A primeira taça a gente nunca esquece…

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Arquivo O Cruzeiro – 29/6/1958

O ano de 1958 se tornaria marcado no Brasil pelo auge do Plano de Metas, implantado pelo presidente Juscelino Kubitschek, que aceleraria a economia nacional, e pelos primeiros passos da indústria automotiva e de bens de consumo. Na música, a Bossa Nova apresentava seu cartão de visitas com as canções de figuras como João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A TV também começava a chegar à casa dos brasileiros gradativamente, alcançando 1,5 milhão de aparelhos no país. O êxito do futebol na Copa do Mundo daquele ano não apenas compôs o pano de fundo para ilustrar a euforia e o orgulho popular, como reforçou a identidade nacional. 

Disputado na Suécia, o sexto Mundial da história representou a reviravolta da Seleção Brasileira e o início de uma nova ordem no esporte, ainda que nem os jogadores nem a torcida apontassem o time de Vicente Feola como favorito. As lembranças da derrota para o Uruguai por 2 a 1, no Maracanã, oito anos antes, ainda estavam vivas. No entanto, faltavam candidatos ao primeiro posto. A Hungria, que encantou na Copa anterior, foi dissolvida depois da revolução no país em 1956; a Alemanha, então campeã, foi com uma formação inteiramente renovada; e a Itália havia sido desclassificada nas eliminatórias.

Dupla mais famosa da seleção de todos os tempos, Pelé e Garrincha lideraram a equipe em seu primeiro título. Curioso é que tinham sido preteridos em todos os jogos preparatórios e nas duas primeiras partidas da campanha. O time verde-amarelo passou pelo Peru nas eliminatórias, se preparou por três meses e fez excursões pela Europa. A inovação tática do sistema 4-2-4 era uma aposta de Vicente Feola, mas o time demorou a deslanchar.

Nos bastidores, a CBD mudou a filosofia de preparação, o que se tornou decisivo para o amadurecimento dos atletas. A delegação do Brasil foi um exemplo de organização e eficácia, encerrando o histórico de bagunças, negligência e até corrupção. Desta vez, não havia cartolas querendo ganhar projeção política ou privilégios financeiros. Havia uma comissão técnica altamente preparada, chefiada pelo vice-presidente da CBD, Paulo Machado de Carvalho, além do supervisor Carlos Nascimento, do médico Hilton Gosling, do preparador físico Paulo Amaral e do tesoureiro Adolpho Marques. A novidade era o psicólogo João Carvalhaes, que tinha a missão de trabalhar o equilíbrio mental dos atletas. 

O time queria fazer bonito, mas a caminhada começou sem muito brilho na primeira fase. O Brasil havia goleado a Áustria por 3 a 0 – gols de Mazzola e Nílton Santos –, mas ficou no morno empate com a Inglaterra por 0 a 0. A equipe saiu vaiada e algo tinha de ser feito por Feola. E ele executou a mudança mais feliz do futebol mundial, no terceiro jogo, diante da União Soviética: escalou Pelé e Garrincha como titulares. Ambos não decepcionaram e foram decisivos no triunfo por 2 a 0, com gols de Vavá, contra uma das seleções mais fortes da competição. 

O primeiro confronto na fase de mata-mata foi uma mistura de tensão, emoção e competência contra o perigoso País de Gales. A importância da partida deixou o grupo e a torcida com os nervos à flor da pele. Os europeus chegaram a acertar a trave de Gilmar com o atacante Allchurch. Contudo, quem deu as caras foi Pelé, que marcou seu primeiro gol nos Mundiais, aos 13min do segundo tempo. 

Nas semifinais, o adversário era a França, dona do melhor ataque (15 gols) e do artilheiro (Just Fontaine, até então com oito). Se os brasileiros contavam com Didi municiando Garrincha e Pelé, os franceses tinham Kopa, um dos destaques, além de Fontaine, nascido no Marrocos. Graças ao poderio ofensivo, o Brasil transformou a complicada partida em um duelo bem administrado. Com gols de Vavá e Didi no primeiro tempo, contra um de Fontaine – que seria o artilheiro com 13, um recorde em uma única edição –, a Seleção Canarinho saiu em vantagem na etapa inicial. Na fase complementar veio a afirmação de Pelé como principal craque brasileiro, ao marcar três vezes. Depois da partida, Kopa concedeu entrevista e, de cabeça quente pela tempestade de gols, previu que ninguém tiraria a taça dos comandados de Feola.

