Ryan Murphy recria Hollywood na Netflix

por Marcelo Seabra

Trabalhando prioritariamente na televisão, Ryan Murphy tem sucesso há mais de dez anos, criando séries, produzindo, escrevendo e dirigindo episódios. Normalmente, seu foco é no pior lado do ser humano, seja numa escola de adolescentes (Glee, The Politician), seja na sociedade como um todo (como em Pose e Nip/Tuck). Já atacou também no mundo do terror (Scream Queens, American Horror Story). Mas o que dá mais gosto de ver é quando retrata o mundo do entretenimento, o que sempre faz muito bem.

Ao lado do parceiro habitual, Ian Brennan, Murphy assina agora Hollywood, nova produção original da Netflix, já disponível no aplicativo. Ele ajudou a contar histórias reais com grande talento, notadamente O Assassinato de Gianni Versace e Feud, sobre a intriga entre dois grandes nomes do Cinema, Joan Crawford e Bette Davis. Dessa vez, seguindo a escola Tarantino de relatar os fatos, Murphy mistura realidade e ficção para contar o que ele gostaria que tivesse acontecido, e não o que realmente aconteceu, na capital norte-americana da sétima arte no pós Segunda Guerra.

Quando Hollywood começa, tudo indica que será um festival de orgias, traições e todo tipo de putaria. Esse é o tom do primeiro episódio. Uma vez apresentados os personagens, esse choque inicial vai dando lugar a um desenvolvimento bem adequado. É muita gente para acompanhar, mas fica sempre tudo claro. Na tela, eles são, em sua maioria, novatos no mundo do Cinema – e na cidade – que lutam por uma oportunidade, e ela nem sempre aparece no lugar certo. Pode ser, por exemplo, em um posto de gasolina que oferece sexo aos clientes.

De personagens importantes para a trama a pontas, temos nomes bem estabelecidos e iniciantes no elenco. Muitos trabalharam com Murphy antes, como o premiado Darren Criss (de Versace), Dylan McDermott (de American Horror Story), Patti LuPone (de Pose), Joe Mantello (de The Normal Heart, 2014) e David Corenswet (de The Politician). Dentre os rostos mais reconhecíveis, vemos Jim Parsons (o Sheldon de The Big Bang Theory), Mira Sorvino (Oscar de Melhor Atriz por Poderosa Afrodite, 1995), o diretor e ator Rob Reiner (de O Lobo de Wall Street, 2013), Holland Taylor (a mãe dos Harper em Two and a Half Man) e Queen Latifah (de Chicago, 2002).

Junto aos veteranos, Murphy faz uma boa mistura com atores menos experientes, como Laura Harrier (de Infiltrado na Klan, 2018), Jake Picking (de O Dia do Atentado, 2016), Samara Weaving (de Três Anúncios para um Crime, 2017) e o novato Jeremy Pope. As atuações não são perfeitas, tendo um ou outro exagero aqui ou ali, mas tendem a ficar acima da média. Enquanto alguns atores partem do zero em suas composições, outros têm onde buscar inspiração. Picking, por exemplo, vive uma variação de Rock Hudson, enquanto Parsons faz o agente Henry Wilson, a figura vilanesca da série, que realmente existiu.

Em sua maioria, os personagens são combinações de celebridades, alguns com traços facilmente reconhecíveis. É impossível, por exemplo, olhar para McDermott (Ernie – ao lado) e não se lembrar de Clark Gable, com aquele bigode indefectível. E os tipos que compõem a trama são dos mais variados, dando voz a minorias – gays, negros, mulheres – sem transformá-las em estereótipos. Uns tentam ter escrúpulos, outros logo os abandonam, mas sempre com motivações críveis. Bandeiras são levantadas, e a série retrata situações impensáveis para a época, como a possibilidade de um filme ter um casal interracial de protagonistas. A Hollywood dessa ficção teria mudado o mundo definitivamente.

Sem pesar a mão, a atração brinca com situações corriqueiras desse universo, como a definição da estratégia de distribuição de um longa e as lutas em torno de um orçamento estourado. Com uma recriação de época primorosa, entendemos como funcionava a escalação de extras para as produções, ou como eram as leituras de roteiro com o elenco e outros pormenores, sempre com uma trilha sonora grandiosa que ajuda a compor o cenário. Com apenas sete episódios, Murphy marca mais um ponto em sua bem-sucedida carreira, além de homenagear um mundo que conhece bem.

O figurino é um dos elementos que recriam a Hollywood da Era de Ouro

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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