Cobra Kai é nostalgia da melhor qualidade

por Marcelo Seabra

A lembrança não é muito nítida. Afinal, eu era bem pequeno. O que sei é que fui ao cinema com meu pai e irmãos ver Karatê Kid – possivelmente o segundo, que estreou no Brasil em 1986. Isso me deixa com quatro anos de idade na época, o que provavelmente significa que não devo ter entendido muita coisa. Mas, ainda assim, as imagens me causaram tamanha impressão que saí pela rua, ao final, dando chutes e socos no ar.

A franquia de Daniel San ainda durou bastante tempo, com três sequências – a última sem ele, de 1994. Em 2010, foi a hora de recomeçar a história, colocando Jaden Smith e Jackie Chan nos papéis que haviam sido de Ralph Macchio e Pat Morita. O básico da história todo mundo sabe: um garoto que sofre bullying na nova escola conhece um vizinho mestre no caratê e vira aluno. Enquanto apanha dos “mauzinhos”, aprende conceitos sobre defesa pessoal e equilíbrio, lições para a vida (abaixo).

Numa onda de saudosismo que invadiu Cinema e televisão (Stranger Things que o diga!), viu-se a oportunidade de reviver a saga dos personagens criados pelo roteirista Robert Mark Kamen, que andava mais preocupado com suas novas franquias: Carga Explosiva e Busca Implacável. Daniel LaRusso e Johnny Lawrence (Macchio e William Zabka) voltariam a se encontrar, o que não devia acontecer com frequência, mesmo com eles morando em regiões próximas.

Há alguns anos, a finada série How I Met Your Mother cantou a pedra. Barney Stinson, personagem de Neil Patrick Harris, dizia que o verdadeiro Karatê Kid do título era Johnny, vivido por Zabka, o grande herói do longa. Algo assim acabou se tornando verdade em Cobra Kai, nova atração distribuída pelo YouTube Premium dividida em 10 capítulos curtos, mas muito divertidos. Daniel termina o filme de 84 consagrado campeão e a vida é gentil com ele, que se torna um empresário do ramo automobilístico.

Johnny, no entanto, torna-se uma nota de pé de página, um fracassado que pula de serviço em serviço e invariavelmente acorda de ressaca. Mais do que depressa, ele se torna nosso novo herói, enquanto Daniel não vira exatamente um vilão. E essa dualidade mantém-se por toda a jornada: ninguém é só bom ou só ruim. São dois seres humanos, com suas falhas e qualidades, tentando acertar. Criada a oportunidade, Cobra Kai se torna um novo dojo de caratê e Johnny, um sensei.

O humor da série é de uma leveza que você se pega com um sorriso no rosto por todo o episódio, além de ocasionais gargalhadas. Os acenos aos filmes da década de 80 são constantes, fazendo referência e reverência a determinados momentos. Quem se lembra de Daniel lavando os vidros do carro com movimentos circulares, por exemplo, vai se deliciar com pequenas homenagens. A essência dos personagens é respeitada e mesmo quem não conhece o cânone vai se afeiçoar a eles.

Algumas situações são esperadas, como um óbvio torneio e seus desdobramentos, mas outras quebram totalmente a expectativa do público. Participações especiais, como a de Randee Heller (a mãe de Daniel), são a cereja do bolo. Ver Macchio e Zabka, ambos com mais de cinquenta, reviver os papéis que os tornaram famosos em seus vinte e poucos anos é uma experiência fantástica. Se a nostalgia atual acabou nos trazendo algumas atrocidades, como remakes e sequências desnecessários de filmes e séries (até McGyver ganhou nova roupagem!), também nos presenteou com a ótima Cobra Kai. Uma nova geração de garotos e garotas poderá sair dando piruetas no ar.

Os cinquentões Macchio e Zabka voltam a se enfrentar

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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