A DECISÃO A imprensa sueca antecipava o êxito dos anfitriões e lembrava aos brasileiros que jamais uma seleção sul-americana havia vencido na Europa. Mas a ousadia e a autoconfiança de Pelé e cia. foram determinantes para que todos os prognósticos fossem colocados por água abaixo. Houve também a famosa história do uniforme azul, comprado numa feira de Estocolmo por US$ 35, inspirado no manto de Nossa Senhora Aparecida, já que os donos da casa jogavam de amarelo. Os suecos eram fortes, mas a equipe verde-amarela já havia batido duas vezes os adversários: 4 a 2 em 1938 e 7 a 1 em 1950. Mesmo levando o primeiro gol, de Liedholm, O Brasil não se abateu. Didi orquestrou a virada ainda no primeiro tempo, com dois gols de Vavá em passes de Garrincha. 

No segundo tempo, Pelé marcou um gol antológico, Zagallo ampliou, e o camisa 10 encerrou a festa aos 45min. Aplaudidos pelos torcedores suecos, os campeões desfilaram pelo gramado do Rasunda carregando um estandarte do país-sede. Para completar a festa, Pelé terminou a Copa como Rei Pelé, e o capitão Bellini imortalizou um gesto emblemático, que seria repetido pelos demais capitães em outras Copas, erguendo a taça acima da cabeça. “A conquista do Mundial de 1958 representa o fim do ‘complexo de vira-latas’ do homem brasileiro”, resumiu o jornalista Nelson Rodrigues.

DE MENINO A REI PELÉ

Arquivo O Cruzeiro – 29/6/1958

Se há marcos no esporte mundial, Pelé, indiscutivelmente, é um deles. Suas lágrimas ao fim da decisão contra a Suécia, naquele 29 de junho de 1958, representaram a transformação do então menino franzino nascido na mineira Três Corações no Rei do Futebol. Dali em diante, sua imagem se espalharia pelo mundo. Com seis gols na competição, ele se tornou o atleta mais jovem a conquistar um Mundial – com 17 anos e 249 dias. No México, em 1970, passaria a ser o único jogador a obter o maior título por três vezes. 
Foi preciso que os dois mais experientes da Seleção de 1958, o lateral-esquerdo Nílton Santos e o volante Didi, implorassem ao técnico Vicente Feola para que Pelé e Garrincha ganhassem a posição na terceira partida da primeira fase, contra a União Soviética. Também houve pressão dos dirigentes devido ao mau futebol apresentado contra os ingleses. Pelé, além disso, chegou à Suécia com uma lesão que o impossibilitava de ser escalado nos dois primeiros confrontos.
De fato, Nílton Santos e Didi tinham razão. A equipe que antes enfrentou Áustria e Inglaterra não tinha a inspiração de uma campeã mundial e precisava de brio e habilidade. Logo que entraram no time verde-amarelo, Pelé e Garrincha não saíram mais. Apesar de os gols do triunfo sobre os soviéticos terem sidos de Vavá, foi a dupla que incendiou o duelo, deixando a plateia boquiaberta. Foi sob esse clima que os torcedores presenciaram três minutos para lá de empolgantes na história do futebol: o incrível bombardeio brasileiro contra o gol de Lev Yashin, que nada pôde fazer para parar os futuros campeões mundiais. 
O garoto do Santos foi decisivo na partida mais complicada do Brasil no torneio, a vitória por 1 a 0 sobre o País de Gales nas quartas de final, marcando belo gol depois de dar um chapéu num zagueiro. E nas semifinais, num jogo que seria difícil, o atacante outra vez brilhou, com três gols no segundo tempo na goleada por 5 a 2 sobre a França. Não foi por acaso que Just Fontaine, artilheiro da competição, com 13 gols, foi cumprimentá-lo pela grande atuação. 
Na decisão contra a Suécia, o trunfo do time de Feola foi o conjunto. No entanto, Pelé tornou-se o nome da partida, marcando um dos gols mais bonitos das Copas, depois de dominar no peito e dar um lençol no defensor sueco. Aos 45min, ele ganhou do adversário e cabeceou para o fundo das redes, confirmando o primeiro título para o Brasil. “Djalma Santos havia jogado no Mundial de 54; Didi, Gilmar e Orlando já eram experientes. Pelé não, era quase uma criança e já campeão do mundo. Eles consolam o Rei após o término do jogo contra a Suécia. Era o nosso primeiro título”, escreveu Orlando Duarte em Pelé: o supercampeão.
O INÍCIO Quem descobriu Pelé foi Waldemar de Brito, que disputou a Copa do Mundo de 1934 pela Seleção Brasileira e treinava o Bauru. O ex-atacante levou o futuro Rei para o Santos em 1956 e, na Vila Belmiro, o menino de Três Corações viveria os melhores anos de sua carreira. Foi o técnico Silvio Pirilo que o convocou pela primeira vez para vestir a amarelinha, no amistoso contra a Argentina, em 1957, no Maracanã: Pelé entrou no segundo tempo, no lugar de Del Vecchio, e fez o gol de honra brasileiro na derrota por 2 a 1. 
O jogador foi artilheiro do Campeonato Paulista por nove anos consecutivos (de 1957 a 1965) e estabeleceu recorde de gols até hoje não batido: 58 em 1958. A carreira no Santos durou até 1974. Depois, assinou um contrato de três anos com o New York Cosmos-EUA. Abandonou o futebol aos 37 anos e se transformou em um homem de negócios, utilizando principalmente sua imagem dos gramados.
E OS PSICÓLOGOS NÃO QUERIAM OS NEGROS
O título mundial conquistado pelo Brasil em 1958 deixou muitas lições naquela época e representou uma resposta à altura para aqueles que não confiavam na capacidade dos jogadores brasileiros, sobretudo os negros. Por isso, a Seleção Brasileira estreou na Copa do Mundo diante da Áustria em 8 de junho, em Uddevalla, com um time composto basicamente por jogadores brancos: Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nílton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Dida e Zagallo. O único negro era Didi. Primeiro, porque era o craque daquela equipe. Segundo, porque seu reserva, Moacir, também era negro. 

