
Há um certo risco calculado em tentar fazer humor com um tema que, na prática, já deixou de ser especulativo. Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don’t Die, 2025) chega aos cinemas como uma comédia de ficção científica que olha diretamente para o avanço da inteligência artificial, mas evita o tom alarmista mais comum. Projetando dois futuros, o filme começa um pouco à frente do nosso presente, com a tecnologia mais evoluída que a nossa, mas ainda passível de ajustes de segurança antes que saia do controle.
Desse futuro excessivamente tecnológico e apocalíptico teoricamente vem Sam Rockwell, em um papel que tira proveito de sua habilidade de oscilar entre o cômico e o levemente psicótico. Rockwell sustenta a narrativa com uma naturalidade que impede o filme de se perder em suas próprias ideias, nos mantendo no escuro sobre a possibilidade daquele sujeito realmente vir do futuro, enquanto o elenco ao redor funciona como um conjunto bem escolhido, mais interessado em servir ao ritmo da história do que em disputar atenção. Há uma dinâmica que privilegia o coletivo, algo nem sempre comum em produções com nomes famosos. Destaque para Haley Lu Richardson (revelada em À Beira dos Dezessete, 2016), o casal vivido por Michael Peña e Zazie Beetz e Juno Temple, que volta na quarta temporada de Ted Lasso.

O longa nos apresenta a um homem esquisito, levando o que ele alega ser uma bomba, que entra em uma lanchonete e anuncia: ele vem do futuro e precisa da ajuda de alguns escolhidos. Tudo em torno dele permanece um mistério e, aos poucos, vamos entendendo o quadro. O roteiro evita grandes reviravoltas e aposta em um desenvolvimento progressivo, deixando que o estranhamento surja pela lógica das situações, e logo nos pegamos torcendo por aquele grupo improvável.
Temos aqui um certo retorno. Depois de uma pausa de quase dez anos, quando dirigiu o pouco valorizado A Cura (A Cure for Wellness, 2016), Gore Verbinski consegue imprimir seu estilo, mesmo mantendo uma direção menos exibicionista do que em trabalhos anteriores. O roteiro de Matthew Robinson (criador de A Invenção da Mentira, 2009) contribui para isso ao manter a história dentro de limites claros, sem ceder à tentação de explicar demais ou de transformar cada ideia em um conceito grandioso.

O que sustenta o filme, no entanto, é a forma como ele lida com um tema inevitavelmente sério. A inteligência artificial surge não como uma ameaça imediata, mas como uma presença que se infiltra no cotidiano com uma familiaridade desconfortável. O humor funciona justamente por não forçar a piada: ele nasce da situação, do reconhecimento de comportamentos e da percepção de que o absurdo talvez não esteja tão distante assim. Há uma ironia constante, e contida, que evita tanto a banalização quanto o didatismo.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra não pretende oferecer respostas ou grandes advertências. Seu interesse parece mais modesto (e talvez mais eficaz) ao registrar um momento de transição em que o controle ainda parece humano, mas já começa a escapar das nossas mãos. É um filme que observa mais do que afirma, conduzido por um ator em sintonia com esse tom e por um diretor que volta a demonstrar precisão. Não reinventa o gênero, mas encontra um espaço próprio ao tratar o inevitável com uma dose de cautela e um humor que nunca perde de vista o desconforto.

Diretor e elenco fazem graça no lançamento em Berlim


