Heleno é Santoro e mais nada

por Marcelo Seabra

Há quem pense que pessoas geniais podem se dar o direito de serem arrogantes. O jogador de futebol Heleno de Freitas era tido como um gênio da bola, e era difícil de lidar na mesma proporção. Como o personagem serve como exemplo claro para um caso de apogeu e queda, era questão de tempo até alguém levá-lo às telas. Depois de oito anos de pesquisas e desenvolvimento e um de geladeira, aguardando lançamento, finalmente podemos conferir Heleno (2011), o longa que conta essa interessante e triste trajetória. Ou, ao menos, parte dela.

É inegável que o principal chamariz dessa bem cuidada produção é o protagonista, ninguém menos que Rodrigo Santoro, Melhor Ator no Festival de Havana. Não precisando provar nada para ninguém há anos, o ator se joga no personagem e se despe de vaidade para viver o craque em todas as suas fases, inclusive na mais debilitada, quando sua caracterização se torna ainda mais fantástica (ao lado). A maquiagem ajuda a construir a figura histórica e Santoro chegou a perder 12 quilos durante as filmagens – “Sempre com acompanhamento médico”, ressalta. Este é realmente um grande momento em sua carreira e a impressão positiva que a obra causa na hora se deve a ele.

O problema de Heleno é similar ao de A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011): o roteiro não ajuda. Passagens importantes da história de seu biografado não são mencionadas, suas raízes e motivações permanecem uma incógnita, ele apenas é mostrado como um sujeito irascível, que se achava o único jogador digno de vestir a camisa do clube que defendia, e que era cercado por mulheres – mais de uma ao mesmo tempo, inclusive. Outra falha é ainda mais grave: não se pode confiar que determinado fato ou situação realmente ocorreu, já que os realizadores lançam mão de licenças poéticas, criando momentos e até personagens. Sílvia (vivida por Alinne Moraes), por exemplo, não existiu da forma como é mostrada. A esposa foi alterada para criar mais nuances dramáticas.

O fato de o filme ser em preto e branco deve-se ao baixo orçamento, algo na casa dos 8,5 milhões, e até ajuda a reforçar que se trata de uma história ocorrida há décadas. Dessa forma, era mais fácil economizar com cenários e adaptações físicas das locações. Mas a conversão foi feita após as filmagens, realizadas em cores, e o efeito que os tons de cinza poderiam causar não são aproveitados. Não há nada de noir na produção e uma ótima oportunidade foi perdida.

O diretor José Henrique Fonseca, também um dos roteiristas, vem do longa policial O Homem do Ano (2003) e da série da HBO Mandrake (2005-2007), esta baseada no detetive criado por seu pai, o escritor Rubem Fonseca. Enquanto lidava com ficção, tudo corria bem. Por não querer jogar o público contra Heleno, um sujeito fácil de se desprezar, Fonseca acaba menosprezando a riqueza de sua personalidade, focando em apenas alguns aspectos e caindo no erro que tentava evitar, ressaltando-os.

Heleno é mais um filme que não faz justiça a seu personagem e nem a seu ator. Santoro merece ser visto e a história de Heleno merece maior destaque, mostrando porque suas habilidades como jogador eram tão elogiadas. Ele foi o atleta da época que movimentou mais dinheiro ao ser negociado, na transação entre Botafogo e Boca Juniors, quando foi vendido para o time da Argentina. A maior das ironias: ele, que defendeu com tanto afinco as cores do Botafogo, foi campeão carioca pelo Vasco. E nem isso o longa deixa claro.

Opção de título seria Jogando na Chuva - parece chover em todos os poucos jogos

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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Uma resposta para Heleno é Santoro e mais nada

  1. Jorge de Souza disse:

    “Jogando na Chuva” hahahahahaha, lendo isso lembrei de um erro de continuidade, que em um dos jogos chuvosos, o filme se divide em duas cenas, um com Heleno na chuva, jogando… e o close na Sylvia e no Carlito Rocha aflitos nas arquibancadas, totalmente SECOS.

  2. Pingback: Morro do Alemão estrela produção nacional | opipoqueiro

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