Castle Rock visita a obra de Stephen King

por Marcelo Seabra

Em seus livros, o próprio Stephen King solta pistas que podem ser vistas como auto-referências ou, caso o leitor tenha mais boa vontade, apenas evidências de que se trata de um mesmo universo. Com essa história de universo compartilhado muito em voga, como provam as editoras Marvel e DC, para ficar nos exemplos principais, nada faz mais sentido. Tendo isso em mente, dois produtores e roteiristas tiveram a brilhante ideia de criar Castle Rock, uma série original que bebe na obra do autor, misturando as criações dele para tirar algo novo.

Os responsáveis pela atração, Sam Shaw e Dustin Thomason (ambos da série Manhattan), entregam uma premissa intrigante: um jovem é encontrado mantido em cativeiro, mantém-se calado e, quando questionado, se resume a pronunciar um nome. Quando o dono do nome é encontrado, descobrimos tratar-se de um advogado habituado a ter clientes no corredor da morte. Por essa rápida sinopse, é possível encontrar elementos que logo remetem à obra de King. Ah, e é bom mencionar que o tal cativeiro é nada menos que a antiga Shawshank. Tudo isso passado na cidade que recebe a maioria das tramas do escritor.

É com a prisão que o festival de referências começa. Para quem chegou agora na conversa, o cenário é assustador o suficiente para causar a impressão que pretende. Já os fãs do “mestre do terror” vão reconhecer de cara a prisão de Rita Hayward e a Redenção de Shawshank, conto que deu origem ao novo clássico Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994). Dessa mesma forma, encontramos diálogos e elementos visuais que nos remetem a O Iluminado, O Corpo (ou Conta Comigo, de 1986), Cão Raivoso (ou Cujo, 1983), entre outros.

E as referências não ficam só do lado de lá da tela. Ao ver Sissy Spacek em cena, é impossível não se lembrar de Carrie White, a pobre garota que era atormentada pelos colegas e até pela mãe, uma fanática religiosa. Spacek viveu a personagem em Carrie, a Estranha (1976), a primeira adaptação de uma história de King a ganhar os cinemas. A primeira de muitas, mas muitas mesmo! Por isso, não é difícil soltar essas pistas. Outro que grita para o público identificá-lo é Bill Skarsgård (abaixo), o jovem refém. Ele acaba de viver o palhaço Pennywise na nova roupagem de It – A Coisa (2017).

Dentre os personagens, é automático para os fãs ficar puxando da memória quem seria Henry Deaver, o protagonista vivido por André Holland (de The Knick). Não vai dar em nada a pesquisa, por se tratar de alguém novo. Mas o mesmo não se pode dizer do xerife Alan Pangborn, já retratado duas vezes no Cinema, ambas em 1993: em Trocas Macabras (interpretado por Ed Harris) e em A Metade Negra (na pele de Michael Rooker). O fato de Pangborn aparecer duas vezes na mitologia de King já causa deleite para os fãs. Aparecer na série, ainda mais através do ótimo Scott Glenn (o Stick do Universo Marvel na Netflix), é um bônus, mostrando o que teria sido a vida do xerife.

Com King e J.J. Abrams entre os produtores, Castle Rock é extremamente bem cuidada. Uma bela fotografia caracteriza claramente a fictícia cidade do Maine – estado onde King realmente mora. Conseguimos acompanhar a geografia do lugar e saber onde aconteceu o que. Verdade seja dita, ainda falta um bocado de desenvolvimento para os personagens, que não têm aprofundamento nos primeiros episódios, já disponibilizados pelo serviço de streaming Hulu. Agora, a ambientação e a apropriação do clima tenso das histórias de King hão de garantir a fidelidade do espectador.

Dois produtores de peso ajudam a trazer público

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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