Léo Sequela

Guilherme Scarpellini Léo Sequela tem vinte e poucos anos e vendia trouxinhas de maconha na esquina quando era um pouco mais moleque. Estreou a maioridade em cana. No dia que completou 18 anos, a polícia invadiu o seu barracão, sem mandado, mas com um belo chute na porta, e encontrou um pouco de erva embalada para pronta entrega. Léo Sequela, incapaz de matar uma mosca, … Continuar lendo Léo Sequela

A bruxa

Guilherme Scarpellini Ela atende em uma casinha antiga como tantas outras no centro de Araxá. A diferença é que, ao passar pelo portão de entrada, você é recebido por alguns de seus gatos pretos e embriagado pelo aroma de mirra queimando. Atrás de um pequeno balcão, sentada em uma cadeira de balanço velha, está ela, igualmente velha, a bruxa. Muito sábia ela. Diz o que … Continuar lendo A bruxa

Dia do Rei

Guilherme Scarpellini Li que o governo brasileiro cogitou trazer o coração de Dom Pedro I, que está preservado em formol e guardado em uma igreja de Portugal, para as comemorações do bicentenário da Independência. O que me levou a recordar a história do povo de São Benedito do Padecimento, um pequeno povoado na divisa com o fim do mundo, onde as antigas tradições são firmes, … Continuar lendo Dia do Rei

Assassinatos em vida

Guilherme Scarpellini Nunca uma questão havia tirado o sono de Jorge como esta: como matar a mulher com quem dividiu o colchão, o espaço na frente do espelho do banheiro e até mesmo a torrada no café da manhã, ao longo dos últimos cinco anos? Jorge não fazia ideia de como deveria proceder. Mas sabia que tinha de fazê-lo por uma via rápida, indolor, eficiente … Continuar lendo Assassinatos em vida

Farsa

Guilherme Scarpellini Li em algum lugar que a mente ocupada é inimiga da criatividade. Pura verdade. Em semanas como esta, que não parei para ouvir música, ler ficção e olhar para o meu umbigo, eu não consigo escrever. Não por acaso escritores se isolam. O melhor lugar para escrever é onde se ouvem os grilos. Com a mente inquieta, nada de produtivo vem a ela. … Continuar lendo Farsa

A última refeição

Guilherme Scarpellini Dois ovos mexidos são indispensáveis no café da manhã de Décio. Ele apanha sempre os mais graúdos na porta da geladeira, quebra a casca na quina da frigideira e despeja clara e gema na manteiga quente. Foi justamente ao quebrar o ovo pela manhã que Décio quase morreu de susto. Lá dentro não havia clara nem gema, mas um filhotinho de réptil. Isso … Continuar lendo A última refeição

A simbologia da bofetada

Guilherme Scarpellini Will Smith desceu uma bofetada contra o rosto de Chris Rock durante a cerimônia do Oscar, e diversas análises surgiram. Um episódio de inaceitável violência, disseram alguns. Uma violência de um inaceitável episódio, disseram outros. Mera encenação, concluíram os mais céticos. Fato é que o tabefe foi simbólico, seja ele real, fictício, desprezível, heroico, a depender do gosto da freguesia, que ainda consome … Continuar lendo A simbologia da bofetada

Piscina verde

Guilherme Scarpellini Se a piscina do Cazuza está cheia de ratos, a minha está repleta de lodo, aderido aos azulejos, quinas e rejuntes. Coisa horrível. Sucedeu que o filtro da água estragou. Quinze dias na manutenção bastaram para converter a piscina em um tanque de água verde, escura e sinistra, como as águas dos pântanos de Mississipi, que inspiraram blues tristes e lamurientos ao longo … Continuar lendo Piscina verde

Um olho

Guilherme Scarpellini Vejo a noite ficar mais escura à medida que as horas vão passando. Depois, o inverso. Às 8 da manhã, o dia está claro suficiente para machucar os olhos de quem varou madrugada adentro, trabalhando em uma lojinha de merda, dentro de um posto de gasolina 24 horas, igualmente, merda. É hora de ir para casa. Parece que o corpo humano não foi … Continuar lendo Um olho

Fantasma na janela

Guilherme Scarpellini Era algo como uma presença, uma entidade, uma energia estranha que Alfredo sentia ao descer do carro para abrir o portão, sempre que chegava tarde da noite em casa. Assim que se voltava para o carro, o rapaz avistava, de relance, sob a penumbra de uma luz fraquinha, envolta pelas cortinas brancas da pequena janela da casa do outro lado da rua, Dona … Continuar lendo Fantasma na janela