A bruxa

Ela atende em uma casinha antiga como tantas outras no centro de Araxá. A diferença é que, ao passar pelo portão de entrada, você é recebido por alguns de seus gatos pretos e embriagado pelo aroma de mirra queimando. Atrás de um pequeno balcão, sentada em uma cadeira de balanço velha, está ela, igualmente velha, a bruxa.

Muito sábia ela. Diz o que você precisa, antes de dizermos qualquer coisa. Antecipa a nossas queixas e curam as nossas dores, antes mesmo de nos machucarmos.

Última vez que a visitei, fui surpreendido com uma advertência. Minha profissão estaria ameaçada, segundo ela, caso os comunistas tomassem o país. Imaginei que a mulher se referisse à censura, típica dos regimes autoritários, já que, pela minha barba por fazer, eu pudesse me passar por artista ou escritor. Quis saber mais. Em verdade, ela se referia ao fim da propriedade privada, o que levaria à extinção dos advogados. Fingi que entendi e concordei. No final das contas, estava mais interessado em saber como ela havia descoberto a minha profissão do que com esse papo comunismo. Jamais soube, porém.

Uma bruxa com papo de bolsonarista é só uma das contradições que você encontra ali. As prateleiras, que ocupam as quatro paredes até o teto, além de sustentar um amontoado de pedras mágicas, potes de cerâmica e outros objetos ritualísticos, dão suporte também a imagens de santos. Santos desses que você encontra nas igrejas. Há também, num cantinho, uma cesta enorme de livros empoeirados, em sua maioria, livros de religião.

Incongruências à parte, feiticeira que é não dispensa os seus feitiços. Atrás do balcão há um pequeno caldeirão, que borbulha alguma substância sob a chama de uma espécie de fogão portátil, desse tipo que se leva para o acampamento. Tomei uma xícara da poção e passei horas na companhia da bruxa, envolto em um estado de torpeza consciente, que se assemelha a uma leve sedação.

Falamos sobre a vida: vida após a morte, vida no espaço sideral, vida após os quarenta. Depois ficamos calados por longos minutos, sem nos constrangermos. Então ela enrolou um cigarro em uma palha de milho, tragou profundamente, e exalou uma fumaça, que, juro, não era branca, mas roxa como uma nuvem de vinho tinto. Por fim ela disse: o que você precisa hoje?

Tentei explicar a ela da minha maior aflição, mas logo percebi que a pergunta tinha o único propósito de me manter ocupado, enquanto ela vasculhava uma bolsa apinhada de pedrinhas coloridas. A bruxa sabia, é claro, antes mesmo de eu passar pelo portão e acariciar meia dúzia de gatos pretos, o motivo pelo qual eu estava ali: a busca pelo sucesso profissional através de uma mãozinha do Universo.

Duas pedras ela me deu. Uma para usar no pescoço, como um amuleto. A outra, para guardar dentro da carteira. Embrulhou as minhas mãos nas dela, fez uma oração a qual não pude entender uma palavra sequer e encerrou o atendimento com um olhar que dizia, expressamente: por hoje é só.

Quando eu ia saindo pela porta, ela ainda acrescentou: vai com Deus.

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