De olhos bem abertos

Pegue um homem branco. Acrescente a ele autoestima injustificada, falta de escrúpulos e uma extrema ambição por poder. Está feito o coquetel mais repugnantemente nocivo da contemporaneidade.

Sigo com náuseas extremas após ler os documentos autorizados ao público no site do departamento de justiça dos Estados Unidos pela juíza Loretta A. Preska, que supervisiona o caso de um verminal predador sexual norteamericano (não irei sujar o meu teclado escrevendo seu nome).

Não consigo conceber um ser humano ter orquestrado tamanho abuso, subjugação de mulheres, desumanização de meninas, delírio de grandeza e alucinação de poder como o que se descreveu naquelas páginas.

A cadeia de devastação emocional decorrente dos seus atos é aterradora. Muitas jovens desapareceram ou tiraram a própria vida após visitas às suas propriedades. Outras, encerraram precocemente suas carreiras e algumas carregaram por décadas traumas gerados nas sombrias circunstâncias em que lhes atingiram os tentáculos do agressor e de seus pares (conforme pode ser verificado amplamente em mídias mundiais).

Fora um tanto de outras perversidades impronunciáveis descritas nos emails, que configuram crimes das mais urdidas formas.

O que mais me comove em toda essa sórdida história é que poderia-se pensar, a princípio, que o autor central dos crimes era um portador de transtornos mentais graves associados a falhas comportamentais gravíssimas e agenesia moral de qualquer natureza – o que é provavelmente certo. Entretanto, além do orquestrador, havia um grupo de outros participantes constituído por uma suposta alta casta de pessoas da “realeza” europeia, ex-presidentes dos Estados Unidos, bilionários do Vale do Silício, figuras midiáticas, executivos da música e políticos, ou seja, basicamente os maiores detentores do poder no mundo ocidental.

Em 1999, Stanley Kubric filmou um enredo sobre as sociedades secretas baseadas em subjugação sexual feminina em “De Olhos Bem Fechados”. As cenas do filme mais parecem a reprodução fiel do que está documentado naqueles páginas. Mal sabíamos que não se tratava de ficção, mas sim de algum tipo de denúncia. O título também reverbera nos dias hoje, em que se revelou tragicamente que quem está a cargo de punir os autores de tais crimes também estava lá presente enquanto eles aconteciam!

Muitos desses figurões foram cobrados pela sociedade civil por sua associação nos documentos e disseram não saber de nada, apesar das infinitas evidências.

Há que se confiar apenas na arte e na realidade para nos alertarem sobre a laia de gente que rege o nosso planeta. E para o tipo de sociedade que cultuamos e almejamos. Estejamos cientes de que os valores mais  desassociados da estrutura atual são definitivamente o respeito a mulheres e crianças.

Quem dera uma revolução ética pudesse tomar o lugar dessas ultrajantes pessoas. Quem foi tocado por essa lama jamais será clarificado dela.

2 comentários sobre “De olhos bem abertos

  1. Amo Stanley kubric pela sua versatilidade, por ter feito o melhor filme de todos os tempos 2001, uma Odisseia no espaço e que me ensinou a gostar de ficção-científica.
    Com frio na barriga, não resisto a assistir O iluminado, toda vez que passa em algum canal.
    De Laranja Mecânica, conheci e amei a trilha sonora antes do filme, imaginando algo totalmente diferente do enredo. Não dá pra assistir sempre que passa…
    Agora, ensaiando pra assistir De olhos bem fechados, que você me incentivou a conhecer.
    Será que dou conta?
    Melhor do que assistir hipocrisias como comédias românticas natalinas americanas. Com certeza!

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