Todas as minhas mortes - Fonte: Pixabay

Todas as minhas mortes

Todas as minhas mortes - Fonte: Pixabay
Todas as minhas mortes – Fonte: Pixabay
Daniela Piroli Cabral
danielapirolicabral@gmail.com

O cardiologista me afirma com segurança: “com esse colesterol, suas chances de morrer do coração nos próximos 10 anos é 0,4%”. A declaração veio após a análise de uma bateria de exames a mim solicitados por queixas de dores agudas e repentinas no coração.

Aprendi com um professor da faculdade que, em boas condições de saúde, não devemos sentir o corpo, se o sentimos, algo vai mal. A dor no coração me era uma desconhecida, nunca havia me incomodado, mas agora é lancinante, me pega desprevenida, em momentos inesperados, durante um atendimento, ao volante dirigindo, me põe em risco, ativa meu medo de morrer.

O médico me traduz o diagnóstico que eu relutava em aceitar: “angústia mesmo, síndrome do coração partido”.
Estou de luto, perdi meu pai e minha cachorra em novembro, estou naquele limbo temporal em que somos lançados quando não esperamos nos despedir. E esse limbo de agora é diferente, meio obscuro, ambivalente. Não é intenso, mas me atinge na carne, na concretude do corpo. Estou “somatizando”, a dor está lá, sem razões objetivas que a justifiquem, mas à espera de cuidado.

Todo esse momento me fez pensar na singularidade de cada luto. Eu já tinha perdido avós, primos, já tinha vivido lutos emprestados de amigas e amigos que perderam os seus. Eu dominava todas as teorias  e técnicas do luto, conduzia um grupo de enlutados por suicídio. Mas sinto que ainda tenho coisas para aprender. Não sei se pela proximidade do vínculo, se pela relação ambígua que estabeleci com ele nos últimos anos, esse luto me toca de uma jeito totalmente diferente.

Tem dias que estou apática, sem energia, custa-me chegar ao fim do dia, manter-me uma adulta funcional.
Há dias de muita irritabilidade, agitação, raiva. Uma enxurrada de sentimentos densos e confusos aparecem junto com a avalanche de memórias que eu nem sabia que tinha.
Por diversas vezes, perco o sono e encontro um zumbido no ouvido esquerdo.
Pensar que estou no mundo sem ele, que não poderei ligar, ouvir a voz, me deixa atônita. Sinto-me só.
As lágrimas não caem porque estou sob o efeitos de medicação psicotrópica.

Esse luto nem de perto se parece com o luto que tive com a morte por meu avô, por suicídio. Naquele momento o choro foi explícito, irrefreável, tipo represa que rompe. Também foi inesperado, não tive chance de me despedir. O luto veio misturado com muitos questionamentos sobre o porquê da vida e uma profunda perplexidade. Parte de mim morreu com ele. Talvez a parte mais ingênua, esperançosa.

Agora tento entender qual parte de mim meu pai levou com ele e qual parte eu preciso manter para poder continuar. Quem sou eu sem ele? O que farei com o meu coração partido? Há mesmo algo a se aprender com a dor?

 

 

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