{"id":16074,"date":"2023-12-23T06:17:41","date_gmt":"2023-12-23T09:17:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/?p=16074"},"modified":"2023-12-16T11:27:04","modified_gmt":"2023-12-16T14:27:04","slug":"16074","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/mirante\/2023\/12\/23\/16074\/","title":{"rendered":"Presentes"},"content":{"rendered":"<h4><strong>Peter Rossi<\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando minha av\u00f3 Nazinha voltava de Correias era uma alegria s\u00f3. Ficava na espreita dos presentes que iria receber. Ficava t\u00e3o el\u00e9trico que me esquecia, \u00e0s vezes, do melhor deles: um abra\u00e7o aconchegante, quentinho, com um cheirinho pr\u00f3prio de roupa que fica no fundo do arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>Minha v\u00f3 era tudo de bom que uma v\u00f3 podia ser! Mais ainda, \u00e0s vezes se esquecia de que era v\u00f3, e pensando ter a mesma idade que eu, rolava no ch\u00e3o, dan\u00e7ava e sorria, sorria largo com todos os dentes cansados \u00e0 mostra.<\/p>\n<p>Falava dos presentes e dois, de maneira especial, marcaram a minha inf\u00e2ncia: um enorme saco pl\u00e1stico com miniaturas de carrinhos de pl\u00e1stico. Coisa muito simples, dividido em quatro cores \u00fanicas, com as rodinhas pretas, rodinhas que n\u00e3o giravam, \u00e9 preciso lembrar. Os modelos: fusquinha, Kombi e um terceiro bem primitivo, que bem poderia ser um Chevette ou qualquer outro modelo que se pudesse desenhar com tr\u00eas ou cinco tra\u00e7os retos. Mas eu amava aqueles carrinhos. E tantos &#8230; Contava-os, separava por cor, por modelo, enfim, era uma frota \u00fanica a povoar o meu imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Fazia no barranco de argila, com o aux\u00edlio de uma simples colher, uma estradinha um tanto in\u00f3spita e perigosa e ia enfileirando todos os carrinhos, um atr\u00e1s do outro, num m\u00e1gico engarrafamento. Ficava horas e horas a simplesmente contemplar. S\u00f3 isso. Nem uma piscada, nenhum outro gesto. Era eu ali, paradinho a admirar o desfile est\u00e1tico dos meus carrinhos.<\/p>\n<p>Outro presente que muito me agradava eram as bolinhas de gude. Minha v\u00f3 era extremamente gentil nesses presentes baratinhos e, comprando-os em grande quantidade, fazia-os parecer muito melhor do que na verdade eram. Engano meu, fosse um s\u00f3, seria o melhor, hoje tenho a exata convic\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p>As bolinhas de gude eram t\u00e3o d\u00f3ceis, coloridas, brilhantes. T\u00e3o bom t\u00ea-las nas m\u00e3os, quantas coubesse, escorrendo por entre os dedos. O pap\u00e3o era um buraco no ch\u00e3o de terra e ali era o destino final das minhas bolinhas. Como eu gostava disso! Prender o polegar recolhido atr\u00e1s do indicador, mantendo a bolinha entre os dois para imprimir uma velocidade \u00edmpar. As bolinhas voavam e batiam umas nas outras como a soltar fa\u00edscas.<\/p>\n<p>Minha v\u00f3 me deixa saudades, assim como as tenho dos carrinhos e das bolinhas de gude. Quanto a esses \u00faltimos at\u00e9 que passo sem, mas que vontade de ter vov\u00f3 Nazinha aqui pertinho, com seu abra\u00e7o com cheiro de fundo de arm\u00e1rio. \u00c9 uma pena, ela partiu quando ainda n\u00e3o tinha me dado conta de sua import\u00e2ncia. Sentia sua plenitude no meu peito, mas nunca consegui corresponder e, com o rosto em seu colo, chorar de saudade e dizer que a amo demais, que ela era o meu sonho de crian\u00e7a, era tudo o que eu precisava.<\/p>\n<p>Hoje ainda conversamos muito. Mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. N\u00e3o mais vejo seus olhinhos apertando quando sorri. Continuo a receber seus conselhos e at\u00e9 seus afagos, mas n\u00e3o tenho mais como retribuir o que nunca fiz.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, \u00e0 noite, sinto at\u00e9 aquele velho cheirinho de fundo de arm\u00e1rio e embalado engato uma conversinha boa que dura at\u00e9 o chegar da manh\u00e3. O mais divertido \u00e9 que eu pergunto e acabo por responder, com a doce ilus\u00e3o de que minha av\u00f3 \u00e9 quem estaria falando. Ser\u00e1 que n\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00f3s somos a poeira juntada ao longo da vida, retirada de todos os m\u00f3veis nos quais nos sentamos ou tocamos, de todas as luzes que nos iluminam, de todas as janelas sobre as quais nos debru\u00e7amos.<\/p>\n<p>As janelas da casa de minha av\u00f3 tinham cortinas pequeninas, branquinhas, de croch\u00ea que ela mesma tecia. Por ali o sol entrava sem pedir licen\u00e7a, e cuidava apenas de nos aquecer.<\/p>\n<p>Os sof\u00e1s tinham paninhos sobre os bra\u00e7os, como a demonstrar que estavam sempre vestidos para uma festa. Adorava enfiar meus dedos pequenos nos buraquinhos do croch\u00ea, preenchendo espa\u00e7os que eram mesmo destinados a essa brincadeira.<\/p>\n<p>Essas imagens est\u00e3o definitivamente presas \u00e0 minha consci\u00eancia. S\u00e3o o palco de tempos felizes que se repetem a cada dia, pela simples lembran\u00e7a. \u00c9 a poeira que juntamos, que se acumula em nossas vidas, um tantinho de cada um, um todo de todos, dos presentes, dos brinquedos, dos sorrisos, das av\u00f3s, das janelas com cortinas brancas.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes dou de pensar que o movimento dos dias acaba nos levando longe de tais lembran\u00e7as. Nada disso, elas est\u00e3o arraigadas em n\u00f3s. Impregnadas em nossa alma. A vida \u00e9 mesmo esse somat\u00f3rio de sonhos vividos e imaginados, alguns que n\u00f3s esquecemos, outros que teimam em nos acompanhar por toda a nossa exist\u00eancia. Sonhos soltos, breves, longos, l\u00edvidos, assustados, apaixonados. Sonhos com cheiro de manh\u00e3 de sol, sonhos at\u00e9 com cheirinho de fundo de arm\u00e1rio. Esses, ent\u00e3o, s\u00e3o os melhores de se viver.<\/p>\n<p>Acho que todos n\u00f3s temos um arm\u00e1rio para guardar os sonhos e as lembran\u00e7as. As portas nunca se trancam, est\u00e3o at\u00e9 meio desajustadas, mas juntas, prontas para se abrir e abafar a dist\u00e2ncia dos pensamentos. Viver \u00e9 abrir as portas dos nossos arm\u00e1rios sempre que nos der vontade, olhar cada cantinho do seu interior e sentir o cheiro bom que vem l\u00e1 do fundo, como se fosse um longo abra\u00e7o de v\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Rossi &nbsp; Quando minha av\u00f3 Nazinha voltava de Correias era uma alegria s\u00f3. Ficava na espreita dos presentes que iria receber. Ficava t\u00e3o el\u00e9trico que me esquecia, \u00e0s vezes, do melhor deles: um abra\u00e7o aconchegante, quentinho, com um cheirinho pr\u00f3prio de roupa que fica no fundo do arm\u00e1rio. Minha v\u00f3 era tudo de bom que uma v\u00f3 podia ser! 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