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Sou jornalista e meu gosto por aventuras já me levou a lugares extremos! Com vontade e estratégia superei desafios artificiais e selvagens que se interpunham às histórias que buscava, acumulando experiência e técnicas. No Rotas do Explorador mostro expedições e dicas outdoor.

A sobrevivência nas ruas. Uma aventura entre as malocas urbanas

Moradores em situação de rua aguardam a entrada no abrigo Tia Branca, que recebe 400 homens por noite na capital mineira (Foto: Juarez Rodrigues)

Já cruzei o Haiti destruído após um terremoto, atravessei a lama de rejeitos que devastou Mariana, consegui concluir a travessia da Serra Fina, uma das mais difíceis do Brasil. Foram muitas aventuras, mas nunca me senti tão exposto a perigos fora de meu controle quanto na reportagem que fiz sobre vivendo pelas vias de Belo Horizonte como um morador de rua. A própria lógica de segurança deles me obrigava a ficar mais exposto, uma vez que eles dormem mais durante o dia para estarem acordados à noite, momento que se sentem mais vulneráveis. Justamente nesse horário, não teria uma boa oferta de segurança pública.

Assista ao vídeo que fiz conversando e passando pelas malocas de Belo Horizonte no vídeo do meu Canal do YouTube, o Missão Carcará. Se curtir, não se esqueça de se inscrever!

Nas andanças pelas ruas da capital pude perceber que os coletivos de moradores de rua  se agregavam em grupos mais ou menos definidos – sempre tinha componentes que se desagregavam e partiam para uma “carreira solo” ou só se uniam aos colegas para dormir.

A principal preocupação dessas pessoas que ficam nas ruas é conseguir os recursos para os próximos dias. Não há planos de longo ou médio prazo, apenas formas de resolver o estômago roncando e de conseguir recursos para comprar álcool e drogas, nem sempre todos ao mesmo tempo.

Comida, realmente, não me pareceu algo tão difícil. Há muitos grupos de religiosos e de voluntários que percorrem as ruas para dar alimentos e roupas para as pessoas que se encontram nessa situação. Os artigos acabam se tornando um tesouro das malocas, servindo de moeda de troca ou sendo simplesmente repassados entre os integrantes do grupo e de outros grupos. Se você já tem cobertores o suficiente, pode trocar um que ganhou por roupas ou alimentos que outro grupo tenha recebido e esteja sobrando.

Um outro aspecto importante é que guardar coisas se torna desafiador e pode até ser um problema para essa população de rua. Isso, porque quando se mora nas ruas é preciso esconder suas coisas em locais não convencionais, como caixas de tubulações elétricas das ruas, dentro de bueiros e até em cima de árvores. Quanto mais coisas se precisa levar representa mais peso e maior desgaste para os moradores de rua que circulam muito para procurar recursos. Quem acumula coisas demais, acaba tendo de se instalar num local e estabelecer uma forma de vigilância desse local para que suas coisas não sejam saqueadas na sua ausência.

Os alimentos chegam de forma tão abundante que não é raro ver moradores de rua recusando ou mesmo jogando fora quando não gostam de um tipo de comida. Os relatos deles de violência são realmente preocupantes. Muitos acusam a polícia e a Guarda Municipal de  serem agressivos e violentos. Também contam que há pessoas que passam em carros e jogam água gelada nos moradores e até jatos de extintores de incêndio (veja alguns diálogos no vídeo!).

Enquanto estive nessa situação, com as roupas em trapos e sujas e um braço engessado para aparentar ser uma pessoa frágil e não uma ameaça, deu para sentir vários moradores de rua tentando se impor contra mim. Tive medo também de abordagens policiais, mas, sinceramente, não senti qualquer forma de ameaça ou constrangimentos vindos das autoridades. Ainda assim, perambular pela noite como um mendigo, parando de maloca em maloca, conversando com pessoas muitas vezes embriagadas ou sob efeitos de entorpecentes, não é nada seguro.

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