Skip to main content
 -
Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

Eduardo de Ávila Eduardo de Ávila

Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

Guilherme Scarpellini Guilherme Scarpellini

Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

Rosangela Maluf Rosangela Maluf

Professora universitária na área de marketing e nas montanhas de Minas lê, escreve e sonha!

Sandra Belchiolina Sandra Belchiolina

Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

Taís Civitarese Taís Civitarese

Pediatra formada pela UFMG. Trabalha com psiquiatria infantil e tem um pendor pela filosofia.

Victória Farias Victória Farias

Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

Seu Joaquim & família

Rosangela Maluf

Nossos domingos eram esperados, com ansiedade, durante toda a semana. Acordar, tomar café, trocar o pijaminha pela “roupa de missa”, impecavelmente passadinha,  dependurada no armário da mamãe.  

O ritual, os coletes em tricô e as gravatinhas borboletas para os meninos, faziam dos meus irmãos, dois príncipes. Eu, quase fantasiada de princesa: vestido de chiffon, rosa clarinho como convinha à uma mocinha. A única menina da família e para o meu pai, uma princesa de verdade. Depois de arrumada, penteada e perfumada com Narciso de Gally, vinha então o ritual das joias. 

Os brincos, eu já os usava diariamente. Faltavam ainda a correntinha com o crucifixo, a pulseira de bolinhas, o anel fazendo jogo com a pulseira. Desde aquela época tenho o hábito de usar um anel no dedo mindinho,sem nunca sequer ouvir dizer se era moda. Sempre gostei e sempre usei. (Uso até hoje…)

O carro do papai era uma Rural Willys, café com leite, novinha, carro do ano, como se dizia. Cada um dos meninos ocupava uma janela, no banco de trás. Eu ia na frente, sem cinto nem nada, no colo da minha mãe, rumo à Igreja São José Operário.

A missa das nove separava homens de um lado e as mulheres do outro. Muito novinha comecei a cantar no Coro, então subia e ficava lá de cima, observando tudo. Os homens de terno, do lado esquerdo; as mulheres bem vestidas e usando véu de renda, do lado direito. Dona Guilhermina no órgão e nós, as cantoras, com as partituras abertas como se entendêssemos tudo!

Ao terminar a missa, íamos todos para o Grêmio. Lá o meu pai se encontrava com os amigos e tomavam a cervejinha do domingo. Minha mãe ficava em uma mesa com as irmãs Albeny, todas muito amigas. Meus irmãos, já sem os coletes e sem as gravatinhas corriam para o balanço, o escorrega, cheios de energia, rodeados pelos amigos da mesma idade e uma agitação que não tinha fim. Eu ficava junto às meninas da minha idade, debruçadas na grade da piscina, vazia naquela época fria do ano. Conversávamos sobre assuntos diversos, sem nenhum interesse especial. Combinávamos e acertávamos a nossa ida à matinée no final da tarde. Eventualmente surgia uma fofoca inocente, um comentário venenoso sobre uma roupa, um cabelo muito do desajeitado, uma roupa nada a ver, ou alguma coisa assim!

Tudo parecia normal até chegarmos em casa. De longe avistávamos as visitas indesejáveis, que eu detestava. Antes, devo explicar que a minha mãe era comadre de uma dezena de senhoras na cidade. Todas as freguesas da loja encontravam um jeito de oferecer um bebê pra que a mamãe o batizasse. Às vezes o padrinho era o meu pai, mas podia ser que não.  Perdi a conta de quantos afilhados ela recebera e fazia, para todos eles, a mesma festa.

