O poço de Nicolas Cage é bem fundo

por Marcelo Seabra

Imagine misturar o clássico Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951) com o dramalhão A Corrente do Bem (Pay It Forward, 2000). Daria um longa onde um personagem mata quem causa problema para outro e a dívida passa adiante, com todos ao mesmo tempo sendo beneficiados e tendo um dever a cumprir, dificultando o trabalho da polícia por não terem ligação alguma entre si. Eu assistiria a este filme. E é o que parecia ser O Pacto (Seeking Justice, 2012). Mas, ultimamente, um filme com Nicolas Cage nunca é o que parece – é sempre pior.

Alguns atores podem ser acompanhados de perto por seus fãs, já que dificilmente fazem um trabalho muito ruim. Há poucos dias, um amigo observou esse fato a respeito de Denzel Washington, cuja presença sempre o motiva a conferir uma obra. Nicolas Cage já foi um destes profissionais inspiradores de tal confiança. Já foi. Há muito tempo. Depois de assistir, em um curto período de tempo, a O Pacto, O Motoqueiro Fantasma 2, Reféns, Fúria Sobre Rodas, Caça às Bruxas e Aprendiz de Feiticeiro, não há quem resista.

Demonstrando claramente, mais do que nunca, que tem muitas contas a pagar, Cage encarna um pacato professor de literatura de uma escola pública – nada mais longe do que esperamos dele. Até aí, uma escolha corajosa. Não é todo mundo que toparia declamar Shakespeare em frente a uma turma de jovens que, parece, não querem nada com nada. Para que isso fique ainda mais claro, em um roteiro óbvio, mal escrito e inconsistente, esses jovens são vistos brigando constantemente. E o professor é o cara centrado que busca trazer a eles a salvação através do estudo.

Há apenas uma pequena demonstração do maníaco que Cage guarda em si. O único indicador dos famosos chiliques do ator acontece na boate, rapidamente. Tudo corre bem até que a esposa é atacada. Depois do estupro e agressão, na sala de espera do hospital, o professor é abordado por um sujeito misterioso que se mostra solidário à dor de ter um parente agredido dessa forma e faz uma oferta tentadora. Bastaria um sim para que ele mobilizasse sua organização para fazer o que as autoridades dificilmente fariam: punir o agressor. Cage ficaria apenas devendo um favor, que viria no momento necessário. Nada que a máfia já não faça há décadas.

Após uma premissa interessante, começa o festival de estranhezas e percebemos ser este um filme comum na carreira de Cage, mesmo que ele esteja mais contido. É algo que outros atores devem ter dispensado e que acabou chegando em suas mãos. Nem Liam Neeson, que anda provando ser capaz de fazer ações medianas, não aceitaria isso. E a companheira de Neeson em Desconhecido (Unknown, 2011), January Jones (acima), prova novamente que é apenas um rostinho bonito, o que já dava para concluir assistindo à série Mad Men ou a X-Men: Primeira Classe. Ela vive a esposa rasa e estereotipada, indo do modelo de perfeição à vítima que terá mania de perseguição até o fim de seus dias. Algumas das piores falas saem de sua boca.

O vilão de O Pacto, Simon, é claramente um psicopata disfarçado de benfeitor. Sabemos de cara que sua oferta não sairá de graça, pelo contrário, e a transformação do personagem é tão esperada quanto exagerada. Guy Pearce (ao lado), que se mostrou um fantástico intérprete em diversos trabalhos, como Los Angeles – Cidade Proibida (L.A. Confidential, 1997) e Amnésia (Memento, 2000), não tem o que fazer como o tal misterioso líder da organização que pretende limpar a Louisiana. Outro desperdício é Jennifer Carpenter, lembrada como a Tenente Debra Morgan ou a exorcizada Emily Rose, que apenas mostra a cara e não diz a que veio.

O diretor Roger Donaldson conduziu filmes famosos dos anos 80, como Sem Saída (No Way Out, 1987) e Cocktail (1988). Apesar dos pesares, teve altos nas décadas seguintes, como A Experiência (Species, 1995) e Treze Dias que Abalaram o Mundo (13 Days, 2000). E assinou em 2008 o interessante Efeito Dominó (The Bank Job). Mas Donaldson não anda em boa forma, entregando uma obra enfadonha e previsível onde nada funciona. Não chega a ser o pior trabalho de Nicolas Cage – o que não significa muito. Para Donaldson, no entanto, este é um sério candidato.

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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3 respostas para O poço de Nicolas Cage é bem fundo

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