Que susto!

Peter Rossi

Edvaldo ia pouco ao Espírito Santo. De sua infância, se lembrava de Guarapari, o paraíso dos mineiros. Naquela época, em todos os anos, o pai o levava para aquelas bandas. Acabava encontrando amigos, pois todos que moravam em Minas Gerais tinham a mesma ideia. Chegava janeiro e a estrada entre Minas e o litoral capixaba ficava verdadeiramente intransitável.

Mas o fato é que, quarenta anos depois, lá estava Edvaldo em Vitória, no Espírito Santo, dessa vez para compromissos profissionais.

No trajeto do aeroporto até o hotel na Ilha do Boi, Edvaldo, rosto colado no vidro do táxi, olhava pra aquelas praias e procurava imagens da infância. Passou pelo Jardim Camburi, pelo aterro que deu origem à Praia dos Namorados e logo chegou na ponte que leva a Vila Velha. Fez o desvio e seguiu para a Ilha do Boi, onde ficava o Hotel Senac. Naquela época, falo de quinze anos atrás, era um dos melhores da capital dos capixabas. Era uma noite de sábado e Edvaldo torcia para chegar logo ao hotel, tomar uma ducha e descansar. O calor era o de sempre, insano.

Por mais que buscasse retalhos na memória, nada vinha à sua mente. Ele guardava lembranças mesmo era de Guarapari. Ainda bem que ainda naquela semana estaria na cidade. Antes, uma visita a Vila Velha, na segunda-feira, para divulgação do seu trabalho. Encontraria com Abel, seu empresário, no hotel. Tomariam um chope e colocariam em dia a agenda. Reuniões, entrevistas para a imprensa local, encontro com formadores de opinião e autoridades do Espírito Santo.

Edvaldo acabara de lançar um livro sobre futebol, uma de suas paixões, senão a maior. O trabalho alcançara sucesso instantâneo e apesar do Espírito Santo não possuir equipes de expressão no cenário nacional, milhares de mineiros moram por lá. Era a certeza de vendas expressivas.

Chegando ao hotel, foi reconhecido pelos empregados da recepção.

– Que prazer recebe-lo, Sr. Edvaldo. Fez boa viagem? A sua suíte já está disponível.

Edvaldo recebera as chaves que logo lhe foram retiradas das mãos pelo mensageiro, longe de imaginar que ficaria hospedado em uma das melhores suítes do lugar. O hotel ficava no alto de um morro, cercado por um condomínio de classe média alta. Encarapitado sobre a pedra, permitia uma visão magnífica da cidade e, sobretudo, do mar.

O cheiro de sal já atingia suas narinas quando abriu a torneira do chuveiro, não sem antes esmiuçar cada detalhe do seu quarto. A água doce caía em seu corpo como um bálsamo. Enrolado na toalha, colocou uma calça branca, uma camisa de malha e desceu para o lobby

Não demorou a estar com Abel. Duas tulipas de chope gelado vieram até a mesa, logo em seguida uma porção de camarões empanados, iguaria adorada por Edvaldo. Os dois comeram, sentados no bar do hotel, que circundava a piscina, em uma mesa de frente para a vista do mar. Conversaram, refizeram os próximos passos e, em seguida, combinaram um almoço mais tarde no domingo. Edvaldo queria ficar mais tempo na cama. Não gostava de aviões, e a tarde tinha sido tensa. Imaginava descansar.

Após uma boa noite de sono, lá estava Edvaldo na portaria do hotel, esperando por Abel, que não tardou a chegar. Foram até o “Triângulo das Bermudas”, região agitada da cidade de Vitoria, sobretudo nas tardes de domingo. Muita gente nos bares, muita cantoria, um ambiente agradável. Além disso, muitas mulheres enfiadas em biquinis minúsculos, com a água salgada a secar em seus corpos, traçando linhas as mais convidativas.

Edvaldo não passou ileso. Enquanto devorava uma moqueca capixaba, em um restaurante muito famoso, onde se via lia na parede a expressão “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”, ele não pode deixar de perceber uma mulher interessante, com uma saída de praia branca sobre um biquini azul claro. Glória era seu nome, viria a saber depois.

No fim do almoço, a mulher não se furtou a vir à sua mesa, não sem antes fuzilá-lo com o olhar.

