Quando chega aos cinemas um filme novo de Steven Spielberg, dá até vontade de colocar roupa de domingo. Pode-se gostar ou não do resultado, mas nunca duvidamos da qualidade técnica e da competência dos envolvidos, já que o diretor costuma cercar-se dos melhores do ramo. Sendo do drama mais íntimo, como em Os Fabelmans (2022), ao blockbuster frenético, como no novo Dia D (Disclosure Day, 2026), o diretor sempre traz questões interessantes para discussão (a crítica abaixo não tem spoilers).
Como o próprio Spielberg descreveu em entrevista ao IMdB, a história de Dia D começa já no terceiro ato, tendo depois um quarto e um quinto atos. Já encontramos os personagens no meio do caminho e a ação se desenrola quase sem respiro, e vamos aos poucos entendendo o que está acontecendo e o que está por trás das ações deles. Parece confuso, mas não é, e as informações vão sendo reveladas. É exigido um salto de fé do espectador, por se tratar de uma trama com uma conspiração envolvendo alienígenas, e tudo vai fazendo um surpreendente sentido.

No cartaz do filme, vemos Emily Blunt aparecendo como uma peça chave para o mistério de Dia D. A atriz, vista recentemente na (dispensável) continuação de O Diabo Veste Prada, é de longe o maior trunfo do longa, roubando todas as cenas em que aparece. Ela e Josh O’Connor são os protagonistas que caem de paraquedas na perigosa história, que envolve uma organização não governamental liderada por ninguém menos que Colin Firth (o Mark Darcy de Bridget Jones). Causa certo estranhamento ver um ator claramente inglês liderando uma instituição no coração dos EUA, mas isso logo passa. O onipresente Colman Domingo, que conta com inacreditáveis onze trabalhos em dois anos, fecha o elenco principal.
É a primeira vez que Spielberg faz um filme com um ritmo tão acelerado, que se passa em poucas horas, e ele coloca a personagem de Eve Hewson (de Jay Kelly, 2025) como o olhar do espectador. Além de nos apresentar ao cenário, Jane também traz questões envolvendo religião que engrossam o caldo. Spielberg e seu corroteirista, David Koepp (em sua quinta colaboração), estão mais preocupados com os humanos e as possíveis consequências do que é mostrado para a humanidade. O filme é um grande “e se…?”, tratado de forma quase como se fosse inspirado em fatos, lembrando o que Spielberg fez em The Post (2017) – esse sim, inspirado por uma história real.
As quase duas horas e meia de Dia D passam voando, longe de qualquer possibilidade de enfadonho. Às vias de completar 80 anos (em dezembro), o cineasta se mostra afiado, um dos melhores em atividade, e evita qualquer sentimentalismo duvidoso que possa ter usado em sua carreira. O longa é exemplo do que de melhor o chamado cinemão americano produz e deve marcar presença na próxima temporada de premiações. Indicações para Blunt, Spielberg e o filme não me surpreenderiam.

Spielberg, Koepp e o elenco comemoram o primeiro lugar nas bilheterias americanas


