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Sou jornalista e meu gosto por aventuras já me levou a lugares extremos! Com vontade e estratégia superei desafios artificiais e selvagens que se interpunham às histórias que buscava, acumulando experiência e técnicas. No Rotas do Explorador mostro expedições e dicas outdoor.

Bastidores da Expedição: Nos rincões da febre amarela, o tormento do caboclo

Na boca do túnel abandonado da Ferrovia Bahia-Minas. Caminho para chegar a Novo Cruzeiro, um dos piores focos da febre amarela. (Foto: Mateus Parreiras)

 

Saudações, aqui é o Rotas do Explorador!

Hoje vou contar como foi a perigosa e difícil missão de mostrar os povoados e os casebres perdidos no cerrado onde a febre amarela matou dezenas de caboclos no interior mineiro, em fins de janeiro (2017). Assista também ao vídeo que fiz para meu canal do YouTube:

Perigosa, porque eu era o único que tinha tomado uma dose da vacina contra a febre amarela – o que atualmente já se prova suficiente para imunizar 95% das vezes – enquanto o valente repórter-fotográfico Edésio Ferreira e o destemido motorista Rafael tomaram a primeira e seguiram sem estar imunizados para a expedição, o que só ocorreu dez dias depois, no meio da aventura. Ou seja, tivemos de recorrer aos repelentes, uma estratégia que tem uma duração reduzida e a necessidade constante de reforço, principalmente devido ao suor incessante.

 

Difícil, não apenas porque percorremos 800 quilômetros por estradas de terra e trilheiras a pé pela Zona da Mata e os vales dos rios Doce, Jequitinhonha e Mucuri. Mas, imagine que em locais como Novo Cruzeiro, no Jequitinhonha, a cidade inteira estava dominada pelo pânico com as mortes pela febre. Todo mundo tinha medo de pegar doença. Os postos de saúde estavam lotados. Os agentes de saúde da prefeitura estavam todos fazendo horas extras, varando noites para poder dar conta de atender a todos. A prefeitura utilizava até mão-de-obra de outras secretarias para poder dar conta das vacinações, orientações, internações, transportes e demais logísticas. No meio desse inferno chega uma equipe de jornalistas querendo ir exatamente para o olho do furacão? O marco zero, de onde os primeiros mortos apareceram e de onde vinha o mal que tinha matado 15?

 

Restou lançar mão de outros artifícios. Pelo mapeamento contido nos GPS dos celulares, nos meus mapas do Google Earth e no GPS de campo que sempre levo comigo, fomos tentando encontrar os pequenos povoados de casebres esparsos, barracos escondidos nas matas, sem identificações visuais suficientes, apenas pastos, rios, lagos e trilhas que alguns agentes da prefeitura indicavam de memória. A maior parte das orientações eram de boca, ouvidas nas fazendas: “Segue por essa estrada principal por uns cinco quilômetros e depois você vai ver uns eucaliptos no alto, então sobe pela direita”. “É para o alto, toda a vida, se começar a descer é porque errou”. E por aí foi. Lembro que uma alma bondosa que levava sua velha na garupa de uma moto chegou a nos guiar por um bom pedaço de chão. Obrigado, meu amigo!

 

Mesmo quando deixávamos as estradinhas miseravelmente conservadas, a tarefa de caminhar às vezes por dois quilômetros por trilhas de burros e gado também era confusa, principalmente se tivesse de atravessar córregos, brejos ou labirintos de trilhas de vacas que cortavam a principal.

Casebre a 20 km de Novo Cruzeiro, no Vale do Jequitinhonha, onde vivia o senhor Clóvis Lopes dos Santos, morto pela febre amarela (Fotos: Edésio Ferreiras/EM/D.A Press)

Foi numa comunidade dessas, a 20 quilômetros de Novo Cruzeiro, depois de percorrer pastos e morros escondidos atrás de matas e córregos que comecei a penetrar no mundo dessa gente. No chamado Brejão, me surpreendi ao avançar pela trilha com gente aparecendo de capoeiras, surgindo do meio do mato, se materializando de trilhas tortuosas. Trajavam as melhores roupas, simples, mas imaculadas. Mulheres traziam flores dos campos e os filhos pelas mãos, enquanto os compadres ia adiante, conversando com bíblias e garrafas de cachaça sob os braços.

Me contaram que toda a comunidade, ainda que assustada, ia se despedir do senhor Clóvis Lopes dos Santos, de 62 anos, que tinha morrido de febre amarela, justamente a família de quem estávamos procurando. O casebre dele era simples, escondido na beira de um grotão. Paredes caiadas de branco, janelas de madeira rústica azul e telhas de barro moldado nas coxas.

 

Em volta da cassa, a gente do povoado e das fazendas comentava que os macacos sumiram, que tinham ouvido que a doença que estava matando a todos eles vinha desses animais. Meus pedidos de licença e desejos de pêsames me levaram ao interior do casebre, onde encontrei Dona Maria Nunes, de 54 anos, num quartinho branco e apertado demais para o caixão do esposo, as cruzes, flores e pessoas que vieram se despedir. Acariciava a testa do marido como se tentasse aliviar alguma dor dele, enquanto contava para mim um pouco da história do casal, do amor pelos dois filhos.

 

Dona Maria Nunes ficou ao lado do marido, Clóvis, até que a febre amarela o levouEla ficou lado de Clóvis desde que ele adoeceu. “Nunca vi ninguém sofrer tanto assim como a febre”, lembrou a senhora. “Ele pegava fogo na pele e suava de molhar os lençóis. Eu ia enxugando a pele dele e pedia lenços e toalhas para os enfermeiros, que traziam para mim. O Clóvis tremia e dava uns arrancos. Olhava para mim com os olhos amarelos que nem cera. Depois, não olhou mais nada e partiu para o lado de Deus”, disse.

Enquanto conversava, ela e outros visitantes repetiam sempre as mesmas perguntas, se éramos da prefeitura, se íamos bater remédios contra os mosquitos da febre amarela. Mesmo quando afirmávamos ser de uma equipe de reportagem, as mesmas perguntas voltavam e retornavam e eram feitas nova e incessantemente. Primeiro achei que era por causa do estado emocional abalado das pessoas, depois por sua desconfiança, até perceber que as garrafas de cachaça levadas para o local secavam num ritmo ritual, bebidas por homens, mulheres, idosos, adultos e jovens, até a viúva e seus filhos, não sei se para atordoar a amargura da perda com a mais genuína tradição cabocla de se beber o defunto. leia a reportagem na íntegra 10

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