Volver a Araxá

Eduardo de Ávila

Nascido e criado na cidade das águas, costumo brincar que Araxá tem duas personalidades conhecidas e reconhecidas – dona Beja e eu – com trajetórias de vidas cuja similaridade é enaltecer as qualidades daquela terra abençoada. Depois que Belo Horizonte me adotou, isso em 1974, tive um honroso retorno – entre 1982 e 1988 – quando exerci um único mandato de vereador.

Recém-formado em Direito, os araxaenses me conferiram seguramente a missão que mais trago na memória e que pude exercer com a honradez e a dignidade que aprendi no grupo Delfim Moreira e Colégio Dom Bosco, ainda na infância e adolescência. Minha até então formação jurídica, conquistada nos bancos acadêmicos da Faculdade Milton Campos, nortearam minha atuação naquele período.

De volta a Belo Horizonte, já graduado em Jornalismo, iniciei minha efetiva vida profissional a partir de então nesta empolgante e combativa missão de informar aquilo que muitas vezes não interessa aos mandatários de plantão e principalmente ao poder econômico. Chegando nos próximos tempos à idade da gratuidade no transporte coletivo, estou experimentando uns dias na terrinha para acompanhar os desígnios que o Criador reserva a cada um entre nós.

Além dos infortúnios que os tempos e o desgaste das engrenagens do corpo nos impõem, ainda convivendo com essa mesma situação de pessoas próximas e muito queridas. Não costumo e até evito imprimir queixas no dia a dia, e assim vou vivendo com as dores no joelho, na coluna, noites mal dormidas, os exames de controle cada vez mais frequentes e assistindo a pessoas próximas convivendo com o mesmo enredo da longevidade.

Sempre que possível, ainda que seja difícil, com o humor que a vida sugere para enfrentar tantos desafios, não permitindo que se transformem em dissabores. Enfim, passar alguns dias na minha cidade – ainda que por imposição desses momentos – motiva aproveitar ao máximo revendo gente querida, visitando os parentes e amigos (vivos e até mesmo no cemitério, o que faço com regularidade), frequentar pontos marcantes dos tempos antigos.

“E assim vou vivendo, sofrendo e querendo”, como na letra da dupla Leandro e Leonardo. Porém, continuando a mesma canção, “este amor doentio” encontra uma Araxá completamente diferente daqueles anos 60/70/80. As casas dos meus avós, maternos e paternos, já foram ao chão e hoje são estacionamentos na região central da cidade. A casinha onde eu nasci, que ainda é de propriedade de familiares, se transformou numa república de trabalhadores transitórios em empresas que atuam na cidade.

Os 15 ou 20 mil habitantes daquela infância, atualmente já passam de 100 mil. A rua Boa Vista, onde passávamos cumprimentando a todos com um gostoso “bom dia”, seguido pelo nome próprio de cada morador, agora é um formigueiro de gente circulando onde dificilmente identifico um rosto conhecido. Sinal dos tempos, reconheço e aceito, embora com a dificuldade em superar aqueles bons tempos da infância e da juventude.

Uma situação, expressa na charge do bom amigo Wagner Matias de Andrade, não mudou dos anos 70 para a atualidade. Wagner, chargista que assinava “Cascalho”, fazendo o “tiro de guerra” e colaborando com o jornal “Correio de Araxá” foi reprendido pelos sargentos da ocasião com contundentes ameaças de enquadramento nas leis de exceção pelo abuso em questionar as autoridades de plantão do regime.

Pois que agora em pleno ano de 2022, a cidade voltou à escuridão ameaçadora a quem pretende sair de casa à noite. Nestes dias, sai e voltei pra casa imediatamente, ainda que de carro. É assustador. E ainda tem quem defenda a volta desses tempos de chumbo. A segunda charge, atual, bem define a escuridão da cidade e a escuridão do regime defendido por quem diz ter a liberdade de pedir a ditatura. Até que se torne vítima do açougueiro que te seduz a defender um regime forte.

Volver a Araxá!

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