Não raro deparar com cenas assustadoras pelos trajetos diários. Me tornei usuário do transporte coletivo, depois de décadas no meio dessa balburdia no trânsito, o que já me ocasionou dezenas de arranhões no carro e no emocional. Algumas vezes culpado, sempre assumindo minhas barbeiragens, noutras vitimas e nessas nem sempre assumidas pela parte contrária e causadora do dano. Felizmente sempre material. Fato é que, pela segunda vez em decisão pessoal sem outra motivação, optei por utilizar – quando necessário – veículo por aplicativo, privilegiando o uso “gratuito para idoso” dos ônibus urbanos pelas ruas da nossa Belo Horizonte.
Surpreendido com a fixação dos horários e tempos de espera, situação que só havia presenciado na minha única ida a Londres – voltei de lá alucinado com isso – que não imaginava viver isso em nossa cidade. Ah! Tomara meu Deus tomara, que um dia tenhamos também o metrô – nem precisa ser como o da capital inglesa – como paulistas e cariocas já desfrutam e cortam a área urbana debaixo da terra. Tai uma solução saudável que nunca foi priorizada em diferentes governos, embora sempre seja discurso de campanha eleitoral. Me lembro no ano de 2012, final do primeiro mandato do então prefeito e candidato à reeleição Márcio Lacerda (o mesmo que deixou como legado a explosão do carnaval de rua, pela intenção em liquidar a festa popular), as estacas fincadas pelas vias públicas sinalizando a expansão do serviço. Nas principais vias públicas era visível e, evidentemente, iludiu ao eleitor. Já se passam 14 anos e três nomes ocuparam a cadeira de chefe do Executivo Municipal. Nada, nada, nada!
De volta ao uso diário dos serviços de ônibus. Tenho aprendido como ajustar meus horários aos das linhas que utilizo. Mais ainda, quando necessário, saber onde descer e pegar a segunda parte do trajeto que necessito. A distância maior que já fiz foi de casa ao estádio do Galo. Nesse caso, já o fiz em duas situações distintas. Numa ocasião, como vou muito cedo, usando aplicativo consegui um valor bem abaixo do imaginado. Na outra ocasião, penei um bocado, de casa até a Amazonas e de lá, orientado pelo aplicativo da PBH, aguardei mais de meia hora o trajeto complementar. Sem sofrimento, uma vez que tenho feito esse uso com o melhor astral de quem perdeu esse contato das ruas.

O melhor nesse caso é a possibilidade em perceber as pessoas, que cruzam por nós todos os dias de maneira absolutamente anônimas. No ponto a espera do próximo horário, as prosas são divertidas. Silenciosamente e, por vezes, segurando para não denunciar que o ouvido não é surdo, confissões e indiscrições relatadas por quem seguramente nunca mais vai encontrar com seu ouvinte na vida. Impressionante como tem gente que fala alto, expondo situações domésticas e pessoais (de trabalho) que choca quem escuta tanta inconfidência. Fico imaginando se um entre os ouvintes conhece as pessoas que ficam expostas na prosa entre pontos de um coletivo urbano. Confesso que é uma realidade paralela ao que conheço, me diverte e ao mesmo tempo incomoda muito.
Pois, enquanto espero a chegada da minha desejada linha, o trânsito assusta. De ator passei a expectador. Como pode um sujeito dirigindo seu carro, sabendo que vai complicar ainda mais o caótico trânsito, avançar o sinal amarelo e ficar no meio da pista que corta impedindo que os outros motoristas sigam. E a buzina corre solta. Daí quando um lado avança, é o outro – por vingança ou sei la a razão – que bloqueia do outro lado. E se a buzina não irrita o provocado, cabeça pra fora, seguido de uma VTNC ou VPPQP. Enquanto espera a sua viagem, convivendo com o mau educado que acende o cigarro – sem constrangimento – soltando a fumaça em meio a vinte ou mais pessoas esperando no ponto. Filas? Não existem. Quando o veículo abre a porta, os cotovelos que garantem o acesso às escadas. E lá dentro, até que meus horários são mais tranquilos, existem as cadeiras preferenciais. Sempre ocupadas por jovens, que – se passando por distraídos – com os olhos no celular não percebem sua grosseria. Uma ocasião, até me assustei, uma senhora botou um garoto em pé. E ela estava certo.
