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Os Sinais

Rosangela Maluf

Aqueles momentos ternos e carinhosos foram, pouco a pouco, sendo substituídos por uma pressa injustificada. Era um hábito dos dois se deixarem ficar abraçados, sem nada dizer, apenas esperando um pouco mais. Na cama, juntos. Afinal, o dia apenas começava. Ele passou então a se levantar rapidamente dizendo que havia muito trabalho a ser feito. É bem verdade que o home office era intenso e rigoroso. Ela não percebeu nenhuma anormalidade, até entendeu…

Os dois trabalhavam em casa. No mesmo espaço. Um pequeno escritório, arrumado às pressas, para que ambos pudessem realizar suas tarefas, pertinho um do outro. Quando ele sugeriu que ela utilizasse a mesinha do quarto de hóspedes, ela achou normal. Ele e a sua equipe realizavam lives ao longo do dia e, era verdade, incomodava aos dois. Pegou suas coisas. Mudou-se para o quartinho ao lado. Fechou a porta e ficou só. Sem ele por perto. Não viu nenhum problema na mudança…

Para quebrar um pouco a rotina, alternavam-se na realização do chazinho ou do café, com biscoitinhos, que levavam um para o outro: ora ele, ora ela. Começou a observar que ele quase não vinha fazendo o combinado. Só ela preparava tudo. Colocava as xícaras em uma bandeja. Os biscoitinhos em um pratinho de sobremesa e levava para os dois. Ele achava bom. Agradecia pelo lanchinho da tarde. E só…

As compras de supermercado e mesmo a feira semanal sempre eram realizadas pelos dois. Cada um fazia sua própria listinha. Separavam-se diante das gôndolas voltando a se encontrar na fila do caixa. Sim, ela estranhou quando ele disse que não poderia ir naquela semana. Que ela fosse e  resolvesse tudo. Ele esperaria por ela. Em casa. Trabalhando. Muito estranho, ela pensou… mas ficou por isto mesmo.

Fazia tempo que as noites eram mornas e sem atrativo. Os momentos calientes há muito já haviam cessado. O que ainda os unia era a leitura, na cama. Cada um com um livro. Estilos diferentes, mas que sempre geravam comentários interessantes. Era bom ouvir e saber o que o outro lia; o que achava da leitura e as trocas de sensações e sentimentos despertados. Por isto, ela estranhou quando ele pediu que não fosse colocada nenhuma música.

Nem mesmo o CD da 5th Sinfonia de Mahler. Ele estava com dificuldades para se concentrar. Como assim? Há anos compartilhavam as músicas clássicas. Os dois apaixonados pelo Barroco. Mas, cedeu sem se importar e sem notar que já era algo por demais estranho. Usando o Spotify em seu celular, e os fones de ouvido para não incomodá-lo, continuou ouvindo Bach, Beethoven e tudo que lhe agradava. Não era só impressão, ele andava mesmo muito diferente…

Nos finais de semana, sempre que saiam juntos, ele não queria mais dirigir. Era sempre ela quem conduzia o Jeep Compass, branco. Aos domingos, depois do almoço, iam visitar os sogros. Visitinha rápida para saber como andavam os pais de ambos, já idosos, se cuidando como podiam. Sozinhos e carentes. Sempre havia um café feito na hora e um bolo de fubá. Na outra casa, bolo de banana e pão de queijo. Após a comilança e os elogios, seguiam os dois de volta pra casa.  

Quando ele disse que iriam visitar apenas os pais dela, foi algo inesperado. – Por que não passar na sua mãe? Rapidinho. O que custa? – Não – ele disse. Ela achou melhor não insistir. O sogro e a sogra ficariam sem a visita naquele domingo. Ela não gostou da atitude dele. Entretanto, achou melhor deixar por isto mesmo. Precisavam, com urgência, conversar seriamente, ela pensou!

