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Roberta D'Albuquerque é psicanalista, escreve semanalmente neste espaço e em diversos jornais do Brasil, Estados Unidos e Canadá sobre psicanálise e comportamento, é autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessáveis sobre a maternidade.

Cinco regras

No último feriado, minha filha mais velha viajou com uma amiga. No táxi, já pertinho da casa da família anfitriã, perguntei se ela lembrava das cinco regras da criança maravilhosa. Ela riu. Essa era a nossa conversa quando a menina – hoje aos 13 –, ainda novinha, saía para brincar ou dormir fora. 

A saber, a criança maravilhosa só precisa garantir as seguintes regras para deixar uma mãe tranquila: 1. Ela se diverte; 2A. Ela se cuida (aqui estão incluídos, protetor solar, repelente, atenção às brincadeiras mais físicas – altura, fogo, chuva em descampado, objetos pontiagudos, animais que não conhecemos, ou qualquer coisa que passe pela cabeça de uma mãe sem filhos á vista); 2B. Em caso de piscina, ela prende o cabelo, não vai para o fundo e nunca, em nenhuma circunstância, brinca de “olha quanto tempo eu consigo ficar sem respirar” (não passa de uma variação bem específica da 2A, por motivo de paranóia pessoal – como se houvesse alguma paranóia impessoal); 3.Ela se alimenta; 4. Ela dorme; 5. Ela se respeita, respeita os amigos, os pais dos amigos e os professores. Não é preciso se preocupar com a ordem porque todos os itens são obrigatórios.  

Pois bem, não sei por que, ela riu. Talvez, para me lembrar de sua idade. Para não precisar apontar a minha repetição, será? Ou sabe que eu sei que ela sabe? Enfim, chegamos. 

No portão da garagem, onde nos esperavam as outras amigas, me abraçou e me disse no ouvido: “Mãe, no feriado e sempre, eu vou me esforçar para cuidar de mim e de quem está perto de mim, para estar alimentada e descansada. Tudo isso me divertindo e sem me afogar. Juro!”. Atenção para esse “e sempre”. E sempre… Nossa!

Voltei para casa pensando nessa promessa. Não porque já tive 13, 18, 25 ou 30 anos. Não por saber que, em algumas fases da vida, é inevitável que se durma mal, que se coma mal, que alguma negociação com a segurança seja possível. Não pela característica de produto de exportação que vinha dando às 5 regras da criança maravilhosa – embora seja, estranhíssimo que, compiladas assim, elas teimem em aparecer nos momentos de exceção. Mas pelo ‘sempre’ da Lara.

É um guia para as crianças, mas deveria ser também para nós. Deveríamos fazer por nós, pelo menos um pouquinho, do que pedimos para nossos filhos fazerem por eles. Se deseja que uma criança leia mais, entregue-se você à leitura. Que durma o tempo necessário, deite mais cedo. Que cuide de si, atente-se aos seus cuidados. Somos merecedores do sorriso da Lara, de sua promessa de constância. Cinco regras. Não é tão difícil vai.

 

A imagem que ilustra este texto é de Tracy Hamer

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