Farsa

Guilherme Scarpellini Li em algum lugar que a mente ocupada é inimiga da criatividade. Pura verdade. Em semanas como esta, que não parei para ouvir música, ler ficção e olhar para o meu umbigo, eu não consigo escrever. Não por acaso escritores se isolam. O melhor lugar para escrever é onde se ouvem os grilos. Com a mente inquieta, nada de produtivo vem a ela. … Continuar lendo Farsa

Onde habitam os fantasmas

Guilherme Scarpellini Alguém precisa fazer o trabalho sujo, e Sebastião o fazia de mau humor. Limpar os banheiros da rodoviária certamente não é o tipo de serviço que você faz sorrindo. Com pouca saúde, quase nada de instrução e menos ainda de dinheiro, foi o que sobrou para Sebastião. Não bastasse ter de pôr a mão na merda, o maldito lugar era ainda mal-assombrado, pelo … Continuar lendo Onde habitam os fantasmas

A última refeição

Guilherme Scarpellini Dois ovos mexidos são indispensáveis no café da manhã de Décio. Ele apanha sempre os mais graúdos na porta da geladeira, quebra a casca na quina da frigideira e despeja clara e gema na manteiga quente. Foi justamente ao quebrar o ovo pela manhã que Décio quase morreu de susto. Lá dentro não havia clara nem gema, mas um filhotinho de réptil. Isso … Continuar lendo A última refeição

Nosso Livro

Nascemos como nascem todos. Em 2018, duas pessoas resolveram se juntar e chegaram à conclusão que o que tinham à vista já não era o suficiente. Para preencher o vazio com o qual a existência nos sufoca dia a dia, era necessário olhar para o Horizonte. Como todas as junções onde o amor impera, a multiplicação foi apenas mais um traço do destino. Quando os … Continuar lendo Nosso Livro

A simbologia da bofetada

Guilherme Scarpellini Will Smith desceu uma bofetada contra o rosto de Chris Rock durante a cerimônia do Oscar, e diversas análises surgiram. Um episódio de inaceitável violência, disseram alguns. Uma violência de um inaceitável episódio, disseram outros. Mera encenação, concluíram os mais céticos. Fato é que o tabefe foi simbólico, seja ele real, fictício, desprezível, heroico, a depender do gosto da freguesia, que ainda consome … Continuar lendo A simbologia da bofetada

Piscina verde

Guilherme Scarpellini Se a piscina do Cazuza está cheia de ratos, a minha está repleta de lodo, aderido aos azulejos, quinas e rejuntes. Coisa horrível. Sucedeu que o filtro da água estragou. Quinze dias na manutenção bastaram para converter a piscina em um tanque de água verde, escura e sinistra, como as águas dos pântanos de Mississipi, que inspiraram blues tristes e lamurientos ao longo … Continuar lendo Piscina verde

Um olho

Guilherme Scarpellini Vejo a noite ficar mais escura à medida que as horas vão passando. Depois, o inverso. Às 8 da manhã, o dia está claro suficiente para machucar os olhos de quem varou madrugada adentro, trabalhando em uma lojinha de merda, dentro de um posto de gasolina 24 horas, igualmente, merda. É hora de ir para casa. Parece que o corpo humano não foi … Continuar lendo Um olho

Fantasma na janela

Guilherme Scarpellini Era algo como uma presença, uma entidade, uma energia estranha que Alfredo sentia ao descer do carro para abrir o portão, sempre que chegava tarde da noite em casa. Assim que se voltava para o carro, o rapaz avistava, de relance, sob a penumbra de uma luz fraquinha, envolta pelas cortinas brancas da pequena janela da casa do outro lado da rua, Dona … Continuar lendo Fantasma na janela

Invicto

Guilherme Scarpellini Pânico! Culpa!! Desespero!!! Um mix de sentimentos é o que me toma de assalto agora. O motivo? Pela primeira vez na história desse país é bem provável que não entregarei uma crônica semanal ao Mirante. Já são dois anos contribuindo para o blog. Uma crônica por semana. Considerando que o ano contém doze meses, e que o mês corresponde a quatro semanas, lá … Continuar lendo Invicto

A triste história de Lesminha

Guilherme Scarpellini No país dos caramujos, todos rastejam. Não é para menos: o consumo de uma substância pastosa, composta de leite de papoula e barbitúricos, popularmente conhecida como “chope de caramujo”, é habito comum entre os habitantes do planeta gosmento. Por vezes, um desses seres pegajosos acaba abusando da bebida. Fica estatelado sob o sol até secar por completo. É uma morte lenta, triste, angustiante, … Continuar lendo A triste história de Lesminha