Digno de uma decisão

Publicado em

Arquivo EM – 1/6/1986

Há muito tempo os amantes do futebol aguardam por um confronto da magnitude de Brasil e Espanha. Equipes que historicamente têm preferência por um estilo ofensivo, ousado, de toque de bola e habilidade. Nada melhor do que o palco mágico do Maracanã para receber a tão esperada decisão da Copa das Confederações entre as duas seleções. Em Copas do Mundo, o duelo já ocorreu cinco vezes, com vantagem brasileira: três vitórias, um empate e uma derrota.

O caminho começou em 1934. Depois de uma participação sem brilho no primeiro Mundial, em 1930, no Uruguai, o Brasil chegou à Itália com novas ambições, já na era do profissionalismo, que começou um ano antes no país. No entanto, os planos não deram certo. Na trajetória verde-amarela, apareceu a Fúria na estreia. E o time de Luís Vinhais não foi páreo para os valentes espanhóis e perdeu por 3 a 1, em Gênova.

O atacante Leônidas da Silva, que seria artilheiro na edição de 1938, fez o único gol brasileiro. Os sul-americanos ainda desperdiçaram um pênalti, com o centroavante Waldemar de Brito – que seria famoso duas décadas depois por revelar Pelé, o maior jogador de todos os tempos. A lenda conta que o goleiro espanhol Zamora teria ido a um treino do Brasil um dia antes e percebido a maneira que o jogador do São Paulo batia na bola nas penalidades. Naquela Copa, o Brasil viajou cerca de três meses de navio, atuou em uma partida e em seguida voltou para casa, causando insatisfação entre a comissão técnica canarinho e a Fifa. A Espanha seria eliminada nas quartas de final pela futura campeã, Itália.

Brasil e Espanha voltariam a se enfrentar 16 anos depois no mesmo Maracanã que agora recebe a decisão do evento-teste da Fifa. O ufanismo contagiava os brasileiros naquela época e, dentro das quatros linhas, a equipe de Flávio Costa correspondia à altura e buscava o primeiro título mundial. O duelo com a Fúria era o segundo do quadrangular final que apontaria o campeão do mundo. Com gols de Ademir (2), Chico (2), Jair e Zizinho, o time verde-amarelo goleou por 6 a 1, diante de 152 mil pagantes. O fato mais emblemático ocorreria no fim. Exaltada, a torcida simulou um carnaval fora de época nas arquibancadas do estádio e cantou a marchinha Touradas em Madri, sucesso de Braguinha e Alberto Ribeiro.

Na Copa de 1962, no Chile, sul-americanos e europeus mediram forças de novo, dessa vez pela terceira rodada da primeira fase. Seria a primeira partida do atacante Amarildo (foto, em lance com Puskas) como titular. Aos 22 anos, o artilheiro do Botafogo herdou a vaga de titular de Pelé, que saiu machucado no empate sem gols com a Tchecoslováquia. Em nenhum momento ele sentiu o peso de estrear pela Seleção Brasileira num Mundial. Numa partida difícil, marcou duas vezes para o Brasil, que venceu de virada por 2 a 1.

A Espanha acabou sendo prejudicada pelo árbitro uruguaio Esteban Marino, que não marcou pênalti claro de Nílton Santos em Collar na área – o lateral do Botafogo deu dois passos para a frente e enganou o árbitro, que marcou a falta fora da área. Na sequência, depois da cobrança da falta, o juiz cometeu outro engano, ao invalidar gol de bicicleta de Puskas, marcando falta do atacante húngaro naturalizado espanhol.

Em 1978 houve o único jogo entre os dois países em Copas que terminou sem gols. A Espanha até poderia ter marcado no segundo tempo, mas Cardeñosa desperdiçou grande oportunidade num lance em que o goleiro Leão já estava batido. O zagueiro Amaral salvou em cima da linha. Na partida, o técnico Cláudio Coutinho escalou dois laterais-direitos (Nelinho e Toninho), uma atitude pouco comum. O armador Jorge Mendonça se aqueceu por 18 minutos antes de entrar na etapa complementar, um recorde mundial.

NOVO ERRO O último Brasil x Espanha em Mundiais ocorreu em 1986, no México, de novo numa partida polêmica. Era a estreia do time de Telê Santana, que venceu por 1 a 0, em Guadalajara, gol de Sócrates. No entanto, a Espanha foi prejudicada, assim como 24 anos antes. A bola chutada de longe pelo armador Michel acabou batendo no travessão e quicou dentro do gol, mas o arbitragem não deu.

Antes da partida, ocorreu um fato inusitado: na execução do Hino Nacional das duas equipes, o alto-falante do Estádio Jalisco tocou o hino à bandeira, com letra de Olavo Bilac e música de Francisco Braga, em vez do hino nacional brasileiro.

(*) Matéria de minha autoria publicada no jornal Estado de Minas, de 28/7/2013

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *