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Sou jornalista e meu gosto por aventuras já me levou a lugares extremos! Com vontade e estratégia superei desafios artificiais e selvagens que se interpunham às histórias que buscava, acumulando experiência e técnicas. No Rotas do Explorador mostro expedições e dicas outdoor.

Muro para conter rejeitos em Barão de Cocais é barragem também

Fui enviado em 25 de maio a Barão de Cocais para retratar as movimentações no dia que estava previsto para o rompimento da Barragem Sul-Superior, da Mina de Gongo Soco. Tal rompimento nunca ocorreu, mas todos os preparativos para evacuações e prontidão das autoridades se estabeleceram.

Veja o vídeo do meu canal do YouTube com minhas incursões às áreas ameaçadas pelo rompimento da barragem e se inscreva lá, blz?

Numa dessas ações, fui com minha equipe até a área das vilas evacuadas, mas só podia ver de longe as comunidades de Socorro e Gongo Soco, pois as estradas estavam interditadas. O que consegui notar, contudo, acompanhando o desenho sinuoso do vale do Rio São João, é que vi o canteiro de obras do chamado “muro” para retenção de rejeitos, caso a barragem se desintegrasse.

Apesar do corre-corre, da tensão das pessoas e da grande mobilização de funcionários da prefeitura, defesa civil e bombeiros, nem um milímetro do tal muro, que para mim seria uma barragem, chegou a ser erguido. Me parece, a se moldar e encaixar as situações com suas particularidades, o mesmo ocorrido em Bento Rodrigues, o distrito devastado pela Barragem do Fundão e que se tornou uma ruína esquecida entre diques – palavra, como muro, menos agressiva do que barragem.

Máquinas paradas no canteiro de obras da Vale (Foto: Mateus Parreiras)

A estrutura que a Vale prepara para bloquear o avanço da lama está sendo construída a 6 quilômetros da barragem Sul Superior e deve ficar pronto apenas em 2020. A área onde será erguido, no vale do Rio São João, já foi aberta pelas máquinas e o canteiro de obras está pronto. Caminhões, tratores e escavadeiras também aguardam para ser utilizadas na construção dessa estrutura de concreto que pode salvar as três cidades abaixo.

A barragem Sul Superior entrou no mapa das barragens em crise após a ruptura dos barramentos 1, 4 e 4A, em Brumadinho, responsável pela morte já confirmada de 242 pessoas e 28 desaparecidos, ao despejar 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre o Vale do Rio Paraopeba. Após essa tragédia, iniciou-se uma crise no setor de barragens, após terem sido revistos os critérios que caracterizam a estabilidade dos represamentos. No dia 9 de fevereiro, a população de Barão de Cocais recebeu o primeiro alerta de que a barragem não tinha garantia de estabilidade e que atingira seu nível três de gravidade – risco iminente. De lá para cá, foram realizados dois simulados e 400 pessoas foram evacuadas da comunidade de Socorro, a cerca de 2 quilômetros da barragem. Sul Superior retém 6 milhões de metros cúbicos de rejeitos e pode, ainda, atingir e incorporar o conteúdo menor da Barragem Sul Inferior. Desde o dia 18, a situação piorou com a detecção da movimentação acelerada de uma porção do talude (paredão) de 10 milhões de metros cúbicos da mina, que pode desabar e iniciar uma reação em cadeia e romper a barragem, que fica a 1,5 quilômetro de distância.

Trabalhadores de todo o Brasil já chegaram em Barão de Cocais para a obra. Um deles, de 29 anos, que pediu para não ser identificado, conta que veio de Rondônia para trabalhar na obra. “Estou aqui hospedado com uma turma no hotel para trabalhar na construção desse muro. O contrato é até dezembro. Para mim foi bom, porque estava parado. Não tenho medo de o rompimento me pegar enquanto estiver trabalhando, porque já explicaram que teremos toda a segurança”, disse o homem.

Na matriz de São João Batista, templo com expressões do barroco, como Aleijadinho e mestre Ataíde, a comunidade reunida aproveita para pedir por segurança. Muitos contaram que evitam sair de suas residências, mas como haveria uma coração de Nossa Senhora, decidiram participar levando os filhos vestidos como anjos. Foram 14 anjos e anjas, um momento de alento em meio à tensão. “O ambiente aqui está muito tenso. É preocupante. Procuro não sair de casa, só em caso de extrema necessidade, para que a gente não seja pego pelo rejeito sem estar preparado. Aqui, nas nossas orações, estamos pedindo que Deus tenha misericórdia de nós”, disse a dona de casa Andreia Aparecida Chaves, de 37 anos. A filha dela, Emanuelle Aparecida Chaves de Carvalho, de 4, participou da coroação vestida de anjo. Ela conta que tem tido pesadelos durante a noite. “É muito ruim. Eu sonho que a barragem estourou e que veio matando todo mundo, entrando dentro da minha casa”, disse.

 

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