Skip to main content
 -
Sou jornalista e meu gosto por aventuras já me levou a lugares extremos! Com vontade e estratégia superei desafios artificiais e selvagens que se interpunham às histórias que buscava, acumulando experiência e técnicas. No Rotas do Explorador mostro expedições e dicas outdoor.

Maior desafio da Serra do Cipó: Travessia Alto palácio – Serra dos Alves

Partindo do Alto palácio para a Serra dos Alves (Foto: Leandro Couri)

Saudações, aqui é o Rotas do Explorador!

Para abrir o blog Rotas do Explorador precisava de um desafio, algo experimental ou inédito. Foi um dos administradores do Parque Nacional da Serra do Cipó (Parna Cipó), o Edward Elias Júnior, que sugeriu cumprir os mais de 40 quilômetros da travessia piloto Alto Palácio (Morro do Pilar)/Serra dos Alves (Itabira). Em breve a atração deve ser integrada ao cardápio oficial que vai contar com empresa própria para a logística da travessia. O prazo era curto, o experiente parceiro, fotógrafo leandro Couri e eu teríamos apenas três dias para a travessia e no dia seguinte deveríamos escrever uma reportagem sobre a novidade. Isso nos levou a alguns arranjos e a superações, como ter de caminhar o dobro (25 km) no último dia. Confira a travessia e as minhas impressões (reportagem completa aqui) e depois as do experiente fotojornalista Leandro Couri:

Rota: Travessia Alto Palácio/Serra dos Alves

Nível de desafio: 5
Municípios: Morro do Pilar, Itambé do Mato Dentro e Itabira
Distância: 40 km
Duração média: 3 dias (2 noites)
Altitudes máximas e mínimas: 1.665 a 1.000 metros
Locais para pernoite: Dois abrigos
Disponibilidade de água: Abundante

 

As fazendas que recebiam tropas de burros e de onde saía o gado que alimentava as regiões mineradoras dominavam a paisagem da Serra do Cipó na época colonial e até o início do século passado. E é do topo de uma dessas antigas propriedades, chamada Fazenda Palácio, que atualmente os aventureiros partem para o maior desafio do cardápio de trilhas, cachoeiras e rotas do Parna Cipó: a Travessia Alto Palácio/Serra dos Alves. É preciso agendar com o Parna (031-3718-7469) e enviar as autorizações e trajetos assinados para obter a permissão e receber também a trilha de GPS. É altamente recomendado a contratação de um guia local, o que pode ser indicado pela unidade. Mesmo navegadores experientes podem se perder, pois as trilhas ainda não estão totalmente demarcadas, o que ocorre aos poucos, com o tráfego de exploradores.

 

Partida – O portal do Alto Palácio fica perto da estátua do Juquinha, um eremita que habitava os grotões da região e encarnava o espírito de liberdade e natureza. O ônibus que leva de BH a Conceição do Mato Dentro pode te deixar lá, mas é aconselhado contratar van de empresas de turismo. A trilha passa por um encharcado ao lado da antiga sede do parque, atualmente utilizada para manejo da unidade de conservação e combate a incêndios. O primeiro aviso que os funcionários dão é para se ter cuidado com as jararacuçus, serpentes peçonhentas que gostam de caçar suas presas perto da água. Motivo pelo qual recomendo utilizar perneiras de couro ou sintéticas – daquelas para roçadeiras mecânicas.
A primeira subida é o seu último contato auditivo com a civilização, no caso a rodovia MG-010. Dali em diante o vento dissipa qualquer barulho veicular e traz apenas os sons da montanha, até a chegada à Serra dos Alves, um pequeno distrito de Itabira. É um mergulho nas matas baixas de campos rupestres, com as belas flores selvagens e os globos que pendem das sempre-vivas que são símbolo do parque. Ali já dá para sentir a ambiguidade do clima. Ao mesmo tempo que o calor pode ser forte, pela falta de sombras, o vento também castiga quando concentra os jatos de chuva fria. Ou seja: chapéu, capa, poncho e vestimentas de manga comprida e secagem rápida são indispensáveis.

 

Atenção – A abundância de cursos d’água é impressionante mesmo neste cenário que aparenta ser desértico. Contudo, mutos desses riachos e fios d’água acabam camuflados pela vegetação e podem te levar a uma torção de pé. Daí mais uma sugestão: levar cajado, bastão, pod ou bengala para sondar o terreno à frente – além de aliviar a distribuição da carga.
Para cumprir o primeiro dia deve-se acelerar bem, pois são 16,5 quilômetros até o primeiro abrigo, a Casa de Tábuas. A recomendação é de começar a trilha às 8h. Como tive muitos contratempos, iniciamos a jornada ao meio-dia, o que já seria motivo de desistência, mas como precisávamos fazer o percurso… Pé na frente do outro! O problema é que a noite e o frio baixaram logo e não dá para ser imprudente logo no primeiro trecho. Acampamos perto de um paredão de rochas e pinturas rupestres, um abrigo ancestral com cenas de caçadas e contagens misteriosas que logo te fazem ter contato com aquilo de primitivo que existe em você. Tudo isso, sob as nebulosas das estrelas e o vento inclemente que tenta solapar sua barraca, só amplia o respeito pela Serra do Cipó.