A impaciência daquele homem, sempre tão calmo e sereno, começou a incomodá-la. A inquietação daquele companheiro de doze anos lhe parecia muito estranha. A irritação constante poderia estar ligada ao trabalho. Ou algum outro problema que ele não quisera dividir com ela. Resolveu comentar. 

A secura, ultimamente, sempre presente, deu lugar a uma quase grosseria. Alguma coisa estava errada. Não é assim que as coisas são. Ela queria conversar. Esclarecer. Entender o que se passava. Ele não queria saber de nada. Muito calado. E ela, no limite…

Além de desconfortável, a situação se mostrava constrangedora. Sentia-se uma estranha em sua própria casa. Sentia-se incomodada pelo homem com quem dividira grande parte da sua vida. Vinte anos pra ser mais exata. Os oito de namoro mais os doze de casados. Sem filhos. Estáveis. Situação econômica privilegiada. Podiam viajar duas vezes por ano para o exterior. Dentro do país, aproveitavam os feriados nas praias brasileiras. Os dois adoravam o mar. O calor. A vida noturna nas pequenas e também nas grandes cidades.

O que havia de errado? Como resolver? Como acessar o íntimo daquele homem cada vez mais inacessível. Distante e frio. O que ele pretendia? Pensamentos absurdos lhe inundaram a mente. Frio na barriga. Incerteza e medo. 

Ligou para a sua melhor amiga. Descarregou sobre ela os meses vividos em profunda insatisfação. De tristeza. De desencanto. Falou das dúvidas. Das tentativas de conversar. Das investidas para esclarecer. Tudo sem resultado. Nem a melhor amiga acreditava no relato. Conhecia os dois como ninguém, pois fora ela que os apresentara, quando ainda estavam na faculdade. Inacreditável, a amiga dissera. E como era psicóloga, sugeriu uma sessão, ou várias!

E o tempo passou. Decisões foram tomadas. Cada um para o seu canto. Oito meses pós-separação. Sem brigas e sem confusão, apenas se deixaram. Já não havia porque seguir juntos. Melhor assim, melhor para os dois. Mas doeu demais. Doeu… doeu!

Ela quase morreu. Foi morar com os pais. Nos três primeiros meses com tantas doses de amor e de carinho, foi sentindo-se cada vez mais segura. Tudo o que ela precisava era de colo. E foi assim que ressuscitou! Poucos meses depois alugou um apartamento até que se resolvesse – entre ela e o marido – como seria a vida dali pra frente. Liberdade.

A tristeza, a dor e a saudade fizeram com que ela perdesse oito quilos. Ficou com o corpo perfeito. Cortou bem curtinho os longos cabelos de antes. Colocou um tom meio avermelhado, discreto e muito chique. Comprou roupas novas, duas bolsas de grife, auto estima crescendo.

Muito trabalho, exercícios físicos, florais. Bons vinhos pra relaxar e, quando necessário, umas gotas do remedinho pra dormir. Vida social intensa, do jeito que a pandemia permitia. Continuou no mesmo escritório de advocacia, trabalhando em home office. Tem saído com certa frequência. Dentro do possível e com os devidos cuidados. Reencontrou muitos colegas. Adicionou antigos amigos à sua rede social. 

Agora surgiu um crush. Um cara legal descoberto na internet, por acaso, no facebook. Bem humorado, alegre, descontraído, o oposto do “outro”. Jantares saborosos e divertidos. Sobremesas sempre com gosto de quero mais. Dormir de conchinha sabendo que dali a pouco, cada um para o seu lado, até o próximo encontro. A história já dura algum tempo e tem tudo para continuar. Que seja muito bom, para os dois, enquanto tiver que ser. Nenhuma expectativa quanto ao futuro. Casar de novo, de maneira nenhuma. Jamais. Viver a dois, sob o mesmo teto, mata até o maior e mais profundo amor, ela diz.

Não pensa e nem quer nada sério. 

Nunca mais…

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