{"id":22184,"date":"2026-02-19T05:57:59","date_gmt":"2026-02-19T08:57:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/?p=22184"},"modified":"2026-02-18T16:00:11","modified_gmt":"2026-02-18T19:00:11","slug":"entre-o-veu-e-o-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/2026\/02\/19\/entre-o-veu-e-o-espelho\/","title":{"rendered":"Entre o v\u00e9u e o espelho"},"content":{"rendered":"<h5 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/category\/sandra-belchiolina\/\">Sandra Belchiolina<\/a><\/h5>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Sem falso moralismo \u2014 porque ele derrete no primeiro suor de fevereiro \u2014 \u00e9 f\u00e1cil admitir: o Carnaval \u00e9 a grande festa brasileira. A p\u00e1tria onde confete \u00e9 argumento, serpentina \u00e9 v\u00edrgula e purpurina funciona como tese de doutorado. H\u00e1 brilhos suficientes para iluminar as sombras do ano inteiro.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u00c9 tamb\u00e9m o momento em que a fantasia toma o volante e manda o Eu punitivo tirar f\u00e9rias. O chefe interno, sempre t\u00e3o consciente e vigilante, perde o crach\u00e1 por alguns dias. O Supereu \u2014 esse fiscal da alegria \u2014 at\u00e9 tenta apitar, mas a bateria passa por cima.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">No Carnaval, a alegria d\u00e1 vaz\u00e3o (com \u201cz\u201d, porque ningu\u00e9m merece erro ortogr\u00e1fico em plena avenida) e o v\u00e9u da censura escorrega sem pedir licen\u00e7a. A fantasia social \u2014 aquela vers\u00e3o discreta que sustentamos o ano todo \u2014 reaparece com plumas, salto 15 e nome art\u00edstico. Para alguns, claro. H\u00e1 quem use um v\u00e9u t\u00e3o espesso que nem raio-X atravessa. Para esses, enxergar, ouvir ou falar \u00e9 opcional; reclamar, jamais. Permanecer na censura parece mais seguro do que encarar o espelho \u2014 ainda que o espelho esteja coberto de glitter.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Mas h\u00e1 sempre o risco delicioso de ver o que est\u00e1 por tr\u00e1s do v\u00e9u. E isso, convenhamos, \u00e9 salutar. \u00c0s vezes terap\u00eautico. \u00c0s vezes revolucion\u00e1rio. Quase sempre desconcertante.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">E ent\u00e3o chega a quarta-feira de cinzas \u2014 esse dia em que a maquiagem vira mem\u00f3ria e o corpo pergunta: \u201ce agora?\u201d. O que sobra da soma dos excessos? O que fica quando o som desliga e a fantasia volta para o cabide?<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Talvez o Carnaval seja menos fuga e mais ensaio. Um laborat\u00f3rio afetivo a c\u00e9u aberto. O jogo amoroso sai do privado e ganha rua, palco, cal\u00e7ada. Mostrar-se e ser visto deixa de ser exce\u00e7\u00e3o e vira m\u00e9todo. Corpos diversos, estilos m\u00faltiplos, amores fluidos (ou nem tanto) ocupam a cidade como quem reivindica exist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">E isso pode ser insuport\u00e1vel para quem precisa que tudo permane\u00e7a velado, organizado, etiquetado. O brilho alheio incomoda mais do que a pr\u00f3pria ressaca.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Se a quarta-feira \u00e9 cinza ou ainda colorida, depender\u00e1 da \u00e9tica do desejo que cada um sustentou nos dias de Rei Momo \u2014 e, principalmente, do que far\u00e1 com ela quando o samba silenciar. Fantasiar-se de homem, de mulher, de ambos ou de nenhum; atravessar fronteiras ou redesenh\u00e1-las \u2014 tudo isso pode render um lucro subjetivo interessante, desde que n\u00e3o seja arquivado na pasta \u201cfoi s\u00f3 Carnaval\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Porque a fantasia autorizada nesses dias n\u00e3o sacode apenas o corpo: sacode a estrutura. \u00c0s vezes vira a pessoa do avesso \u2014 e ainda bem. Um pouco de desorganiza\u00e7\u00e3o pode ser mais vital do que anos de compostura impec\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">No fim das contas, viver permanentemente reprimido \u00e9 muito mais triste do que encontrar glitter no travesseiro em pleno m\u00eas de mar\u00e7o.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra Belchiolina Sem falso moralismo \u2014 porque ele derrete no primeiro suor de fevereiro \u2014 \u00e9 f\u00e1cil admitir: o Carnaval \u00e9 a grande festa brasileira. 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