A escolha por brancos teria sido baseada num relatório científico chamado Ku Klux-Klan, racista e inaceitável, que teria sido feito em 1956 por uma comissão de médicos e preparadores físicos durante uma viagem da Seleção Brasileira à Europa. Esse estudo jamais foi confirmado pela CBD. A pesquisa teria apontado uma suposta inferioridade psicológica do atleta negro: ele sentiria uma espécie de banzo quando se afastava do Brasil, ficava tristes e não jogava o que sabia jogar. Por essa teoria, não conseguia suportar fortes emoções ou ter grandes responsabilidades.

O relatório teria explicações empíricas para justificar o fracasso do Brasil na Copa do Mundo de 1950, quando o goleiro Barbosa, um negro, foi responsabilizado pela derrota para o Uruguai, ou mesmo para a briga com os húngaros na eliminação nas quartas de final em 1954. A pesquisa foi seguida pelo técnico Vicente Feola nos dois primeiros jogos e fez com que o lateral-direito Djalma Santos, titular na Copa da Suíça quatro anos antes, perdesse o posto para o mediano De Sordi. O pior: com Garrincha e Pelé no banco. 

EXAMES Também por isso a CBD contratou o psicólogo João Carvalhaes, rigoroso psicotécnico da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), de São Paulo, para fazer exames. Carvalhaes barrou a dupla que seria sensação do Mundial da Suécia. Os resultados de Carvalhaes não foram animadores: Pelé era apenas mediano (tirou nota 5,5 numa escala de 0 a 10). Mas o pior foi Garrincha, que tirou 3 e escapou raspando da qualificação de aparente debilidade mental. 

“Pelé era infantil e carecia de espírito de luta, enquanto Garrincha não tinha a responsabilidade necessária para disputar uma Copa do Mundo”, descreve a jornalista e mestre em comunicação e cultura pela UFRJ Angélica Basthi, ao dissecar o estudo na obra Pelé: estrela negra em campos verdes. A escolha de ambos diante da União Soviética, na última rodada da primeira fase, foi uma atitude conjunta de Vicente Feola e de Paulo Machado de Carvalho, pressionados para buscar a vitória. Eles esqueceram a psicologia e puseram a dupla em campo. Felizmente para eles e para o mundo do futebol, Garrincha e Pelé deram a resposta verdadeira aos críticos e ao preconceito. Juntos, eles jamais perderam pela Seleção Brasileira, de 1958 a 1966. (RD)

(*) material publicado no Jornal Estado de Minas de 23/2/2014, na seção História das Copas do Mundo

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