Do descrédito à consagração

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*matéria do Jornal ESTADO DE MINAS assinada por mim de 30/6/2012

Nem França, Argentina, Espanha ou muito menos Itália. Quem reina no futebol internacional é a Seleção Brasileira, com seus cinco títulos mundiais. Há exatos 10 anos, a equipe verde-amarela superava o descrédito dos próprios torcedores e dos adversários e se tornava a dona do planeta bola em gramados da Coreia do Sul e do Japão, conquistando o pentacampeonato de forma incontestável. Na primeira Copa do Mundo do novo milênio e no continente asiático, a única organizada por dois países, Ronaldo foi o herói da decisão: vitória sobre a Alemanha por 2 a 0, no Estádio Nacional de Yokohama. O craque, que ficara quase dois anos parado por motivo de contusão, simbolizou a volta por cima de um grupo desacreditado até a bola rolar no continente asiático.

A Seleção embarcou para a Ásia sob fortes críticas da imprensa e da torcida e em meio ao descontentamento geral. Na campanha das Eliminatórias, o time havia passado sufoco, trocado de técnico duas vezes (Vanderlei Luxemburgo, Emerson Leão e Luiz Felipe Scolari passaram pelo cargo) e temia eliminação ainda na primeira fase, algo que não ocorria desde 1966. Com fama de durão, exigente e disciplinador, Felipão desconsiderou os protestos por deixar Romário de fora – até do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso – e apostou em outros ídolos (Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho) para trazer o troféu.

O Fenômeno vinha de duas cirurgias no joelho direito e havia acelerado o processo de recuperação para disputar sua terceira Copa. Campeão sem jogar em 1994 e vice em 1998 – quando sofreu convulsão horas antes da decisão contra a França e, apático, não foi capaz de ajudar a equipe a evitar a derrota por 3 a 0 –, o ex-cruzeirense se tornou o personagem central da festa, ao sair dela como artilheiro da competição, com oito gols (quatro anos depois, na Alemanha, seria o maior goleador da história das Copas, com 15). E ainda lançou a moda do corte de cabelo “Cascão” (personagem de Maurício de Souza nas revistas de quadrinhos). No fim do ano, seria eleito pela terceira vez pela Fifa o melhor jogador do mundo. Condição reforçada pelo título mundial de clubes do Real Madrid, na mesma Yokohama, em cima do Olimpia, com gol do atacante.

Conquistar o penta não foi fácil. Mas a campanha não deixou dúvidas da capacidade do time: vitórias nos sete jogos, na melhor campanha em um Mundial. Depois de passar com tranquilidade pela primeira fase, com 100% de aproveitamento, os brasileiros tiveram dificuldades em eliminar Bélgica (oitavas de final), Inglaterra (quartas) e Turquia (semifinais). A decisão pôs frente a frente as seleções de melhor desempenho em Mundiais. Brasil e Alemanha, que completaram sete decisões, curiosamente, jamais haviam se enfrentado pela competição. A partida foi acompanhada por cerca de 145 milhões de telespectadores. O time de Felipão venceu por 2 a 0 com gols de Ronaldo no segundo tempo.

GAÚCHO DECISIVO CONTRA OS INGLESES

Astro do Atlético no atual Brasileiro, Ronaldinho Gaúcho tinha apenas 22 anos e foi outro destaque daquele time, a exemplo de Rivaldo. Destacou-se sobretudo na vitória de virada sobre os ingleses por 2 a 1, nas quartas de final, na qual fez de tudo: construiu a jogada do primeiro gol, de Rivaldo, marcou o segundo em traiçoeira cobrança de falta que encobriu o goleiro David Seaman, e foi expulso por entrada desleal no lateral Mills. “Tenho tudo na memória. Naquele jogo contra a Inglaterra, começamos perdendo, mas viramos e ganhamos força para ser campeões. Queria chutar aquela bola no gol, mas nunca imaginaria que ela ia entrar daquele jeito”, afirma o armador atleticano sobre o gol da vitória.

Coadjuvante, mas importante, na conquista do penta, o volante Gilberto Silva (único jogador do Atlético campeão em campo, uma vez que Dario não atuou em 1970) ganhou a posição depois do corte de Emerson (contundido) na véspera da estreia contra a Turquia. “Estava no quarto à noite quando Felipão e Flávio Murtosa (assistente do treinador) me chamaram para conversar. Fiquei muito surpreso: eles me falaram que eu começaria jogando no dia seguinte. Na realidade, estava tranquilo, pois vinha desempenhando meu trabalho com entusiasmo. Felipão me disse para mostrar o que vinha fazendo no Atlético. Tudo se confirmou e vencemos bem na estreia, depois de começar perdendo”, recorda o hoje zagueiro gremista.

Gilberto Silva sempre recorda com orgulho do dia em que o Brasil venceu a Alemanha: “Foi uma conquista diferente para a carreira de qualquer jogador. Os anos se passaram, fui jogar na Inglaterra e logo ocorreu o reconhecimento e o respeito do torcedor. Um dos grandes fatores que nos levaram ao título foi justamente a união e a persistência do grupo”.

Os campeões mundiais desembarcaram no Brasil na terça-feira, 2 de julho, e foram recebidos no Palácio do Planalto por Fernando Henrique Cardoso e mais de 300 mil torcedores, segundo estimativa da polícia. A Esquadrilha da Fumaça se exibiu no céu de Brasília em homenagem aos campeões com a inscrição “É penta”. Depois, houve desfile no carro do Corpo de Bombeiros. Na rampa do palácio, onde Vampeta escorregou para a alegria de fotógrafos e cinegrafistas, os 23 heróis receberam a medalha de Honra ao Mérito. Depois seguiram rumo a Rio e São Paulo, para novas e merecidas festas pela façanha.

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