Entre gafes e reações de (im)paciência

Eduardo de Ávila

Para alguns poucos, ainda um rapaz que teima por permanecer adolescente. Para muitos, um velho – exótico e ousado – que insiste em se manter jovem. Considero sim que nessa fase dos tempos, com a idade que alcancei, consigo surfar entre moças e moços de todas as idades. Na verdade desde os meus primeiros tempos, ainda que tendo minha turma escolar e vizinhança da idade próxima, sempre perambulei com gente de todas as faixas etárias. De menino introspectivo, passando por adolescente rebelde e adulto da resistência, atualmente carrego um pouco de cada pedaço desses tempos agregando condições e situações reservadas ao idoso.

Não estou fazendo referência a atendimento prioritário, espaço reservado para veículo, gratuidade no transporte e outras regalias. Se bem que chamar isso de regalia nem sei se seria apropriado. Benefício pela longevidade! Sigo, pelo menos creio, lúcido e saudável. Das nove fases do homem (masculino mesmo), já passei por sete. Macaco, girafa, abutre, papagaio, águia, lobo, e cigarra. A atual, um tanto antecipada, seria a partir dos 70 anos e ainda me faltam dois, é a do condor. Pior que ela só mesmo a seguinte e derradeira, do pombo. Lógico que é uma sátira. Zombaria também diverte e ajuda a envelhecer. Mas não vou negar, que embora tenha pulado várias dessas fases, a do condor me pegou pra valer. Sistematicamente surgem novas dores.

Seguramente vou fechar esse ano com o maior número de horas em sala de espera de consultórios, exames e procedimentos médicos. Já disse aqui que tenho mais tempo nesse ambiente que de sono em noites bem dormidas. Nada demais, não fossem as prosas cansativas que – como ainda não fui acometido de surdez – sou condenado a ouvir. As receitas culinárias passam batido, já que não tenho qualquer afinidade com as medidas dos ingredientes. Mas da vizinha que fala muito, nesse caso acho que falta espelho para a reclamante; filho dando trabalho e marido irresponsável, entre tantos outros. O famoso PR – Papo Ruim.

Como qualquer entre nós, me sinto fora desse contexto, mas consciente que também causo o mesmo efeito entre pessoas que por seus motivos têm resistência com o meu jeito de ser e levar a vida. Só que aprendi a respeitar os motivos dos terceiros, o que nem sempre merece reciprocidade. Daí aplico a regra clara do exercício da paciência na primeira vez, sinalizo na segunda e reajo – ao meu melhor jeito de ser – na terceira. Estou na última semana de um dos tantos tratamentos desse ano. Agora é mais simples, só fisioterapia por dor nos joelhos. Phode? Uma moça que já implicou com a minha roupa, insiste em puxar assunto, não respondo e deixo a infeliz falando sozinha. Confesso que rindo por dentro. E outras do gênero, onde as delirantes são quando tenho de responder. Cessam as perguntas.

Mas agora, especificamente nos últimos dias – deve ser castigo – entrei num processo de gafes continuadas. Preocupante? Talvez! Mas me divirto com elas, me autorizando após a avaliação e auto censura, por contar duas delas. Como não tenho filtros, são exatamente conforme narradas e sem cortes ou exageros. Por isso a necessidade de avaliação sobre liberar ou não o conteúdo. Estive em Araxá no final de semana e voltei de carona com uma pessoa muito querida e seus pais. Ela dirigindo e eu na condição de co-piloto no banco da frente. Na parada para o lanche, oferecido demais (como adolescente), me habilitei para seguir conduzindo o veículo. Era automático, automóvel que não dirigia um desde a pandemia. Quando entrei na via principal – com a aceleração em alta e emitindo som como de um avião decolando – me sugeriram o acostamento e devolver a direção. Não me fiz de rogado, ainda culpei a moça de ter me induzido ao erro.

Daí chegamos em Belo Horizonte, eu com algumas encomendas, quem já foi no interior e não voltou com pelo menos cinco? E lá fui levar algo para deixar na casa de uma das minhas filhas. Já mais relaxado, contei com a ajuda da mesma amiga para deixar na portaria do prédio da caçulinha deste caçulão quase septuagenário. Ao estacionar, evidentemente que ela na direção, um outro carro parou logo na frente. Desceu uma moça que entrou no mesmo prédio. No meu imaginário, o motorista foi embora e minha amiga e colaboradora avançou para a vaga melhor posicionada, mas continuava ocupada pelo carro um pouco (nada) parecido. Voltei e abri a porta do carona, em susto recíproco e apavorante, só deu tempo de ouvir “Cê tá doido, cara”! O assustado rapaz – esse sim jovem – arrancou e foi embora. Atônito e sem graça, ocupei o lugar certo, levando um bom tempo para sair. Eu ainda não refeito e ela passando mal de tanto rir da cena. Tô trancado em casa até me convencer que posso circular. Sigamos!

7 comentários sobre “Entre gafes e reações de (im)paciência

  1. Bom Dia Eduardo! Tenho 66 anos. Gosto desta fase da vida, conquistei neste momento a paz e a liberdade tão sonhada. Envelhecimento é apenas mais uma etapa da estadia terrena. No Brasil, muitas pessoas possuem um preconceito enorme para com os idosos. Vejo preconceito até de idoso para com idoso. Enfim, como você mesmo afirma, “sigamos “. Abraços Fraternos. Patrícia Lechtman.

  2. me meu amiGALO !!!! Que texto otimo !!! Abracao e boa semana
    Olha a frase que uso desde os 50 ( hj com 61)
    “Envelhecer é inexorável , ficar velho é opcão”

  3. Meu caro Eduardo! Acolho, ora com risos, ora com tristeza, ora assustado, suas proezas em mais um belo texto. Só não posso imaginar que esqueceu do meu Doce do Araxá, de um queijo especial ou de um boleto pra eu pagar. Abraço e gratidão.

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