Silvia Ribeiro
O que eu faria se me apaixonasse?
Num dia agitado pensei como eu iria hospedar um novo amor. Uma incredulidade malcriada propositadamente pousou na minha janela como fazem as aves, e pude sentir o espanto tocando todos os meus órgãos.
Este tema me afligiu tanto que eu quis apenas me perder na multidão e sentir o cheiro das ruas dignamente disfarçada. Me entreter com os buracos e ver as obras dos artesãos talhando a madeira sem encontrar um rosto que fosse capaz de escutar a minha voz.
Fazendo uma espécie de percurso entre os caminhos que eu percorri, julguei que seria conveniente dar uma folguinha para o meu coração e submetê-lo a uma dieta de desintoxicação. Assim sendo, decretei a minha aposentadoria amorosa por pura convicção e sob protestos do cupido.
Obviamente, sem me esquecer que tudo nessa vida é relativo. Hoje, dizemos não, e amanhã podemos ter a sensação estranha de engolir um condenado sim.
Agarrada a uma imensidade de conjecturas vagueei.
Levaria as borboletas do meu estômago pra passear nos dias de sol? Me esconderia debaixo da cama até a temperatura baixar? Ou cantaria uma canção de ninar pra que esse fato desastroso dormisse e me esquecesse de vez?
Necessito de gente como eu…
Tem dias que eu acordo sem correntes. E com uma xícara de café nas mãos penso que tudo é possível, e que por detrás dos contratempos existe uma luz reluzente capaz de salvar as minhas feras e toda a humanidade.
Com os sentidos atentos me incomodo com a morosidade de sentimentos, com os descasos que ainda não atingiram a maturidade e com as pessoas que deslizam feito água.
Admiro o meu sorriso deslumbrado e os caprichos do meu corpo, os portais que se abrem na minha memória como se fossem flashes de fotografias e o tempo diante de mim sem brigas.
Não emudeço as minhas inspirações e cada dia mais recebo o que vem das alturas, faço parte do rugido do meu lápis, da displicência do futuro e das grandes despedidas que valem um poema.
Na minha história, os meus desejos têm autonomia, a minha alma tem estridência, o fracasso não me desilude e a gratidão se pendura nas minhas costas sem trégua.
Sou o resumo daquilo que procuro e resistente às saudades, uma observadora das estrelas e milhões de pensamentos dentro da bolsa.
Sem a menor hesitação sou senhora do meu destino e uma sobrevivente da “aborrescência” e das suas ininterruptas loucuras. Sofro do mal de ter que encontrar ilusões e ervas pra me sentir alquimista.
Nos dias atuais, apaixonar-me exigiria todo um trabalho de desconstrução íntima, e uma adequação criativa na qual o meu coração não estaria disposto. Evidente, que tudo isso usando as referências dos movimentos efêmeros.
Sintetizando…
Move-se a beleza de um grande amor dentro de mim.
Encerrou-se a minha incredulidade.
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Obrigada!