 

Contratempos levaram a equipe a dormir sob as estrelas e a ventania na Serra do Cipó (Foto: Leandro Couri)

 

Desafio – Sem dúvida alguma o maior desafio da trilha é o Travessão, logo à frente. Uma garganta íngreme que só pode ser ultrapassada por uma encosta de cerca de 80º de inclinação – com equipamento de rapel e guias seria até fácil, mas viver também é arriscar. Na unha e aos escorregões não evitamos a queda de parte do nosso equipamento – logo a comida! – por quase 25 metros de altura entre rochas e um filete d’água. O travessão é um divisor de águas das bacias dos rios São Francisco e Doce, mas para mim parecia um fosso daqueles castelares impedindo o avanço de tropas. Com respeito, vencido… mas a energia gasta e as elevações conseguintes de mais de 400 metros adiante nos deixaram exaustos. E mais energia é gasta quando você só percebe que saiu da rota 400 metros depois que o GPS acusa por causa de as trilhas serem muito pouco demarcadas e tem com isso um desvio mínimo de 800 metros. Dois dias para cumprir um, até avistarmos a Casa de Tábuas.

 

Solidariedade –  A Casa de Tábuas, já no município de Itambé do Mato Dentro era um antigo abrigo de tropeiros e viajantes. Quem chega lá depois de 16,5 quilômetros, vê um santuário entre as tábuas velhas e as telhas de coxa que rangem com a ventania que lambe o alto do morro de 1.400 metros. Mas lá dentro é que se tem algo raro no Brasil para os exploradores. Um abrigo que te permite pernoitar no meio do parque, algo muito comum em outros países. No Brasil, quando não se tem controle e educação é mais fácil proibir – ainda que isso só iniba pessoas de bem. Dentro, catres onde se pode esticar um pouco os sacos de dormir e a armação de um velho fogão a lenha que lembra as antigas fazendas coloniais. Ao largo passa um riacho e se ainda te restar forças, um “mergulho” pode ser a última chance de banho. Lá dentro, a solidariedade dos aventureiros que deixam para trás de tudo um pouco que não mais precisam ou por peso ou bondade. Latas de conservas, macarrões, comidas desidratadas, equipamentos e até agasalhos. Também lá deixamos parte da nossa comida, pois no dia seguinte teríamos de fazer cerca de 25 quilômetros para compensar o terreno perdido…

 

2×1 – Demos sorte no terceiro dia, pois acordamos antes de o sol raiar e seguimos firmes com uma neblina e chuva mansa aplacando o sol, torrando a última bateria do GPS para não errar nem um centímetro – acho que erramos uns 4 quilômetros ao fim, rs. E é preciso atenção ao passar dentro de matas confusas, mas com demarcações. Há também as mais altas montanhas, chegando a 1.665 metros, e depois de vencer 11,3 quilômetros, em fim se chega ao segundo abrigo uma fazendinha de pau a pique chamada de currais por ainda conservar os arcaicos redis de paus para cercar o gado. para nós, uma parada de apenas 30 minutos com direito a saborear o pomar de limões capetas e o descanso horizontal sobre colchões velhos e maravilhosos.

 

Último gás – Agradeço já de cara ao parceiro Leandro Couri que como um valente e honrado guerreiro capoeira topou seguir o restante da viagem imediatamente para que conseguisse chegar a tempo do aniversário da minha mulher, impedindo a minha necessidade de buscar reclusão como eremita tipo o Juquinha, Deus o tenha. Mas os cerca de 14 quilômetros restantes eram tão duros quanto os primeiros. Sem sombra, sob o sol e atacando um desnível de 400 metros sinuoso e de piso de pedras soltas. Tropeções, quase torções, exaustão e muita força de vontade nos guiaram Serra dos Alves abaixo, até a últimas travessia, de uma ponte quase sem calçamento de tábuas, ao estilo Indyana Jones, até a chegada no pequeno vilarejo de Itabira, nosso destino final. Assim como nós, que chegamos lá exaustos, muitos outros invariavelmente acabam chegando à pousada onde a dona Ana e o sr. Wallace te recebem com o maior carinho. Cuidado, ônibus ali, só uma vez por mês, melhor se informar dos horários no parque ou contratar uma van.

 

Mais um desafio para o fotojornalista aventureiro – por Leandro Couri

 

Equipe de reportagem do Estado de Minas realiza a travessia Alto do Palácio até a Serra dos Alves, na Serra do Cipó. Durante três dias e duas noites, os repórteres Leandro Couri e Mateus Parreira caminharam cerca de 40kms pelas montanhas do Parque da Serra do Cipo ate a Serra do Espinhaco e, no caminho, acamparam em abrigos e/ou em pontos determinados pelas regras do parque (Foto: Leandro Couri)

 

Preocupado com o check in dos equipamentos para a caminhada, tentei ao máximo minimizar a pressão do tempo para arrumar tudo, não esquecer nada e fazer as escolhas certas do que levar para a travessia Alto Palácio – Serra dos Alves. Normalmente levo uma semana só arrumando a mochila para aventuras assim, mas esta teve que ser em uma tarde, quando fomos ao supermercado e à loja de artigos de montanha.

