Um Fincher menor ainda é um bom filme

por Marcelo Seabra

O jornalista e escritor sueco Stieg Larsson morreu sem ter noção da dimensão do sucesso que sua obra alcançou. Criador da trilogia Millennium, ele teve um ataque cardíaco fulminante em 2004, poucos anos antes de sua obra vender milhões de exemplares pelo mundo e chegar aos cinemas de seu país. Agora, como é costume dos americanos, que não são famosos por apreciarem filmes estrangeiros, o primeiro livro foi adaptado novamente. Coube a David Fincher a realização, na língua inglesa, de Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo, 2011).

O gênero policial nórdico tem ganhado notoriedade na literatura, cinema e televisão. A série The Killing, por exemplo, seguiu o mesmo caminho e teve duas adaptações para a tela pequena, obtendo sucesso e visibilidade com ambas. Martin Scorsese, um dos maiores cineastas de todos os tempos, está certo no comando da adaptação de The Snowman, de Jo Nesbø, escritor norueguês também best seller. Larsson ficou famoso por pegar mais pesado que seus colegas de vizinhança no que diz respeito a sexo e violência, além de tramas que envolvem política.

Millennium é o nome da editora de Mikael Blomkvist, um jornalista investigativo que enfrenta uma sentença desfavorável num caso de difamação. Tendo que pagar uma quantia alta ao milionário difamado, ele ainda vê sua reputação ser jogada na lama. O momento é propício para umas férias forçadas e Blomkvist acaba aceitando um convite: escrever as memórias de Henrik Vanger, um empresário idoso do interior. Na verdade, essa é a desculpa usada para não atrair muita atenção: o que Vanger quer é descobrir o que houve com sua sobrinha, desaparecida na década de 60.

A família Vanger é formada por tipos peculiares, e o que eles têm em comum é a necessidade de privacidade. Blomkvist não terá uma tarefa fácil, com toneladas de documentos e várias fotos para analisar, além de repassar depoimentos de quem participou dos eventos da época e entrevistar quem ainda estivesse vivo. Para acelerar a investigação, o jornalista solicita a contratação de uma auxiliar e a indicação que recebe é bem improvável. Trata-se de Lisbeth Salander, uma hacker antissocial que parece conseguir invadir qualquer rede, computador ou até apartamento.

Juntos, Blomkvist e Lisbeth vão revirar a história da família Vanger, fazer alguns desafetos e até correr risco de morte. O interessante é que eles se balanceiam: ele é mais correto, mantendo-se nos limites da lei, enquanto ela recorre ao que for necessário para chegar à verdade. O velho clichê do policial bom e do policial mau é bem utilizado, já que nenhum dos dois é de fato uma autoridade.

O elenco de Os Homens… foi escolhido a dedo, buscando atores que não fossem muito “americanos”, já que os personagens são suecos. Daniel Craig, trabalhando bastante ultimamente, ficou com o papel de Blomkvist. Recentemente visto em A Casa dos Sonhos (2011) e As Aventuras de Tintim (2011), ele já está nos sets de Skyfall, a nova aventura de James Bond. Vencendo uma seleção concorridíssima, Rooney Mara (ao lado), a única envolvida que saiu mais forte da refilmagem de A Hora do Pesadelo, vive Lisbeth, e se mostrou uma escolha tão acertada que está concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz, uma das cinco indicações ao prêmio que o longa emplacou. Christopher Plummer, como o velho Henrik, e Stellan Skarsgård, o sobrinho Martin, são outros destaques.

David Fincher é conhecido por imprimir um estilo bem próprio em seus trabalhos. Mesmo quando se baseia em material pré-existente, caso de O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), Clube da Luta (1999) ou A Rede Social (2010), sua mão é facilmente percebível ao longo da projeção. Em Zodíaco (2007), por exemplo, ele fez um filme obsessivo que destrinchava o caso real do famoso assassino usando diversos personagens e fatos, ilustrando perfeitamente o caos que a vida dos investigadores se tornou. A trilha sonora é outro elemento que Fincher normalmente usa muito bem, ressuscitando clássicos da música norte-americana como Inner City Blues (de Marvin Gaye) ou Hurdy Gurdy Man (de Donovan) – ambas em Zodíaco.

Desta vez, Fincher parece ter sido contratado para executar uma missão, seguindo à risca uma fórmula que lhe foi passada pronta. Em ponto algum o longa desagrada, mas não chega a ter grandes momentos. O brilhantismo do diretor parece estar soterrado pelo livro de Larsson e é ofuscado pelo receio de desagradar os fãs da obra. É um bom filme, que poderia ter sido comandado por vários outros diretores. Não é o que nos acostumamos a esperar de Fincher.

"E aí, vai trabalhar comigo?"

Sobre opipoqueiro

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM
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