaros como a bandoleta, de peito branco, papo amarelado e cabeça e costas pretas.

A versão noturna desse passeio, o eco-safari noturno, é realizado sobre veículos tracionados e precisa do auxílio de canhões de luz para avistar os predadores e animais furtivos que habitam a noite do cerrado. Sob um manto escuro de estrelas e o luar prateado delimitando a estrada e as matas, aparecem veados, tamanduás, jaguatiricas e outros animais noturnos, num clima mais ameno e imerso numa sinfonia garantida pelos insetos em seu momento de maior atividade.

Outra oportunidade de encontro de animais num clima de diversão e de forma a aplacar o calor é nos passeios de bote inflável e caiaque na vereda onde nasce o Rio Formoso. O lago de águas límpidas e geladas se ondula com os ventos sobre a sua superfície e convida o visitante a um mergulho refrescante em suas águas. As veredas da região são oásis nessa terra árida de sol inclemente. São marcos inspiradores que povoam a obra literária de Guimarães Rosa. A visão ao longe dos buritis, uma espécie alta de palmeirastrazia alívio aos viajantes por terem certeza de poder aplacar sua sede, uma vez que essas árvores residem necessariamente ao redor das margens das veredas e cursos d’água, como ensinam os personagens roseanos.

Manejo sustentável

As outras atividades de conservação e manejo sustentável da pousada também constituem passeios interessantes para se conhecer os cultivos locais e as formas de proteção de espécies silvestres. A fazenda tem um criadouro conservacionista que abriga emas, queixadas, catetos, jabutis e antas recolhidos na natureza pelos órgãos ambientais. “Nesse ambiente tudo é regulado pelas normas do Ibama e de outros órgãos. Os animais feridos ou resgatados de situações perigosas encontram nesse espaço seguro, onde podem se reproduzir e até ser reintroduzidos no ambiente natural”, conta a zootecnista responsável pelos animais silvestres e pela conservação da Fazenda Trijunção, Renata Pitombo. Os animais são alimentados por ração e também pelas verduras, legumes e hortaliças produzidas na pousada.

Parte dos animais silvestres também são criados sob licença do Ibama para serem abatidos e vão parar em frigoríficos e nos pratos típicos da culinária servida na pousada. Com isso, sem impactos no ambiente selvagem, os hospedes podem desfrutar do sabor das carnes de catetos e de queixadas.

Outra atividade típica do serrado no interior de Minas Gerais, da Bahia e de Goiás é a pecuária, uma das principais produções econômicas da Fazenda TrijunçãoAtualmente são 3.475 bois nelores de cruzamentos e criados para fins comerciais, todos engordados em pastos e confinamento. “Uma das nossas novidades aqui é a criação do cruzamento de Caracus com Angus e que resulta no Carangus, de características bem adaptadas para a região e de carne muito apreciada”, disse zootecnista e responsável pela produção agropecuária da Fazenda TrijunçãoAllan Figueiredo. A carne produzida nos criatórios também vai parar nos pratos servidos pela pousada, sobretudo no churrasco de fogo de chão que é a atração da cozinha de fora do restaurante.

 

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