Daniela Mata Machado
Era uma garota jovem e bem bonita. Tinha as pernas grossas, a cintura fina, várias tatuagens nos braços e as pessoas pareciam gostar muito dela. Uma outra moça, jovem como ela, se aproximou e disse: “Amiga, que linda! Você fez a boca?”. Ela sorriu, balançou a cabeça e perguntou: “Você gostou?”. Mais adiante, uma outra moça também lhe elogiou a boca. E a menina bonita tornou a sorrir e responder com a mesma pergunta: “Você gostou?”. A outra havia gostado. Pediu que ela, mais tarde, passasse o nome do cirurgião. Aparentemente, era bem importante para aquela mocinha a opinião que as outras pessoas teriam sobre a sua boca, retocada na mesa do cirurgião plástico.
Onde é que a gente se perde da gente? Tenho me debruçado um bocado sobre essa pergunta. Onde foi que eu larguei a menina descabelada, que passava horas fazendo bolinho de terra, dançando um balé engraçado que ela achava incrível ou desenhando cachorros da orelha comprida com a língua de fora? Em que curva da vida a gente de repente entra e já não consegue se reconhecer? De repente me lembro de Alice – a do Lewis Carroll – caindo na toca do coelho apressado… Será que caímos também, todos nós e cada um de nós, em tocas que nos tiraram de um jardim onde talvez nos sentíssemos menos propensos a andar por aí, seduzindo gatos que brincam de aparecer e desaparecer e estão sempre rindo de nós?
Não sei se me sinto bem no meu próprio corpo. Na maior parte do tempo, acho que não me sinto. Não é mais jovem. Não é mais magro. É muito menos firme do que já foi. E eu não vou negar que tenho feito esforços para me sentir um pouco melhor dentro das minhas próprias carnes. Curiosamente, no entanto, me sinto mais à vontade dentro da minha mente. Não muito. Só um pouco. Essa parece ser uma caminhada longa, difícil e espiralada, que milhares de vezes me passa a sensação de me devolver exatamente ao ponto anterior. Aí eu aperto os olhos – que, além da miopia, agora também desenvolveram a presbiopia – e olho novamente para ter a certeza de que já não é o mesmo ponto: é sempre um pouquinho acima, um dedinho mais amplo do que já foi antes.
Me lembro novamente da bela garota que fez a boca. Era uma boca bonita. Não a conheci antes, mas é possível que o cirurgião tenha realmente feito um excelente trabalho. A pergunta da moça, no entanto, segue ecoando: “Você gostou?”. E eu me lembro do balé que eu dançava na sala, rodopiando em meia ponta, abrindo os braços e simulando um pas de deux com o galã da novela das oito. Sinto um misto de vergonha e vontade de rir. Me parece, de fato, bastante engraçada a dança daquela menina magrela e um pouco desajeitada. Quando foi que eu comecei a julgá-la? Em que curva da estrada ela deixou de ser uma bailarina incrível? Em que momento aquela moça bonita passou a se incomodar com a própria boca? E em que instante a opinião de qualquer pessoa sobre o retoque realizado pelo cirurgião ganhou tanta importância?
São tantas e tantas capas, e vestidos, e máscaras, e armaduras se sobrepondo para esconder aquele balé esquisito que um dia foi tão extraordinário. Fecho os olhos e boto a “Ciranda da Bailarina”, do Chico, pra tocar. Subo em meia ponta e atravesso a sala rodopiando um corpo que já não é jovem, nem leve e muito provavelmente é ainda mais desajeitado do que era. Talvez você tenha vontade de rir. Pois ria. Eu apenas tenho o desejo de dançar com a menina que se perdeu de mim em alguma curva desse caminho. “Você gostou?”. Não interprete como grosseria, mas a verdade é que a sua resposta não me interessa agora. Você é livre para não gostar. Quem finalmente decidiu gostar do que vê, do que sente e do que dança fui eu mesma.
Se quiser, no entanto, eu convido você a ser o meu par nesse pas de deux. A sala tem espaço suficiente para uma dupla que dança. Pode vir assim mesmo, como estiver. No caminho, talvez você decida se despir dessa armadura mais pesada, deixar sobre o banco uma capa ou arrancar uma máscara que já se confunde com o seu próprio rosto. Mas faça isso só mesmo se quiser. É um convite.
Dani
eu quando pequena me esbaldava de dançar na sala da casa, subia na mesinha de centro, no sofá, …. agora sempre que desejo ou preciso evoco essa menina descabelada e danço com ela.
Que lindo isso!
Muito bom o texto, Dani! É isso! Bora resgatar a menina que deixamos pelo caminho… e seguir misturando a maturidade de agora com a leveza de então.
Isso mesmo, Isa. É importante construir um caminho para resgatar a espontaneidade e integrar tudo o que se fragmentou pelo caminho, né?
Dani querida. Adorei seu convite para essa reflexão. Não sei se me falta memória ou lembranças. Obrigada por indagar ! Bjsss no coração ❤️
É importante construir um caminho de resgate dessa espontaneidade, querida. Obrigada pelo seu retorno!
Meu psicólogo me disse que eu estou às voltas com aceitação. Acho que tem a ver com talvez duvidar daquela criança descabelada que eu era, que eu achava incrível, mas as outras pessoas nem tanto. Mas se estou às voltas, posso rodopiar com você na sua sala até que nossas risadas apaguem as outras vozes. Eu aceito o seu convite!
Seja bem-vinda ao seu próprio baile! Dançar consigo mesma é ir descobrindo os passos que te agradam e criar uma coreografia que deixa cada vez mais confortável. E deixe o psicólogo acompanhar essa dança também. É sempre bom!
Dani, sua sensibilidade – e a poesia dos seus textos – nunca deixam de me encantar…
Querida! Você não sabe como isso me afaga o coração… Vindo de alguém cujos textos me encantam há muitos e muitos e muitos anos.