Eduardo de Ávila
Interessante como o tempo, mesmo já bem vivido, ainda ajusta a gente aos novos instrumentos e condições atuais. Embora sempre tenha sido relativamente rebelde, refiro a questão da resistência ao conveniente modus operandi do conservadorismo, ao paralelamente carrego em minhas andanças alguma dificuldade e até mesmo sou reativo a mudança de hábitos. Em sentido amplo, sem entrar em questões triviais como alimentação e até modo de vestir. Minha matriarca, braba pra daná, obrigava e fiscalizava por manter o guarda roupa bem arrumado e combinar roupas. Se colocasse xadrez com listrado era certo que “pode voltar pro quarto e trocar essa camisa (ou a calça).
E fui assim moldado a viver para o todo e sempre, amém! Quando me formei a primeira vez e voltei para Araxá, ameacei morar sozinho, mas um irmão mais velho proibiu que seguisse com o assunto. “Mamãe não vai admitir e se insistir ela terá uma reação inesperada”. E lá fui eu, num misto de receio em causar algo e acomodado. E é impressionante como isso fica impregnado pela vida. Mudamos muitas coisas, mas aquele tradicionalismo do ninho familiar permanece intocável. Digo tudo isso, para chegar nas conclusões dos últimos tempos. Sempre que vou na terra a opção ser de hospedar em casa da irmandade e seguir o rito e costumes da anfitriã. Optei por dar folga desse trabalho a elas no feriado.
Pois agora na semana santa arrisquei e, depois de pesquisar, me hospedei no Cura e Repouso. Não, esse nome foi no início, depois virou Hotel da Previdência. Atualmente atende por Nacional Inn. Adorei, o melhor de tudo pelo custo. Três dias ficaram exatos 1/3 de uma única diária no suntuoso GH do Barreiro de Araxá. Claro que o padrão é distante, mas – com todo respeito – não deve nada em termos de receptividade e serviços. Primeiro porque a diária prevê apenas café da manhã (por sinal maravilhoso) e libera para almoçar, jantar e lanchar onde bem entender. Aprazível, ainda que não sofisticado, oferece toda estrutura para um delicioso descanso. Praça de Esportes, com piscina aquecida e outra morna (35º e ducha).

Podendo desfrutar de todas as demais alternativas do Barreiro, como a Fonte Dona Beija (numa das idas a esse lugar, ouvi uma senhora dizendo que era a fonte Beija Flor. tem até algum sentido), água sulforosa, a imperdível Ducha Cascata (quem conhece sabe o quanto é revitalizante) e até mesmo – ainda que com preços salgados – o uso das termas do GH. Foi uma experiência nova e que será repetida doravante. Lógico que é um estabelecimento mais simples, nem sei quantas estrelas (ainda existe isso?), mas que proporciona um ambiente quase familiar, embora não conheça absolutamente ninguém que tenha dividido aquele espaço de quinta-feira até domingo. Seguramente, se encontrar algum deles, será um ou outro. Os demais, como eu, passou pela vida. Essas observações, enquanto estava por lá, me levaram a outras do cotidiano.
Sentia, lá no Hotel da Previdência (esse era o nome da minha época) acolhimento pelos funcionários. Sempre atenciosos fosse na recepção, restaurante, área de lazer, serviço de quarto e outros, já perceptível desde o dia que liguei para buscar informação. Jurássico confesso, não consigo fazer reserva pelo site. Vale para tudo, até passagem aérea. Se não vejo ou ouço atendente, a insegurança me perturba. Daí saindo dessa consideração hoteleira, viajei em outras do dia a dia. Vou na farmácia e o vendedor me manda para o tal caixa eletrônico. Me perco todo e tenho de chamar alguém para me auxiliar. O mesmo acontece agora nos supermercados. Para quem, diferente de meninos da minha época, conheceu vaca, boi, cavalo, frango, plantação de arroz, feijão, milho e outros, sabe de onde vem esses produtos. Convivi, juro, com quem acreditava que isso é produto de geladeira e gondola de supermercado. Não troco a minha experiência e condição de ter sido criado próximo da roça.