E assim vamos vivendo, como diz o cantor sertanojo “entre tapas e beijos”, nessa selva de pedra (metáfora usual para cidades grandes) sobrevivendo com toda resiliência. As cenas desse cotidiano, sugerem para sobreviver desprezar toda hostilidade ao seu entorno. Já disse aqui sobre minha sanha carnavalesca, quando jovens me chamam de velho. Fosse me ocupar e preocupar com isso, não estaria nesse último dia de março já pensando na folia do próximo ano, até que numa delas eu fique pelo caminho. Sem qualquer intenção de sugerir ou mesmo de aconselhar, cada qual sabe de seus desejos e limites, enquanto vida tiver (tivermos) aproveitar ao máximo o que esta passagem terrena pode oferecer. Do outro lado, por mais que (meu caso) confie que haverá sequência não se sabe se haverá tanta oportunidade de aperfeiçoamento como essa que estamos atravessando. No meu caso, como de dez milhões, como será viver sem os jogos do Galo. Portanto, curtir plenamente aqui na Terra, ainda que sem a mesma força do passado. Sigamos!
Eduardo, bom dia. Grata pelas interessantes observações. Você tem olhos para o exterior e para o interior.
Abraço.
Bom Dia! Apreciei muito a reorganização do seu cotidiano! Contemplar é preciso! Reorganização de rotas fazem parte dos cuidados com a saúde mental e espiritual. Às vezes sinto medo desse desconhecido ( viver o simples), entretanto, depois vejo que foi o melhor. Abraços Fraternos, Patrícia Lechtman!
Tenho adorado suas colunas, com temas muito diversificados, parabéns!! Pego muito ônibus, mas dói depararmos com a atual degradação da nossa cidade, muito lixo e pessoas em condição de vulnerabilidade, parece que o vírus da covid também nos entorpeceu, é preciso acordar e que nossos impostos sejam direcionados, principalmente, para o bem estar de todos e o bem da nossa cidade, está muito abandonada!
É, meu amigo, também uso o transporte coletivo, e observar a cidade de dento de um ônibus é muito interessante. Infelizmente a maioria dos passageiros não olha pela janela, estão hipnotizados pelas telas dos celulares. E também as conversas nos distraem na viagem. Uma vez, indo aqui de casa pra Savassi no 2150, uma senhora ao telefone dava uma bronca homérica no filho, sem se importar com a plateia. Ourro dia, por absoluta falta do que fazer, peguei aqui na avenida Silva Lobo o ônibus 9201 – Nova Granada/Hospital da Baleia – fui até o ponto final e voltei. Eram mais ou menos 2 e meia da tarde, ônibus vazio e com ar-condicionado, e trânsito a favor, hehehehe… Foi uma bela aventura. Numa outra vez peguei o 8205 – Nova Granada/Maria Goretti. Pra dizer a verdade eu sequer sabia onde ficava o bairro. Descobri que é muito longe daqui onde moro, Alto Barroca. Também no mesmo horário, ônibus vazio e com ar-condicionado. No caminho ele percorre a rua Jacui quase que inteira, e cruza a avenida Cristiano Machado. Mais uma bela aventura. Mas nós somos privilegiados, porque não precisamos pegar ônibus nas horas de rusch, quando os coletivos mais parecem latas de sardinha, com passageiros se apertando, em pé, por longos períodos após mais um cansativo dia de trabalho. Enfim, meu amigo, como você bem disse, devemos viver o hoje, porque o ontem já foi e o amanhã é incerto, e como dizem por aí, a gente só leva da vida a vida que a gente leva. Um abraço.