Até chegarmos ao ponto de partida da caminhada, a tarde já caia e fiquei atento a luz do dia, a qual sabia que cairia rápido após as 16h das tardes de outono da montanha. Dormimos na metade do caminho que nos dispomos a percorrer no primeiro dia, nas pinturas rupestres, pois chegamos à conclusão que o cansaço do inicio do processo, bem como um pequeno erro no caminho já estavam minando nossas forças naquele dia. E foi no dia seguinte, ao enfrentarmos o primeiro e mais difícil desafio da viagem, a passagem pelo Travessão, que descobrimos que tínhamos tido uma decisão acertada pois, se tentássemos passar ali no dia anterior, cansados e ainda mais pesados, poderia ser ainda mais perigoso do que foi.

A descida para o lajedão do travessão simplesmente não existe: a trilha morre nas pedras de um abismo bem perigoso e, para descer, tivemos que estudar a vegetação para continuar no caminho. Enquanto pensávamos em como descer, literalmente à beira do abismo, nossa sacola de comidas escorrega e cai ribanceira abaixo. Nesta hora tive medo, pois vi o que aconteceria com qualquer um de nós dois que ali caísse: poderia ser mortal.

Depois de muito estudo, conseguimos abrir caminho pela mata. “Aqui não há trilha”, esbravejou Mateus sobre o perigo dali. Após o travessão, não havíamos andado 2 quilômetros sequer e ainda tinha um dia inteiro de subidas e caminhos tortuosos até a casa de tábuas, nosso abrigo para próxima noite.

Neste segundo dia, tudo foi mais pesado e os últimos metros até a casa de tábuas foram penosos, chegamos lá praticamente nos arrastando e ainda com uma ressaca moral de termos ainda muitos quilômetros para vencer no último dia. Se não terminássemos a trilha no dia seguinte como informamos que faríamos, as pessoas na redação e no parque poderiam ficar preocupados pois não havia como avisar o ponto em que estávamos.

Acordamos cedo com preparação psicológica para andarmos ainda 15 quilômetros e saímos cedo da casa de tábuas, mas nem imaginávamos que andaríamos 25 quilômetros até o lugarejo de Serra dos Alves. Porém, no terceiro dia evoluímos muito bem e conseguimos terminar, exaustos mas felizes, o traçado que nos dispusemos. Vale ressaltar que, mesmo com toda a nossa experiência de já ter lidado com extremos, não era um trilha para amadores. Além de ser fácil perder a trilha, pois esta ainda não está totalmente aberta, qualquer erro de cálculo era uma caminhada a mais com o peso da mochila e dos equipamentos.

Certa mesmo foi a satisfação de conseguir percorrer toda a trilha. Mas tal aventura só se deve fazer com preparação prévia e uma boa condição física. E isto porque ainda fomos premiados pelo tempo seco, tirando a cerração de neblina que tomamos ao raiar do terceiro dia. Outra coisa que se faz indispensável e a companhia certeira e com um bom humor para que desafios corriqueiros a aventuras como esta, não se tornem stress rural que muitos passam e ficam traumatizados. É o tipo de programa que só faz quem gosta e, te digo: – Se você gosta, a aventura será certa e divertida!

4 thoughts to “Maior desafio da Serra do Cipó: Travessia Alto palácio – Serra dos Alves”

  1. Lerei o artigo assim que puder, pois estou no trabalho.
    Fico contente com um blog sobre o assunto, parabéns. Ontem li o primeiro artigo e hoje essa reportagem sobre o Parque Nacional da Serra do Cipó, que gosto tanto e visito com bastante frequência.
    Parabéns! Já tem um leitor e adepto. Se precisar de alguém para contribuir com o blog ou participar de aventuras, só chamar!
    Abraço!

    1. Que bom que gostou, amigo, sempre que tiver alguma dica, fotos de aventuras etc pode enviar aqui que o espaço é para os exploradores mesmo, um abraço!

  2. Olá, estranho, essa rota já está lançada oficialmente pelo Parna Cipó tem mais de um ano.

    Com relação a ter uma empresa própria responsavel pela logistica da travessia, poderia me dizer sobre isso, até então a o parque nao havia aberto licitação para alguma empresa cuidar da estrutura da travessia.

    Parabens pela aventura, o cipó é magnifico.

    1. Olá, amigo, como trilha parte do cardápio de atrações ela ainda não foi lançada, só feita como trilha piloto para sua demarcação, a maioria das vezes por voluntários. A direção do parque me informou que a empresa seria parceira para promover a logística e não detentora de concessão e que entrará em breve e só então a rota será incluída como atração oficial, tendo assim a possibilidade de agendamentos e translados indicados. Cipó é maravilhoso e este espaço estará sempre aberto para quem o ama como você, amigo, um forte abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *