Daniel de Oliveira é o rei da Boca do Lixo

por Marcelo Seabra

Boca internationalHiroito de Moraes Joanides (1936-1992), enquanto enfrentava uma longa pena na cadeia, decidiu contar sua história e justificar seus crimes. Por isso, escreveu um livro contando tudo o que fez para merecer o título de Rei da Boca do Lixo, zona boêmia paulistana que concentrava intelectuais, beberrões, prostitutas e diversos tipos de criminosos. Esse livro serviu de inspiração para o roteiro escrito por Flávio Frederico e Mariana Pamplona que daria origem a Boca (2010), longa já exibido em mostras, festivais e sessões pingadas que só agora chega às locadoras. O título original foi alterado para evitar confusões com o chamado “cinema marginal”, conhecido como Boca do Lixo.

Como os anos de atuação de Hiroito se restringiram às décadas de 50, 60 e 70, seu nome não é dos mais famosos hoje. Logo, seria necessária uma maior contextualização sobre o personagem. Não é isso que temos no longa, também dirigido por Flávio Frederico. Muitas informações são abordadas de raspão e outras são apenas dadas como notórias. Os saltos no tempo do roteiro não ajudam, o público fica boiando em diversos momentos da exibição. Em um, por exemplo, o personagem simplesmente sai da cadeia, apesar das várias acusações que enfrenta, e somos obrigados a deduzir que ele comprou a força policial local.

Vivendo o protagonista, Daniel de Oliveira tenta fazer o possível com o que lhe é dado e se resume a usar maneirismos para mostrar o quanto é mau, apesar do tipo magro. Seu Hiroito é um personagem falho, o roteiro usa subterfúgios óbvios para estabelecer verdades, como mostrar o sujeito lendo um livro para mostrar que ele era culto. Uma vez tendo provado o ponto, o texto não vê necessidade de voltar naquele aspecto, parecendo ter muito a mostrar em pouco tempo. Pode ter sido uma escolha de Frederico, para evitar um tom episódico, ou até uma restrição de orçamento, mas o longa acaba cheio de buracos.

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Oliveira já mostrou competência em diversos trabalhos, e muitos não esquecem seu Cazuza (de 2004). Ele só está precisando ler melhor os roteiros que topa fazer, para evitar confusões como 400 Contra 1 (2010) ou esse Boca. Hermila Guedes, de Assalto ao Banco Central (2011), interpreta a esposa de Hiroito, uma prostituta por quem o chefão cai de amores e que nunca define se é parceira do marido no crime ou se prefere que ele saia daquela vida. Ela é mostrada em cenas que reforçam ambas as situações. Milhem Cortaz, dos dois Tropa de Elite e de Assalto, é sempre um ator interessante, mas seu personagem aparece quando é conveniente para o filme, e nunca chega a ser menos que raso. Esse, inclusive, é o problema de todos que cercam o Hiroito cinematográfico, como o traficante concorrente vivido por Jefferson Brasil ou o policial corrupto de Paulo César Peréio. Leandra Leal, então, entra e sai pela mesma porta.

Após ler um pouco sobre a história do Rei da Boca, constatamos que realmente se trata de uma figura rica, que poderia ter sido bem explorada pelo cinema. Ele veio de uma família de recursos, tinha uma relação complicada com o pai, que foi brutalmente assassinado, e ele ainda foi acusado do crime. Passou a morar na zona que frequentava e montou um bordel que o faria crescer na região. Diz-se que sua ficha criminal corrida tinha mais de 20 metros. Elementos suficientes para se ter um novo Scarface, ou algo assim, mas não foi desta vez. Apesar de uma fotografia competente, um clima noir muito apropriado e uma boa direção de Frederico, que opta por pular certas passagens desnecessárias e óbvias que causariam pouco ou nenhum efeito sobre o público, Boca peca pela falta de um (anti)herói bem delimitado, que criasse um mínimo de identificação com o espectador, que poderia até entender a lógica de suas ações. Para que isso aconteça, é melhor buscar o livro do verdadeiro Hiroito.

Leandra Leal: "O que vim fazer aqui mesmo?"

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Sobre Marcelo Seabra

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM | Instagram - @opipoqueiroseabra
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