– Desculpe incomodar, mas você não é o Edvaldo, autor de um livro que está sendo muito comentado?

– Olá, sou eu mesmo. Mas você, sendo mulher, como sabia disso? Gosta de futebol?

– Pois é, ouvi a notícia pelo rádio de que você estaria aqui em Vitória, para uma série de eventos. Já tinha visto seu rosto em alguma revista e confesso fiquei curiosa. Acho que passei a gostar mais de futebol.

Edvaldo não conseguiu evitar o rubor no rosto. Uma onda de calor subiu pelas pernas a alojar debaixo do seu boné.

– Muito obrigado, você é muito simpática. Como se chama?

Aquela foi a chave para que tudo começasse. Já buscando uma cadeira, e sem pedir licença, sentou-se à mesma mesa. Pediu apenas ao garçom que lhe trouxesse o copo de caipirinha que estava na mesa anterior.

– Meu nome é Glória, sou capixaba da gema. Nasci em Guarapari e agora moro aqui em Vitória. Sou artista plástica.

Abel percebeu que estava demais naquele cenário e tratou logo de se despedir.

– Pessoal, vou indo. Tenho trabalho a terminar no hotel. Mesmo no domingo, enquanto descanso, carrego pedras. Edvaldo, daqui é muito fácil pegar um táxi, combinado?

O amigo não teve tempo de responder. Quando conseguiu ordenar as ideias, Abel já atravessa a rua, acenando para um carro que já estacionava.

– Pois é Glória, eu também gosto muito do Espírito Santo. Daqui de Vitória não tenho muitas lembranças não, mas de Guarapari, me recordo das festinhas nas boates e das garotas de pele bronzeada que conheci.

Glória, cada vez mais interessada naquele homem, cuidou de chegar mais perto, percebendo que Edvaldo não tirava o olhar de seus seios sob o sutiã do biquini. Não se fez de rogada e com um simples movimento, já estava praticamente colada nele.

A conversa rendeu. Algumas caipirinhas e já trocavam beijos e carícias. Precisavam sair daquele lugar.

Edvaldo pagou a conta e quando percebeu, estava de mãos dadas com Glória, a caminho da casa da garota.

– Meu amor, aqui é o meu “cafofo”. Entre, vou pegar umas cervejas pra nós. “Na verdade é um abatedouro”, pensou Edvaldo.

Passaram o final de tarde abraçados e quando estavam perto de consumar a paixão, Edvaldo, homem prevenido que era, buscou no bolso da calça o que chamava de “invólucro”. Já estava rasgando o envelope plástico do preservativo quando Glória o interrompeu:

– Gosto disso não, meu caro! Além do mais, não te contei, eu sou casada! Meu marido está fora, no exterior, numa viagem a trabalho. Você não precisa se preocupar. Edvaldo, envolvido pelos encantos da mulher cedeu e a noite foi pequena para os dois.

Nos dias seguintes não esteve mais com Glória. Ele viajando de um lado para o outro, ela não se sabe onde estava. Tentou até falar pelo telefone, eles tinham trocados números, mas ninguém o atendia.

Fato é que seu trabalho em terras capixabas terminou e uma semana depois já estava de volta ao trabalho.

Naquela época, o assunto em voga era a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis. A liberação caminhava a passos largos e logo o mundo se via à frente com um inimigo muito perigoso: a Aids.

A vida seguiu seu rumo normal, até que, aproximados três meses depois, o telefone da repartição tocou e Sandra, a secretária, veio até a mesa de Edvaldo.

– Seu Edvaldo, telefone para o senhor. Parece que é uma tal de Glória.

A princípio Edvaldo não se lembrou, mas logo em seguida, buscando pela memória, pediu que Sandra transferisse a ligação.

– Olá Glória, como vai? Que prazer falar com você, falou disfarçadamente.

– Como vai Edvaldo, quanto tempo né? Olha só, estou aqui em BH e gostaria de te ver.

– Glória, hoje eu não posso, tenho uma viagem a trabalho, ele mentiu.

– Serão alguns minutos apenas, Edvaldo. Não vou tomar muito o seu tempo, mas se trata de um assunto muito grave, e deve ser tratado o quanto antes. Por isso cuidei de vir até aqui.

