Dinheiro não é capim

Márcio Magno Passos

Aposentado da usina após três décadas de boca do forno de aço, ele era conhecido como rabo de saia e assíduo frequentador de forrós. Mas aprontava das suas com discrição porque a patroa era brava e não dava muita folga. Depois de viúvo, ficou à vontade, mas a idade já não ajudava muito. Sua maior fama, no entanto, não estava nos rodopios do salão e nem na safadeza da mão roçando as coxas das mulatas.

Ele era o mais pão duro dos pães duros. Vivia em todas as listas de avarentos. Sovina daqueles que não comem banana para não jogar a casca fora. Do tipo que leva a própria mulher na zona, para não ter que pagar pelos serviços prestados. Osso duro de roer agiotava os pobres de equilíbrio financeiro e ia melhorando o nível do cofre. Tinha casa própria, terrenos, carro, aposentadoria razoável e alguma coisa em torno de 100 mil reais na poupança mais outro tanto nas mãos de endividados. Mesmo assim, vivia regrado e regrando, apesar de saber que, se muito, tinha menos de vinte anos de vida. Para ele, dinheiro não era para gastar, mas sim para guardar.

Apesar da idade e do dinheiro, não tinha plano de saúde. Não admitia a hipótese de pagar mais de cem reais por mês só para ter plano de saúde. Preferia o SUS, sistema único de saúde do governo. Enfrentava filas, esperava meses para uma consulta, outro tanto tempo para os exames e ia tocando a vida sem enfiar a mão no bolso. Com mais de vinte anos de atraso, cedeu à pressão das filhas e decidiu que faria o primeiro exame da próstata. Sugeriram fazer um plano de saúde, com o argumento de que seria melhor procurar um especialista na capital, até porque seria uma maneira de evitar o constrangimento natural com os velhos conhecidos médicos da cidade.

O exame é certo que faria. Mas continuou batendo pé contra jogar dinheiro fora com planos de saúde. Iria pelo SUS mesmo, só que na capital. Afinal, aposentado e muito popular na cidade, não ficaria de quatro para nenhum dedo conhecido. Até aceitava o constrangimento, mas de um detalhe não abria mão: o dedo tinha que ser desconhecido. Ele subiu ao ônibus às seis da manhã e três horas depois já estava na fila do Hospital das Clínicas, em Belo Horizonte. Cinco horas depois estava com a consulta marcada para daqui a seis meses. Achou tudo muito normal. É melhor esperar seis meses do que gastar dinheiro com plano de saúde. De mais a mais, não estava sentindo nada e aquele seria apenas um exame preventivo, apesar dos mais de vinte anos de atraso.
Seis meses depois ele voltava à capital para fazer o exame. A consulta havia sido adiada (sem comunicação) porque o médico estava em um congresso em Porto Seguro. Voltou no mês seguinte e, por azar dos azares, o hospital naquele dia só atendia casos urgentes, pois médicos e enfermeiros faziam uma manifestação por melhores salários. Três meses depois, quase um ano após a primeira marcação, ele acabou sendo atendido.

A enfermeira, com cara de poucos amigos gritou seu nome como se ele estivesse a mil metros de distância. Ele entrou na porta indicada e recebeu a ordem lacônica, automática, certamente repetida pela milésima vez: tire a roupa e fique de bruços com as pernas abertas que o médico já vem.

Ele esperou quarenta e cinco minutos naquela situação constrangedora de tão ridícula. Pelado, com o bundão virado para cima, pernas abertas e esperando um homem para transformar em entrada um lugar que durante toda a vida só foi saída. Aí entrou o médico, acompanhado por quatro estagiários do curso de medicina. Primeiro foi o médico, é claro. Depois, um a um foi conferir a próstata do aposentado munheca de samambaia. Uma lágrima desceu-lhe pelo rosto e foi imediatamente enxugada pela costa de uma das mãos. Não há constrangimento que me faça mudar de opinião, pensou ele. Dinheiro não é capim, conformou-se.

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