{"id":9094,"date":"2021-08-22T14:00:00","date_gmt":"2021-08-22T17:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/?p=9094"},"modified":"2021-08-22T11:36:00","modified_gmt":"2021-08-22T14:36:00","slug":"estou-indo-embora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/2021\/08\/22\/estou-indo-embora\/","title":{"rendered":"Estou indo embora"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"854\" src=\"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/wp-content\/uploads\/sites\/115\/2021\/08\/skull-1193784_1280-1024x854.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9247\" srcset=\"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/wp-content\/uploads\/sites\/115\/2021\/08\/skull-1193784_1280-1024x854.jpg 1024w, https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/wp-content\/uploads\/sites\/115\/2021\/08\/skull-1193784_1280-300x250.jpg 300w, https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/wp-content\/uploads\/sites\/115\/2021\/08\/skull-1193784_1280-768x641.jpg 768w, https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/wp-content\/uploads\/sites\/115\/2021\/08\/skull-1193784_1280.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/tag\/marcio-magno-passos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">M\u00e1rcio Magno Passos<\/a><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Ele tinha pavor da morte. N\u00e3o gostava nem de falar sobre ela. N\u00e3o foi criado para este tipo de preocupa\u00e7\u00e3o. O pai era dono de muitas terras, mais herdeiro do que propriamente dono, nas Minas Gerais. Bo\u00eamio, n\u00e3o saia da zona at\u00e9 que, com seis filhos, ficou vi\u00favo e n\u00e3o pensou duas vezes: como um bom amante buscou a preferida no meretr\u00edcio e se casou de novo. Com a vida que levava, morreu pobre, com mais tr\u00eas filhos no segundo casamento. Tinha os olhos esbugalhados pelo uso exagerado do \u00e1lcool e um cigarro sempre entre os dedos. Enfartou sentado no sof\u00e1 de madeira da sala, na frente do filho e netos que se misturavam na idade.<\/p>\n\n\n\n<p>O filho do primeiro casamento tamb\u00e9m tinha pavor pela morte. Herdara do pai os olhos esbugalhados e o cigarro entre os dedos, mas riqueza material n\u00e3o lhe sobrou, nem aos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Cada um tomou seu rumo e este foi parar na capital. Casou-se novo, teve um filho a cada ano durante d\u00e9cada e meia ou mais. Meia d\u00fazia morreu antes ou logo ap\u00f3s o nascimento. Um experimentou o suic\u00eddio, \u00e0 bala. Outro preferiu o caminho dos excessos que enfraqueceram o cora\u00e7\u00e3o e o pulm\u00e3o. Coisas da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha pavor da morte. Era, entretanto, muito corajoso. Ou, pelo menos, assim parecia. Topava qualquer briga. Podiam lhe questionar as pr\u00e1ticas, mas no discurso era imbat\u00edvel. Radical e pouco tolerante, tinha cora\u00e7\u00e3o mole, apesar da figura de dur\u00e3o, bravo e, algumas vezes, agressivo. Igreja? Dela mantinha dist\u00e2ncia. \u201c<em>Quero morrer aos 150 anos, assassinado por um namorado ciumento<\/em>\u201d, repetiu centenas de vezes aos filhos, parentes e amigos. O tempo, entretanto, sempre senhor da raz\u00e3o, o foi envelhecendo, ficou vi\u00favo e n\u00e3o tinha, como o pai, ningu\u00e9m na zona.<\/p>\n\n\n\n<p>Chorou a morte da mulher, come\u00e7ou a se definhar e o Alzheimer tomou conta dele. Virou os oitenta n\u00e3o entendendo e n\u00e3o aceitando a morte. Tinha pavor dela, mas come\u00e7ou a ler a b\u00edblia e cantar m\u00fasicas religiosas. No come\u00e7o era meia hora por dia, passou para uma hora e depois metade do dia. Falar de morte, no entanto, nem pensar. Certo dia, j\u00e1 mais na cama do que fora dela, recebeu a visita quase di\u00e1ria de um dos filhos. Tomou-lhe uma das m\u00e3os e ficou olhando para lugar algum. At\u00e9 que fitando bem nos olhos do filho disse com indisfar\u00e7\u00e1vel voz de lamento:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013&nbsp; Estou indo embora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013&nbsp; E qual o sentimento, pai?<\/em>, quis saber o filho que conhecia sua avers\u00e3o \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai o olhou com o olhar mais perdido da vida e respondeu que n\u00e3o tinha outro caminho. E foi-se, triste como nunca, sem reclamar, mas morrendo de medo dela.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o deu mais not\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Curta:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Blog-Mirante-104019264595503\/?ref=page_internal\">Facebook<\/a>&nbsp;\/&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/blogmirante\/\">Instagram<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcio Magno Passos Ele tinha pavor da morte. N\u00e3o gostava nem de falar sobre ela. N\u00e3o foi criado para este tipo de preocupa\u00e7\u00e3o. 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