Já cedi e aderi muita coisa da modernidade, agora com atraso essa opção de ficar em Hotel, mas gosto de ser atendido por gente. Robô é um porre. O tal disca um, dois ou outros números, geralmente não tem a opção desejada. Outro dia fui no meu plano de saúde para cancelar uma solicitação que foi atendida dez meses e meio depois do pedido. Claro que já tinha feito e assumido os custos, mas o robô não sabe cancelar. Burro é ele, não eu! E os bares, restaurantes e cafeterias que são meus pontos de prosear e resenhar sobre o Galo. Impressionante como atendentes adoram uma prosa no balcão com colegas do lado de dentro e a freguesia aflita tetanto fazer pedidos e até solicitação da conta. Em lojas vendedores com preguiça de mostrar o produto procurado. Loja boa eram aquelas que o dono atendia. Tempos modernos!
Meu Guru, bom dia!
As coisas boas da vida, sempre nos supreendem. Mas, nada como a inovação na nossa “idade”! Dá calafrios, suador e tremedeira; mas, é gratificante. Mostra-nos que estando vivendo e vivendo bem! A inovação é que nos mostra como as pessoas são boas e indispensáveis para a nossa convivêdncia. Não somos ninguém, sem as outras pessoas. Parabéns pela inovação. Continue e será sempre recupensado. GALO! Assim, seja!
Abraços.
Esses hotéis acolhedores e tradicionais são tudo de bom!!!
Meu amigo Eduardo.
Me senti vc.
Graças a Deus não estou sozinho e me sentindo ultrapassado.
Abs
Sidnei
Dica de ouro: ligar diretamente para o hotel com os preços coletados na internet já anotados. Descontos garantidos!
Já fiquei nesse hotel quando se chamava “Da Previdência”, e também gostei muito. Na época havia uma sopa à noite, além do café da manhã. Hoje, privatizado, certamente reduziram algumas comodidades ou passaram a cobrar por elas. Na última vez que fui a Araxá, foi pra deixar as cinzas do meu pai ao lado de uma árvore frondosa nos bosques do Barreiro. Não sei se voltarei à cidade um dia. Mas sinto saudades dos tempos em que flanava por horas pelas ruas dessa Araxá que fez parte da minha infância/juventude.
Nossa geração foi a melhor; a tecnologia engoliu os cérebros, trocando bebês por gatos, dinheiros por cartões e visitas por mensagens.
Bom Dia Eduardo de Ávila! Parabéns pelo texto adornado de reconhecimento à ancestralidade . Aproveito para parabenizar pelo seu dia. Um jornalista singular. Admiro seu compromisso com a verdade, sua coragem em revelar fatos e também sua clareza na comunicação. Gosto muito dos seus compartilhamentos nas redes e como você amo o galo! Abraços Fraternos Patrícia Lechtman
Eduardo, grata pela prosa !!! Reflexões interessantes sobre contatos com outras pessoas, serviços oferecidos e seus sentimentos.
Abraço afetuoso. Marly Sorel
Sou inimigo confesso das modernagens, sentimento que, certamente, foi agravado pela própria incompetência em lidar com elas. Mas um fato conforta-me: ter visto toda essa mudança acontecer. De certa época para cá, e a tendência é piorar, não dá tempo nem de acostumar com algo e lá vem a mudança… Outro fato: como essa “evolução” colaborou com a idiotização das crianças! Sigamos…
Os tempos evoluem, mas o melhor é estar com gente, compartilhando nossas e as coisas do mundo! Parabéns!!
Oi amigo Eduardo, que resgate gostoso de suas viagens, sempre com bom humor, um descritivo cenário que faz com que nossa imaginação flutue no tempo e busque lembranças quase esquecidas de um passado que foi muito importante em nossas vidas. Obrigada e parabéns por permitir que compartilhemos de suas memórias.
Aqui em Ibiá, visinha de Araxá, minha mãe sofria de um eczema sério. Foi pro Rio se tratar e depois de longo tratamento, longe dos filhos, pediu ao médico um tratamento alternativo, menos trabalhoso. O médico recomendou os banhos de lama em Araxá ( a senhora conhece).
Mamãe ponderou que ir a Araxá todos os dias, partindo de Ibiá, era mais fácil que ir do Grajaú a Copacabana.
E lá se foi dona Yolanda para o Hotel Cura e Repouso. Sarou.