Uma preciosidade nas mãos: Sagarana de 1946

Sandra Belchiolina

Estou com uma preciosidade nas mãos: a segunda edição de Sagarana, de João Guimarães Rosa. Publicada em 1946, ela acaba de completar 80 anos.

Nos últimos meses, muito se falou sobre os 70 anos de Grande Sertão: Veredas, a obra que consagrou Rosa e o colocou entre os maiores escritores da língua portuguesa. Mas, diante desse exemplar de Sagarana, é inevitável voltar alguns anos e encontrar o escritor ainda no início de sua travessia literária.

O que mais me chama a atenção não é apenas o livro, mas os comentários impressos em sua orelha. Escritores e críticos já percebiam, naquela época, aquilo que mais tarde se tornaria marca registrada de Guimarães Rosa: uma escrita singular, autoral, feita de invenção, musicalidade e ousadia.

Em 1930, João Guimarães Rosa formou-se em Medicina e casou-se com Lygia Cabral Penna. Nesse período, morou em Belo Horizonte, na casa da Rua Congonhas, nº 415, esquina com a Rua Leopoldina, no bairro Santo Antônio. Hoje, o imóvel é reconhecido como parte importante de sua trajetória. Durante muitos anos, ali funcionou o Bar do Lulu — que, para mim, o bar tinha pouco de bar tradicional, mas marcou época. Após polêmicas sobre sua preservação, a casa foi integrada ao conjunto protegido pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Belo Horizonte, juntamente com outras residências conhecidas por terem servido de cenário para o filme O Menino Maluquinho, que é baseado na obra de Ziraldo.

Naqueles anos, Rosa já havia escrito Magma, livro de poemas premiado em 1936. No entanto, decidiu não publicá-lo em vida. A obra só chegaria às livrarias em 1997, quase trinta anos após sua morte.

Assim, tenho em mãos o primeiro livro que Guimarães Rosa decidiu publicar. Grande Sertão Veredas viria dez anos depois, confirmando aquilo que seus primeiros leitores já haviam percebido: a força de uma literatura profundamente enraizada no interior de Minas Gerais, nas veredas, no sertão, nas lendas do Velho Chico e, sobretudo, numa linguagem de extraordinária sonoridade e invenção.

A casa cor-de-rosa de Rosa é minha vizinha. Sempre que passo por ela, a mesma pergunta me acompanha: por que ainda não existe ali um memorial dedicado ao escritor?

Folhear esta edição antiga é como ouvir o primeiro compasso de uma música que ainda estava por transformar a literatura brasileira.

Deixo aqui dois preciosos comentários que estão na contracapa do livro que tenho em mãos, além da foto da carta de Clarice Lispector para Fernando Sabino, na qual elogia Guimarães Rosa. 

“…A correção e a beleza fluem, manam, escorrem da sua prosa com um ritmo próprio, com uma regularidade permanente”

 …Algo de próprio, de inconfundível, germina nas próprias páginas de Sagarana.

 … Poesia, conhecimento da matéria em que modelou e configurou o seu mundo, experiência de tudo que fala e conta; modéstia diante das coisas, participação nas humildes vidas que nos revela, força literária e força criadora, essas são as impressões gerais, as grandes virtudes de Guimarães Rosa, estreante e clássico da literatura brasileira”. – Augusto Frederico Schimidt.

“… Li todos os contos do novo escritor mineiro e cheguei ao fim de sua última página com a impressão de que há qualquer coisa de realmente grande na sua ficção.” _ José Lins do Rego.

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