Entretanto, aquele senhor pequenininho, com sua mulher pequenininha e gordinha e seus seis filhotes pequenininhos, em escadinha, me irritavam profundamente. Minha mãe sempre me chamava a atenção dizendo que eu não podia ser assim. Que a gente recebe bem quem procura por nós, pela nossa casa. Era “desfeita” pensar em destratar uma visita. Eu só bufava…

Eram oito pessoas que chegavam para o almoço, sem avisar (nunca avisavam). Eu teria que ceder o meu lugar à mesa. Eu teria que ceder meus pedaços de frango ensopado pras visitas. Pobres crianças, minha mãe dizia, tenha caridade, minha filha. Mas a filha dela não gostava nem um pouco daquela confusão. Aquele falatório sem fim, o Seu Joaquim falava gritando. Uma risadaria sem limite, um gargalhar que era só dele, muito timidamente acompanhado pelos risinhos “com-a-mão-na-boca”, da comadre.  A comadre nada fazia, nada falava. Não corrigia a meninada, nem lhes chamava a atenção. As crianças pedindo uma garrafa “inteira” de guaraná. Uma garrafa pra cada uma. E queriam tomar no bico. E deixavam entornar na toalha dos domingos. E sujavam tudo. E molhavam até os guardanapos. E eu só pensava em sumir dali. Affe…

O cardápio dos domingos era muito parecido em todas as casas. Arroz de forno, tutu de feijão, maionese, frango ensopado e um lombo. Basicamente era assim. As seis crianças só queriam o frango. Os meus pedaços indo repousar nos pratos dos visitantes. Meu Deus, que raiva. Minha mãe, com toda paciência, fazia o prato de cada um, colocando lombo para “os de casa” já que o frango dourado, temperadinho, com caldinho era pras visitas. Pras crianças, coitadinhas. E eu ? Não era criança também? Não era coitadinha não?

Meus irmãos tinham parceiros de idade entre os seis pestinhas do Seu Joaquim, mas eu, eu ficava sozinha, torcendo para que o almoço terminasse logo e aquele time de futebol fosse embora pra casa. Havia duas meninas, caladíssimas, como a mãe delas. Não diziam uma palavra sequer. Não sorriam…só pediam mais frango com caldinho. 

O menu das sobremesas também era comum: arroz doce, goiabada cascão com queijo e pra celebrar o domingo, pudim de leite condensado. Perguntem qual a sobremesa que todos queriam e ainda repetiam? Só se viam pratinhos se aproximando do prato de pudim, com cascatas de calda de açúcar queimada deslizando morro abaixo! Quando não sobrava nem um pedaço pequenino pra mim, eu agradecia, não queria mais nenhuma sobremesa. Me emburrava, fechava a cara e sem dizer nenhuma palavra, ia direto pro meu quarto, esperar que a raiva passasse.

Acredito que, com o passar do tempo, fui melhorando como pessoa. Passei a olhar para aquela família com mais compreensão e tolerância. A idade foi me preenchendo com sentimentos de compaixão, empatia, ao invés daquela raiva infantil por ficar sem o frango com caldinho e, principalmente, sem minha generosa fatia de pudim, com muita calda por cima. 

Entretanto, nunca neguei ser a pessoinha danada que eu era. Nunca escondi o que me incomodava e por isto me chamavam de atrevida. Sempre falei o que pensava. Nunca escondi os defeitos que me eram atribuídos. – Nariz empinado tem esta menina, dizia uma tia! E eu tinha mesmo, nariz arrebitado e coragem pra enfrentar até uma tia chata.

Recordando tudo isto, me vem uma vontade enorme de rir das lembranças revividas. Sinto o cheiro daquela mesa posta. Da comida boa. Revejo a mesa farta, a toalha dos domingos, os guardanapos de tecido com argolinhas de plástico. Mesmo que ainda surgissem os oito convidados, sem avisar.

 Ouço o falatório, as gargalhadas, a gritaria daquelas tardes de domingo. Revejo o olhar da mamãe, querendo me estrangular. Meu pai nada dizia, mas me olhava com reprovação e balançava a cabeça para um lado e para o outro. Enfim…

Juro que não fazia por mal, mas àquela época, eu era assim!

E não era fácil para mim, ser uma boa menina… nunca foi!

*

Curta: Facebook / Instagram

One thought to “Seu Joaquim & família”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.