Sandra Belchiolina
Era uma tarde, não como as róseas que pintam o azul como quadros de Matisse. O mar, devido ao vento e às chuvas, também refletia a cor da argila das falésias.
E um rastro de algas coroava o Atlântico.
Ao som das ondas e do vento, um som distópico corta o ar. É o rock ao longe de homens enebriados pelo clima e algo mais.
E foi nesse clima que Maria estica os ouvidos quando surge nas ondas sonoras: “popopopo… popopo…”
Estica os olhos também. Lá estava ele, além do recife, o senhor do som — o esperado barco de João.
Fragatas sobrevoam seu barco. Sinal de boa pesca.
João partira antes do amanhecer e, desde então Maria media o tempo pelo mar. Seu coração começou a apertar quando chegava o entardecer – nada róseo. Os olhos e ouvidos se voltam para o mar na esperança de resposta.
Na caída da noite anterior, sua comadre Joana esbravejava para a imensidão do mar:
“Devolva-me meu filho.” Dessa vez ele atendeu, mas a escritora enche os olhos d’água pensando em outros que se foram, mesmo lutando contra as águas.
Chega dessas águas tristes, agora é momento de festejar.
O popopo… cada vez mais perto. As fragatas já sobrevoavam a cabeça de Maria.
Popopo ancorado. Pesca boa! Uma, duas, três caixas de isopor gigantes começam a descer do barco.
Naquela noite, o mar devolveu um dos seus.
Luta e esperança, nesta ordem, a vida de quem levanta cedo, antes do sol…Se lança no barco da vida, mar agitado ou não, é preciso ir com hora marcada de voltar, o amores esperam pela chegada com sucesso ou sem. O importante é sempre voltar para o descanso, no preparo para o novo dia que vem.
Sandra nos transporta da cidade grande, tumultuada, agitada para a beira mar, respirando, profundamente, a leveza do vento e o frescor da brisa. Parabéns, Sandra querida!!!