Em que pese os percalços pelos caminhos, o saldo da nossa existência sempre foi e será altamente positivo. Ainda que o financeiro seja no limite, para alguns até no vermelho negativo. Vivi tempos nessa última condição econômica, até que depois de muito embate pessoal mudei o jogo. Não diria que tinha vida desregrada, mas extrapolei bastante com excessos que poderiam ter sido evitados. Entre os quais o mais determinante foi o abuso de álcool. Me lembro do saudoso sócio de escritório de advocacia (cheguei a trabalhar um tempinho na área), Wander Castro Alves, “esse consumo exagerado faz mal para a saúde e ao bolso”. Porém, sem efeito aos ouvidos e – consequentemente – prático nas minhas escolhas. Além dele outros mais incisivos de mãe, esposa, irmão da área de saúde e outros intrometidos.
Usei intrometidos não como reativo aos palpites de terceiros, mas para provocar mesmo. Pela minha experiência, decisões radicais como no caso, só têm efeito quando a consciência conversa baixinho com a gente. Nem mencionei cigarro ou noitadas e outras experiências. Aviso que nunca usei droga ilícita, antes que – como uma mãe de namorada de décadas atrás – insinuava para que ela não seguisse comigo. Tampouco caloteei, embora tenha sido explorado bastante naquela “saideira”, que banquei várias vezes. Sem arrependimento, fez parte do meu histórico. Junto com a minha decisão de deixar o cigarro, tempos depois e com mais dificuldade viver sem consumir a cervejinha, fui – lentamente – impondo e descobrindo novos métodos de curtir a vida.
Ainda não abandonei o maior dos meus vícios, a Atleticanidade, apesar de insistentes sugestões dos dois Rs que viraram donos do Galo. Nesse caso, como a resistência noutros campos dessa existência, ainda teimo em desconsiderar os erros deles (pai e filho) no mando do meu time do coração. Entretanto, com desconfiança, mantenho meu armário com mais de cem camisas do time, decoração da casa repleta dessa representatividade em preto e branco. Galos, quadros, faixas e tantos outros adereços emolduram o visual dos meus 60 metros quadrados. Assim como no cotodiano, uns dias chove noutros dias bate sol (obrigado meu caro amigo, Chico que assina Buarque de Holanda), a relação do Atleticano é mesmo bipolar. Essa semana, depois de vários jogos com ódio, estamos vivendo a fase do amor.

Pois bem, depois de deixar o cigarro (tem mais de 30 anos) e a cerveja (exatas 25 temporadas), fui me ajustando e adaptando aos novos tempos sem essa anestesia. Já também sem casamento, esse não era tóxico mas passou, comecei a me reinventar. Num primeiro momento cuidando da minha filhinha, que optou por morar comigo (isso foi determinante para a abstinência), comecei esse remodelamento. Foram mais de dez anos, até que aos 18 ela tomou rumo e foi buscar sua liberdade. Desse período, além de levar o meu sobrenome, consolidou a mesma paixão Atleticana que consegui repassar. Nisso, até meu netinho emprestado também aderiu e seguimos – entre sobressaltos – vivendo esse lado prazeroso de torcedor. O melhor dessa nova fase foi descobrir um mundo até então desconhecido.
O tempo passou a rodar mais devagar, ainda que insista em acelerar, curtindo e vivenciando outros prazeres tão interessantes como a sensação de euforia e relaxamento da bebida. Cinema, shows (sobretudo musicais), cafeterias (meu preferido), restaurantes e tantas outras mais, sempre acompanhado de boas e saudáveis prosas. Bem cedinho a academia e pilates, que além de manter o físico bem tratado, um interessante vínculo afetivo com colegas. O trabalho até o final da tarde, onde dividindo e trocando experiências faz sentir o dia produtivo. Andar de ônibus, outra dádiva que conquistei, abdicar – não sei até quando – da direção veícular. Só sinto falta nos dias de jogos do Galo. Estou conhecendo e percebendo mudanças urbanas que passavam sem que observasse. Casas dando lugar a prédios. Gente que transita e que antes não eram percebidas.
Até em casa, entre tantos (re)ajustes essa semana numa prosa comentei despretensiosamente algo que tem um valor extraordinário e que não havia sido registrado. Neste meu minifúndio urbano habitacional, venho fazendo ajustes desde sua aquisição. O local tem a grave convivência com o barulho do trânsito. Coloquei janela anti-ruído e fiz o fechamento de uma pequena e deliciosa varanda. Diminuiu bastante, embora ainda persista daqueles idiotas que adoram exibir seus possantes rodantes. Moto com motor barulhento e carros com som em decibéis ensurdecedores. Fechando tudo e somatizando o clima e ambiente instáveis pelo aquecimento global, o calor interfere.
Daí, como é inviável (regras de condomínio) instalar ar condicionado, optei por um climatizador. E o barulhinho do danado me incomodou no início, até que – em negociação com o aparelho – condicionei meu pensamento e ao me recolher romantizei e imagino que cai uma chuva branda e aquilo que ouço é ela descendo dos céus assim como tantas outras bençãos que vem lá de cima. Com isso, em acordo firmado, parei de reclamar de algo que sinalizava por me causar desconforto e aplicar a mesma regra noutras situações. Até mesmo nos papos ruins e indesejáveis que encontro pelo caminho. A vida só vai melhorando e afastando o risco de precipitar por mudar de plano. Assim já superei tantos contratempos e dificuldades inesperadas – notadamente cirúrgicas – e vou vivendo. Que assim seja e continue sendo.
*imagens: 1) pixabay; 2) redes sociais
Meu Guru, bom dia!
Como o nosso Galo nos faz bem! Até refletirmos sobre as coisas que nós deixamos para trás. Nada melhor do que viver o momento, curtindo o passado. O que interessa é o presente; mas, o passado é o nosso alicerce.
Que Deus continue a lhe dar força Atleticana para nos presentear com esses grandes pensamentos e ensinamentos de vida. “Deixa a vida me levar, vida leva eu”.
Abraços.
Eduardo, bom dia. Seu escrito de hoje está muito interessante. Ao relatar experiências, sentimentos e emoções de diversas situações na sua vida você convida-nos a refletir sobre nós mesmos…
Parabéns!
Bom Dia Eduardo de Ávila! A vida é brevíssima! Somos seres espirituais passando por uma experiência terrena. A sobriedade, a responsabilidade e a solidariedade caminham de mãos dadas com a felicidade. Abraços Fraternos, Patrícia Lechtman.
Que legal Eduardo, é uma responsabilidade pegar a vida em nossas mãos e fazê-la mais prazerosa e suave para nós mesmos e outros, o esforço é grande, mas a oportunidade é todo dia….sabendo como aquela música que escutamos desde criança: tá quente, tá frio, tá frio tá quente, dizia meu tio que a vida da gente é como a corrente no leito do rio, um dia tá quente, um dia tá frio…..e assim vai….parabéns!
Ávila mais uma vez brilhando.
Vc como sempre guerreiro sagaz porque enfrenta os 2 RS não é nada fácil
Caro Dudu!!!
“…Com isso, em acordo firmado, parei de reclamar de algo que sinalizava por me causar desconforto e aplicar a mesma regra noutras situações”.
O Hulk poderia aprender com você e parar com as irritantes reclamações que faz, hoje marca registrada no comportamento dele. rsrsrsrsrsr. Abraços para você, meu amigo!
Eduardo meu primo, admiro muito sua sabedoria em viver a vida tal como ela nos apresenta! Viva!!!