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Roberta D'Albuquerque é psicanalista, escreve semanalmente neste espaço e em diversos jornais do Brasil, Estados Unidos e Canadá sobre psicanálise e comportamento, é autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessáveis sobre a maternidade.

“Você me completa, por favor?”

Vinha guardando essa pergunta há anos. Era um conjuntinho de palavras difícil danado de sair pela boca. Uma fala que morava somente na cabeça de Daniel, e que, por um tanto de tempo, sobreviveu sem destinatário certeiro. Primeiro, a gente se dá conta de que está pela metade, só depois, pensa em alguém para reparar a incompletude.

 

Até que conheceu a gerente nova do banco. Foi chamado numa terça-feira, fim do expediente, para falar sobre sua posição de caixa. “Você consegue seguir no FGTS?”, ela perguntou assim, meio no automático, meio com dó do menino que, àquela altura, já contava quatro anos na mesma. E se tem uma coisa que você precisa saber sobre bancos, é que ninguém suporta a salinha do FGTS. É ali, que as notícias difíceis são dadas de um lado do balcão – Não tem depósito feito nessa conta, senhora – e os comentários duros escorregam do outro – Moço, o senhor tá entendendo que eu nunca mais vou encontrar outro emprego?. Isso nos dias bons, claro. 

 

Dos cinco guichês da salinha, somente a cadeira de Daniel fica ocupada de segunda à sexta, das 10h às 16h. Mais ou menos, porque tem a Cecília do segundo guichê, mas como ela fala, e sorri demais, cheia de perfume, quase não atende ninguém, não conta. Tem a Karen também, acontece que, pelo menos uma vez por semana, ela está de atestado. Quando não arruma uma conjuntivite, um cisto no ovário, uma dengue para ficar de atestado a semana inteira. No quarto guichê, senta o Arthur, só que ele está cobrindo licença maternidade na agência do shopping. A criança provavelmente já cursa o ensino fundamental. Arthur é safo que só ele. E tinha Guilherme, é mesmo, Guilherme. Acredita que ninguém sabe o que aconteceu com Guilherme? 

 

Pois bem, é Daniel quem escuta a reclamação da demora da fila, que demora mesmo, dia sim outro também, sozinho – tá bom, quase sozinho – esse tempo todo. Cada gerente que chega é uma oportunidade de mudança, se alguém quisesse trocar, claro. E ninguém quer. Deus o livre. Depois, Daniel acha tão bonito dizer que tudo bem, que ele espera uma próxima, sem problemas, que dá conta sim, tá tranquilo. Ê Daniel.  

 

E aí já viu, né? Do banco pra casa, de casa pro banco, dor de cabeça, dor nas costas, meia hora de almoço, com a fila toda chiando quando ele levanta e maldizendo quando ele senta de volta. A única alegria do menino – que já vai para uns 45, roupa amassada, cabelo oleoso, pele cansada, barriga que nunca viu um abdominal na vida, com carinha de 50, portanto – é jantar, tomar banho e deitar, planejando o sonho que terá com a gerente. E é cada sonho. Se um dia, pelo menos ele tivesse coragem de dizer… Nossa! Desde aquela terça de 2015, é a gerente, mas já foi a dentista, já foi a moça do Ipê Amarelo, o self service do lado do banco, já foi a estagiária da fisioterapia. 

 

Sexta, na volta do almoço, Daniel viu um post-it grudado no monitor: Happy hour no Ipê, despedida da gerente, quer ir? Era a letra de Cecília, tinha esperado um sinal dele, como as senhorinhas que seguram forte no papel com o número da senha, por horas, até que tomam coragem de levantar e perguntar se ainda demora muito, sabe? Aquele último movimento antes de desistir e se convencer que melhor voltar amanhã, pra não voltar mais? Então, Cecília tinha decidido pela aposentadoria. Já não podia conviver por mais nenhum dia com o desprezo de Daniel. Organizou sozinha a despedida da gerente, com quem nunca tinha trocado palavra, só para tornar possível a cerveja, que nem gostava de beber, com o colega. Chance final antes de aposentar também o desejo de ser dupla. E uma ajudinha etílica sempre pode dar coragem, não acha? 

E ele, engasgado que estava com a decepção da partida da gerente – mais uma –, nem para entender o que se passava no guichê do lado. Alegou dor de barriga, virou a plaquinha de dirija-se ao próximo caixa e seguiu para o estacionamento. Já no carro, tudo que pode fazer para aliviar o não dito foi parar no posto. Estacionou perto do primeiro frentista que viu e disparou de um fôlego só: “Tem álcool? Você me completa, por favor?

 

A imagem que ilustra este texto é de Stephanie Ho

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