Sandra Belchiolina
Com a passagem do Bloomsday, celebrado no dia 16 de junho, vieram também meus reencontros e escutas com um dos maiores escritores do século XX: James Joyce, aquele que revolucionou a escrita e a forma linear da narrativa.
James Augustine Aloysius Joyce nasceu em Dublin, Irlanda, em 2 de fevereiro de 1882. Sua trajetória pessoal foi marcada por acontecimentos intensos: os impasses de seu país diante da dominação inglesa, o peso da Igreja Católica e os conflitos familiares.
Joyce viveu a infância em uma Irlanda colonizada pela Inglaterra, onde o inglês era imposto sobre a língua gaélica. O país ainda sofria os efeitos da Grande Fome, período em que as colheitas eram destinadas à Coroa Britânica. Assim cresceu acompanhando o desejo de seu pai pela liberdade da Irlanda.
Naquele tempo, o líder político Charles Stewart Parnell lutava pela autonomia do país, mas foi deslegitimado pela Igreja ao se descobrir que mantinha uma relação extraconjugal. A condenação moral promovida pela Igreja contribuiu para enfraquecer seu projeto político e marcou profundamente a vida pública irlandesa.
A perda da mãe, em agosto de 1903, teve impacto profundo em Joyce. Ele se recusa a orar ao lado do leito de seu leito de morte, o que gerou grande tensão familiar. Um ano antes, em 1902, ele havia partido para Paris para estudar medicina, mas retornou à Irlanda devido à doença da mãe. Após sua morte, mergulhou em uma melancolia que culminou na escrita de Stephen Hero (1904-1906), primeiro rascunho do que viria ser Retrato do Artista Quando Jovem, obra em que delineia um verdadeiro programa de vida:
“Sê bem-vinda, ó, vida! Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja de minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça.”
Ele escolhe ser o Artista, posição marcada pelo rompimento com três pilares fundamentais:
– A Irlanda, que ele considerava submetida aos ingleses;
– A Igreja Católica, com seus dogmas;
– A família, especialmente a figura do pai, que via como fraco, alcoólatra, e responsável pela ruína financeira da família.
Após a morte da mãe, Joyce permanece algum tempo na Irlanda antes de partir definitivamente com Nora Barnacle, em 1904, iniciando sua vida de exílio pela Europa. O episódio em que se recusa a orar ao lado do leito de sua mãe é reencenado de forma marcante no conto “Os Mortos”, da coletânea Dublinenses e ressoa em toda sua obra – especialmente em Ulysses, onde a figura da mãe retorna como fantasma, despertando culpa e conflito para Stephen Dedalus.
É em Ulisses que Joyce cria Leopold Bloom, personagem que atravessa as experiências do humano ao longo de um único dia: 16 de junho de 1904 – data do primeiro encontro com Nora, sua companheira e mãe de seus filhos. A mulher escolhida. Uma data que ele quis deixar registrada e eternizada.
Joyce afirmava não ser inventivo. Recolhia frases nas ruas, observações do cotidiano – a vida era matéria-prima. Seus livros são atravessados por experiências próprias: Retrato do artista quando jovem é, em grande medida, uma autobiografia, tendo Stephen Dedalus seu alter ego.
Mas Joyce fez algo com suas limitações. Quis deixar marcas. Quis ecoar. E ecoou – inclusive em Jacques Lacan, em 1975, foi instigado por Jacques Aubert a pensar Joyce em uma conferência. A partir daí, Lacan reformula noções fundamentais da psicanálise, ao se debruçar sobre a escrita de Joyce e sobre a solução encontrada pelo escritor para aquilo que denominou a falta do “Nome-do-Pai”.
O Bloomsday celebra esse gesto que atravessa o tempo. No dia 16 de junho, data de Ulisses, Dublin se espalha pelas ruas de outras cidades, outros países, com vozes e roupas de época, trazendo Leopold Bloom para perto de nós.
(Texto baseado na apresentação que realizei no Bloomsday 2025 do Campo Lacaniano de Belo Horizonte).
Foto: James Joyce e Nora Barnacle
Sem dúvida um grande escritor, Joyce se impõe pela grandeza de suas considerações. Para mim “Ulisses” não é sua obra-prima, como “Grande sertão veredas” não o é para JGRosa. As liberdades criadoras as inviabilizam, ao separá-las definitivamente de seus leitores.
Grande abraço, Sandra!
Rosa é nosso primor e está na minha mira. Ele foi genial! O Grande Sertão completou 70 anos em 2026.
Abraço, Celso.
Texto muito bem elaborado e com bom conteúdo informativo. Parabéns!
Obrigada
Texto muito bem elaborado e com bom conteúdo informativo. Parabéns!
Agradeço Maria Aparecida pela leitura e comentário.
Abraços