Do outro lado do aparelho, Edvaldo, lembrando-se da história da Aids e também do fato de que transara com Glória várias vezes na mesma noite, sem preservativo, começou a suar imediatamente. Suas pernas tremiam e ele não sabia o que dizer.

– Ma … ma… mas o que foi Glória? Fala de uma vez, pelo amor de Deus!

– Não posso Edvaldo, isso não é assunto para tratar pelo telefone.

– Tudo bem, onde você está, em qual hotel? Onde nos encontramos?

– Vamos nos encontrar no Restaurante La Greppia, na Rua da Bahia, ao final do expediente? Até que horas você trabalha? Dezenove horas está bom prá você? Glória adorava o local. Esteve lá algumas vezes e queria matar a saudade.

– Ok Glória, lá estarei as sete horas.

Edvaldo não conseguia prestar atenção em mais nada. As horas demoravam a passar. A todo tempo pensava que estava doente, contaminado. Já fazia as contas de quantos meses ainda sobreviveria. Se imaginava numa cama de hospital, definhando, como definharam vários artistas da televisão. E a família, como iria contar o que aconteceu? O que pensariam? E no trabalho? E os amigos? Afinal, essa era uma doença estigmatizada junto ao público homossexual. 

Tentava se concentrar nos assuntos do trabalho, mas um único tema o rondava: a morte! Finalmente observou no relógio da repartição que eram 18h15. Estava na Avenida João Pinheiro, perto da Praça da Liberdade. Fechou sua gaveta, se despediu dos poucos colegas que ali ainda estavam e desceu as escadas. Iria a pé, afinal o restaurante não era assim tão distante. O trajeto trataria de consumir os minutos que ainda faltavam para o horário marcado.

Chegou à Rua da Bahia, bem perto da Faculdade de Direito e logo viu a placa do La Greppia. Buscou com o olhar, mas não encontrou Glória. Preferiu sentar em uma mesa mais ao fundo, afinal sabia que o assunto a tratar era confidencial, ou pelo menos acreditava nisso. Olhou para o relógio de pulso e percebeu que faltavam ainda dez minutos para as sete horas.

– Garçom, uma dose de uísque, por favor! Sem gelo, num copo baixo. Edvaldo não era de tomar uísque, mas precisava se preparar, esquentar o peito, pois a bordoada seria grande.

Estava rodando o copo na mão como se quisesse ler nas ondas da bebida o futuro que lhe esperava quando percebeu a sombra de uma pessoa sobre a mesa. Era Glória. O cabelo mais curto, mas a pele ainda dourada. Se levantou e não sabia o que fazer, se lhe dava um aperto de mão ou um abraço. Na verdade, não queria qualquer contato físico. Foi de Glória a iniciativa.

– Boa noite Edvaldo, está tudo bem? Disse a mulher lhe dando um abraço.

– Ora Glória, depende do que você tem a me dizer, respondeu Edvaldo tentando se desvencilhar.

– Sossegue homem, disse a mulher já afastando a cadeira.

– Seja cavalheiro, peça uma caipirinha prá mim.

O garçom, que já se aproximara, a tudo ouviu e nem precisou ser demandado.

– Já trago, senhora.

– E então, Glória, do que se trata? A impaciência e o temor de Edvaldo jorravam de suas pupilas.

– Edvaldo, o que está acontecendo? Estamos juntos aqui, o mundo não está acabando. Temos uma questão a enfrentar e precisamos juntos decidir o que fazer, é só isso.

– Desembucha logo, por favor!

Já com o copo de caipirinha nas mãos, Glória não foi de rodeios.

– Edvaldo, eu te falei que era casada, se lembra?

– Sim, claro!

– Pois então, como meu marido estava em viagem, não me preocupei com anticoncepcionais e, quando transamos, me esqueci que estava no meu período fértil. É prá isso que estou aqui, Edvaldo, para dizer, olhando nos seus olhos, que eu estou grávida, e que o filho é seu!

Não se passaram mais que três ou quatro segundos, quando Edvaldo, mãos apoiadas na mesa, se dirigiu à mulher à sua frente a dizer:

– Puxa vida Glória, achei que era alguma coisa mais séria! Que susto!

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