Família unida na praia

Márcio Magno Passos

Reunião de família, definitivamente, tem que ser na casa dos pais. Vez por outra aparece algum engraçadinho querendo inovar. São ideias teoricamente maravilhosas, mas que, na prática, nem sempre funcionam bem.

Certo dia de um ano distante, estávamos todos lá – filhos, genros, noras, netos e agregados- reunidos em festa na casa do Vô Quiu e Vó Nina, casal então responsável por toda aquela prole. Era um domingo de clima agradável devido ao sol educado e toda a família ali no quintal jogando conversa fora entre goles de cerveja, ao lado de uma churrasqueira eficiente, produzindo em grande escala carne bem temperada e passada ao ponto. A vida que qualquer um sempre pede a Deus.

No meio de todo aquele descompromisso, não mais que de repente, alguém achou que tudo aquilo era pouco e teve a brilhante ideia de propor uma viagem de toda a família à praia, no verão seguinte. Argumentou que nunca a família toda tinha viajado junto e começou a descrever a proposta. Alugar um ônibus bom e confortável, escolher uma casa espaçosa numa bela praia e a família unida brindar o ano novo em lugar diferente com muita festança e fartura. Estes poucos argumentos foram suficientes para que a maioria aplaudisse a ideia e, os mais renitentes, foram democraticamente cedendo um a um até que a unanimidade fosse comemorada.

Oito da noite, antevéspera do ano novo. A família já estava pronta para o embarque com dezenas de malas, colchões, caixas de cerveja, panelas, violão, papagaio e tudo mais a que tinha direito. Chega o ônibus contratado. Não era o que havia sido combinado com a empresa, mas era razoável. Desce o motorista acompanhado da mulher e explica que ficou com dó de deixar a companheira sozinha passar o réveillon em casa. Constrangimento geral. Os filhos mais velhos se reúnem num canto para decidir se deixavam o motorista levar a mulher. Leva, não leva, leva, não leva, não tinha jeito. Ou levava a mulher ou esperava o motorista recambiá-la de volta para Belo Horizonte.

Chegamos a Piúma, no Espírito Santo, seis horas de uma manhã chuvosa. Demoramos quase uma hora para encontrar a casa alugada. Não uma casa espaçosa como se anunciou: dois quartos, um banheiro, sala, cozinha e uma varanda, para abrigar uma família unida de apenas trinta pessoas. Nunca nos sentimos tão unidos. Meia dúzia num quarto, meia dúzia noutra, alguns na sala e outros na cozinha e o resto na varanda. Tinha gente dormindo em tudo quanto era canto. E as filas? Tinha fila para ir ao banheiro, para almoçar, para tomar banho, para escovar os dentes, para tomar café, tinha fila até para entrar na casa. Também nas filas, o motorista e sua mulher, gente da melhor qualidade, que não tinha dinheiro para pagar hotel e acabou se juntando à prole de Quiu e Nina.

Foram inesquecíveis quatro dias de chuva com família amotinada naquela casinha que além de pequena, era cercada de lama por todos os lados. Fartura houve nos quatro dias, o que acabou congestionando ainda mais a fila do banheiro. Festança mesmo nada, a não ser uma cômica partida de futebol na lama, da qual me neguei a participar, protegido por uma convincente gripe inventada na última hora.

Deixamos Piúma debaixo de um temporal, com a promessa de repetir a viagem em outra época do ano. Horas depois, Minas Gerais sorria um sol maravilhoso para receber de volta uma unida família marcada pelo tédio, cansaço e decepção. Nunca mais aconteceu outra viagem.

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